<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-6166509029461223532</id><updated>2011-12-03T19:34:03.769-08:00</updated><title type='text'>Agnostha</title><subtitle type='html'>Ensaio Biográfico e Literário</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://agnostha.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://agnostha.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Sandréa Moraes</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_Tdk5QkTb-5s/S2ob3FNaErI/AAAAAAAAAOM/owcPzIblkBQ/S220/Sandrea2.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>28</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6166509029461223532.post-3697438073915545515</id><published>2011-07-18T12:42:00.000-07:00</published><updated>2011-07-18T12:43:31.687-07:00</updated><title type='text'>Agnostha</title><content type='html'>Tudo que é desconhecido é &lt;span id="SPELLING_ERROR_0" class="blsp-spelling-error"&gt;agnosto&lt;/span&gt;, agnóstico.&lt;br /&gt;"&lt;span id="SPELLING_ERROR_1" class="blsp-spelling-error"&gt;Agnosta&lt;/span&gt;", ΑΓΝΩΣΤΑ do grego, "desconhecido".&lt;br /&gt;Como desconhecida pouco, é bobagem... esse blog ficou &lt;span id="SPELLING_ERROR_2" class="blsp-spelling-error"&gt;Agnostha&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;Com H, pra ter mais charme... se tornar um nome.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui você vai encontrar os fatos(?) mais estranhos que já aconteceram comigo.&lt;br /&gt;Não pretendo seguir nenhuma cronologia.... é melhor assim... escrever o que der vontade de revelar...&lt;br /&gt;Além do mais, isso é um blog, não um livro, embora tenha pensado em escrever um livro com os textos que estão aqui... &lt;em&gt;será que alguém se interessaria em comprar minhas insólitas histórias?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem... se tiver paciência e mente aberta, poderá ler algumas coisas interessantes... encare como uma &lt;span id="SPELLING_ERROR_3" class="blsp-spelling-error"&gt;distração&lt;/span&gt;. Se bem que pra mim, é tudo &lt;span id="SPELLING_ERROR_4" class="blsp-spelling-corrected"&gt;verdade&lt;/span&gt;... como em um exercício de &lt;span id="SPELLING_ERROR_5" class="blsp-spelling-error"&gt;autoconhecimento&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span id="SPELLING_ERROR_6" class="blsp-spelling-error"&gt;Autoconhecimento&lt;/span&gt; de uma estranha... desconhecida... &lt;span id="SPELLING_ERROR_7" class="blsp-spelling-error"&gt;agnosta&lt;/span&gt;... &lt;span id="SPELLING_ERROR_8" class="blsp-spelling-error"&gt;Agnostha&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deu vontade de ler? Comece &lt;a href="http://agnostha.blogspot.com/2009/09/ladrao.html"&gt;aqui&lt;/a&gt;.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6166509029461223532-3697438073915545515?l=agnostha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://agnostha.blogspot.com/feeds/3697438073915545515/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6166509029461223532&amp;postID=3697438073915545515&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/3697438073915545515'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/3697438073915545515'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://agnostha.blogspot.com/2011/07/agnostha.html' title='Agnostha'/><author><name>Agnostha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01959666006463231736</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://2.bp.blogspot.com/_CHP_-J93J6o/S1TD3Zrm6JI/AAAAAAAAAAM/AUnSeLWxstk/S220/Ag1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6166509029461223532.post-6713426235274203937</id><published>2011-07-18T12:40:00.000-07:00</published><updated>2011-07-18T12:41:04.373-07:00</updated><title type='text'>No Prelo</title><content type='html'>Pois é.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não dá mais para continuar publicando essa estória aqui. Acho que vou publicá-la em papel. Não sei se vai vender... mas ao menos poderei dizer a minha filha que um dia publiquei um livro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para aqueles que estavam acompanhando a estória por este blog, eu peço desculpas e aviso que, quem sabe, a gente se encontra numa livraria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ser Agnostha é ser assim... imprevisível... estranhamente imprevisível...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desejem-me sorte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alya.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6166509029461223532-6713426235274203937?l=agnostha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://agnostha.blogspot.com/feeds/6713426235274203937/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6166509029461223532&amp;postID=6713426235274203937&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/6713426235274203937'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/6713426235274203937'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://agnostha.blogspot.com/2011/07/no-prelo.html' title='No Prelo'/><author><name>Agnostha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01959666006463231736</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://2.bp.blogspot.com/_CHP_-J93J6o/S1TD3Zrm6JI/AAAAAAAAAAM/AUnSeLWxstk/S220/Ag1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6166509029461223532.post-7716995425814715110</id><published>2010-09-14T13:05:00.000-07:00</published><updated>2010-09-22T18:43:46.307-07:00</updated><title type='text'>Redentor (Parte 2)</title><content type='html'>Não faço ideia de quanto tempo já dormia, ou já sonhava, quando ganhei alguma consciência.&lt;br /&gt;Estava de pé com os olhos fechados... no meu quarto?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha consciência clareou um pouco mais na mesma proporção em que meu corpo tencionou quando a escuridão ganhou novo significado. Estava de pé em algum lugar que não meu quarto - concluí. Os sons indistintos vinham de muito longe, como ecos.&lt;br /&gt;Me lembrei do sonho do abismo. Um frio percorreu minha espinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como se fosse para provar minha situação de perigo, uma brisa suave soprou pelo meu corpo. Eu devia estar nua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Ótimo!&lt;/em&gt; - pensei sarcasticamente. Agora me sentia apavorada e frágil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os segundos se arrastavam. Apertei os olhos me forçando a acordar. Sabia que acordaria assustada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Não seja infantil... - me disseram.&lt;br /&gt;-- Pra você é fácil falar... - repliquei ainda tentando acordar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso foi estranho.&lt;br /&gt;No sonho, me pareceu normal que houvesse alguém ali para falar comigo. A impressão que tinha, era de que já estávamos conversando há algum tempo antes de eu ganhar consciência, entretanto, o que escrevo aqui é tudo de que me lembro.&lt;br /&gt;Foi um encontro, não sei com quem - apesar de imaginar hoje, por tudo que me aconteceu depois, qual foi o teor da conversa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Sem medo... - continuou a voz complacente - O que tiver que ser, será... Agnostha... - a última sílaba ecoou até sumir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu coração palpitou. A menção à Agnostha remeteu-me a minha força. Mas minha força, eu sei, vinha de meu Deus. Eu não sou nada sem Ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Inspirei o ar pesadamente.&lt;br /&gt;Munida dessa força que brota dentro da gente quando se pensa em Deus, suspirei, ergui a cabeça devagar olhando para o céu e.... abri os olhos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Eis-me aqui, Senhor!!!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi como se eu mandasse um sinal aos Céus e este me enviasse minha armadura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No mesmo segundo, fui inundada por uma sensação maravilhosa de força, paz e amor.&lt;br /&gt;Se antes meu corpo vacilava ao sabor do vento, agora estava firme como uma rocha sobre meu ponto de apoio. Se antes estava nua, agora me sentia vestida. Forte.&lt;br /&gt;Eu estava Agnostha. Eu sabia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sorri sem medo. Trouxe a cabeça de volta e olhei para o horizonte.&lt;br /&gt;Quase de frente para mim, um pouco a direita, o halo do sol surgia no horizonte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Respirei. Fascinante! O céu variava do cinza-noite, passando pelo turquesa até o laranja amanhecer. Ia ser um lindo dia...&lt;br /&gt;Apreciei a paisagem: a Urca, a enseada, a baía, a ponte... uma tênue neblina em torno de tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Maravilhoso!!!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;E tão feliz eu fiquei, que imitei o gesto mais evidente do cenário: abri meus braços!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Eu estava de pé sobre o ombro direito da gigantesca estátua do Cristo Redentor!!!&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Ri um pouco do momento incrível e de toda aquela situação.&lt;br /&gt;Que lugar mais absurdo para um encontro! No ombro!? - pensei - Deixa pra lá... isso aqui é muito lindo!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o sol despontou azulando o céu, e seus primeiros raios me atingiram, meu corpo resplandeceu em sua superfície espelhada. &lt;em&gt;Que sensação!&lt;/em&gt; Permiti-me sorver aquilo.&lt;br /&gt;Fechei os olhos e inspirei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Algo acontecia... Agora eu podia sentir tudo a minha volta. Tudo...&lt;br /&gt;Era como se o cenário estivesse envolto numa bolha de ar, mas eu era eu, e o ar ao mesmo tempo... Difícil explicar. Eu podia sentir o granito sob meus pés, o grande formato da cabeça ao meu lado, a base da montanha, a pedra, a vegetação, os pássaros... Poderia dizer aonde estavam as pessoas que cuidavam do mirante, e mesmo a temperatura, a velocidade e a direção do vento eu sabia. Eu sabia tudo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquela altitude seria vertiginosa se eu estivesse lá na vida real.&lt;br /&gt;No ponto estreito em que pisava, havia uma dobra do panejamento que cobre o ombro do Cristo, assim meu apoio era quase um &lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_O34jDb60pBk/S1Rs0dqDyUI/AAAAAAAACQw/DX1k3tvFM3I/s1600-h/allfivepositions.gif"&gt;plié&lt;/a&gt; de quinta posição - algo inadmissível se estivesse acordada. &lt;em&gt;Eu, mal e mal, consigo trocar uma lâmpada numa escada...&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;O nó na garganta que sentia agora, era de felicidade. Deus sempre foi muito bom pra mim. Sempre me senti amada por Ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sorri. Era hora de ir. Minha vida seguiria.&lt;br /&gt;Eu estava forte e me sentia preparada para a alegria e para a dor, e estranhamente feliz por ter os dois. Não me pergunte como sabia disso... só sabia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda de braços abertos, olhei para a frente e deixei meu corpo se inclinar lentamente....&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;... e caí!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;UAU!!!&lt;br /&gt;Meu voo rasante passou rente à mureta da sacada principal e no outro segundo via o verde da montanha. Juntei os braços ao longo do corpo e, como um míssil, ganhei mais velocidade. Direcionei meu impulso para a direita e já via o morro da Urca. Os prédios passando como borrões sob mim. Mais um segundo e o morro ficou para trás. Ganhei a Baía de Guanabara - um borrão azul. Vi a Praia de Icaraí. Entrando pelo continente estaria em casa em segundos. Deixei a velocidade do pensamento me dominar; meu corpo me atraindo como um imã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arfei. &lt;em&gt;Nossa!!!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia acordado. Me sentia maravilhosamente bem. O sorriso estampado no rosto. Meu corpo quente. A superfície da pele formigando ligeiramente. Não incomodava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me espreguicei e a sensação parecia estar colada em mim. Eu devia estar irradiando energia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembrei que estivera no Corcovado num dia de férias com meus pais - é claro que estivera no mirante... não lá no ombro, mais alto ainda. E foi um dia muito legal em família. É provável que isso tenha sido gravado em meu inconsciente e daí o sonho. Não me detive neste pensamento. Estava feliz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda era cedo, então fiquei na cama por alguns minutos. Rememorava o sonho e sorria.&lt;br /&gt;Não me aguentei por muito tempo. Levantei saltitante como uma gazela e fui pegar minhas roupas. Estava muito ansiosa por começar o dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;----------------------------------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dia na faculdade foi ótimo. Ou era meu estado de espírito?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recebi minha nota em História da Arte e era boa. Em outra disciplina, eu e as amigas Diva, Lili e Lú conseguimos todos os textos para compor o seminário da semana seguinte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No intervalo corri até a sala do DA. Havia recado pra mim. O rapaz da xerox me entregou um papelzinho com a caligrafia conhecida:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Grande Alya, temos que nos ver hoje à noite. Te ligo mais tarde. Marconi".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Ai, que bom!&lt;/em&gt; - pensei. Voltaria à Unirio. Quem sabe Lino me acompanhava?&lt;br /&gt;Marconi tinha o telefone da sala de Nini. Ficaria esperando - o ramal do balcão só seria instalado mais tarde junto com as reformas da biblioteca. Corri de volta a sala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na saída, eu e Lili passamos pela agência bancária que ficava nos fundos da faculdade. Sacamos parte do nosso maravilhoso ordenado de estagiária. Era 1º de abril. Eu tinha que reservar algum para ir a BH, mas ainda daria para eu e Lili almoçarmos no Hamburgão - era o restaurante mais caro do Fundão e só no dia do pagamento comíamos por lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Corremos para o ônibus quase perdido. Viajando em pé - como de costume - Lili me pergunta - também de costume - como vai meu quase-romance.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Ah, Lili... na mesma... - respondi balançando a cabeça.&lt;br /&gt;-- E você não falou nada pra ele? Nem uma pista? - perguntou com um sorriso maroto.&lt;br /&gt;-- Já dei pistas demais. - fiz uma cara desapontada - Sabe o que me aconteceu ontem?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E contei o flagra do usuário. Ela riu e comentou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- É, amiga. Não queria estar em sua pele... Você foi escolher o cara mais isolado da faculdade... Isso é o que dá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Revirei meus olhos. O que eu podia fazer? Ninguém escolhe a quem amar...&lt;br /&gt;"Isolado". Termo interessante... Por que será que Lino fazia questão de parecer "isolado" aos olhos dos outros? Ou seria "invisível" a palavra certa? - hoje, imagino que minha curiosidade em torno dele, foi um dos ingredientes dessa paixão...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Pra você ver a minha sorte... - comentei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela riu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Vai voltar à faculdade hoje? - perguntou&lt;br /&gt;-- Talvez... Marconi ficou de me ligar...&lt;br /&gt;-- Humm... - fez com malícia - Vai estar coladinha com o Lino... - e me empurrou com o ombro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu devolvi o empurrão, sem jeito:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Ai, Lili, não me ponha nervosa!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E mudei de assunto. Minha cabeça já estava cheia daquele cara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de almoçar no Hamburgão e dar uma passadinha nos toaletes, nos despedimos e corri para o IF. Ao chegar, me deparei com uma moça bem baixinha, de cabelos encaracolados e cheios sentada ao balcão. Era a Vallery.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trocamos um "boa tarde", assinei meu ponto, guardei a mochila e me sentei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Cadê todo mundo? - perguntei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vallery era uma moça que trabalhava na biblioteca do &lt;a href="http://www.ccmn.ufrj.br/"&gt;CCMN&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;Quando as coisas ficavam muito atribuladas no IF, Nini a pedia "emprestada" à Madalena, gestora do Centro. A conheci na semana das matrículas. Ela fazia Serviço Social na UFRJ. Eu gostava dela por seu ar maternal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Nini pediu ao Lino e ao Zé que fossem ao CCMN ver o espaço para alojar parte do acervo. Daqui a pouco eles estão por aí... Você sabe que as reformas vão começar, não sabe? - lembrou-me ela.&lt;br /&gt;-- Ah, é.&lt;br /&gt;-- Olhe, a Nini quer falar com você. Dê um pulinho lá.&lt;br /&gt;-- Ok.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me levantei e fui até a sala da bibliotecária-chefe.&lt;br /&gt;Nini me recebeu com um sorriso e me explicou que devido às reformas, a biblioteca só funcionaria dois dias por semana. Assim sendo, ela concluiu que não seria necessário que todos viessem nestes dias e que por isso, passaríamos a trabalhar em sistema de plantão, apenas três de cada vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Seu estágio acabaria na primeira semana do mês que vem, mas com isso e mais sua viagem à BH, receio que teremos que adiar sua saída, quem sabe, para junho. - concluiu ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não me opus tendo em vista que ela fora muito compreensiva em permitir que eu viajasse no meio do mês e compensasse depois. Compensar mais um mês não seria um sacrifício. Não mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes de eu sair, ela disse que Marconi ligara e que eu poderia usar seu telefone. Disquei o número que ela anotou e do outro lado da linha Marconi atende:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Graaande, Alya! Salve, Salve!&lt;br /&gt;-- E aí, Marconi? Tudo certinho!? Que manda? Nos veremos hoje?&lt;br /&gt;-- Olhe, querida, - começou ele - amanhã é o último dia para enviarmos os currículos dos palestrantes à banca da Executiva Nacional para avaliação. O Leandro trabalha com dois dos palestrantes e havia se comprometido a levar o currículo deles lá para a nossa reunião. Só que ele teve um imprevisto e não irá. Como ele estará aí no Fundão para um seminário, eu pedi a ele que os entregasse a você para que os trouxesse para mim hoje. Eu tenho fax no trabalho e passarei os currículos amanhã pela manhã. - &lt;em&gt;naquele tempo, nada de e-mails; e fax era uma coisa corporativa...&lt;/em&gt; - Ele deve passar por aí lá pelas 15h, ok?&lt;br /&gt;-- Tá ok, Marconi. Ficarei esperando. Até a noite, então.&lt;br /&gt;-- Beijo!&lt;br /&gt;-- Beijo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desliguei.&lt;br /&gt;Ah, puxa, logo o convencido do Leandro? - pensei - Bah! Deixa pra lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agradeci à Nini, voltei ao balcão e aproveitei para papear com a Vallery.&lt;br /&gt;Ela me parecia uma moça tímida, mas com meu talento pra puxar assuntos - que funciona bem com quem quer falar - ela se soltou mais, e em pouco estávamos rindo enquanto trabalhávamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante nossa animação, ela começou a me contar seu sonho daquela noite. Ela sonhara que tinha uma espinha no rosto e que ao espremê-la, ela ia ficando maior, e maior, até que uma cabeça caía no chão. Ela acordava horrorizada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei surpresa por ela me escolher para contar aquilo. A gente se via pouco.&lt;br /&gt;Isso ocorre de vez em quando. As pessoas, do nada, começam a me contar seus sonhos... Devo ter cara de "confessionário onírico"...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Acho que você deve procurar um médico. - disse em tom moderado - Você comentou que está com gastrite. Talvez a coisa seja um pouco mais séria e seu corpo esteja querendo avisá-la...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei de onde me veio aquilo, mas a menção à "cabeça" me lembrou algo que tem vontade própria, que pensa sozinho, vivendo dentro dela... sei lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- É. Vou procurar. - respondeu ela de um jeito anticlimático, frio, me olhando de cima abaixo e acima de novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É justamente aquele tipo de olhar que eu evitava - e evito - ao máximo. Ela me olhou daquele jeito que tenho medo que as pessoas me olhem se eu contar minhas aventuras oníricas. Me achando uma esquisita. Estranha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dei um sorrizinho sem graça e voltamos ao trabalho. O papo continuou, claro, mas senti que agora ela tateava para falar comigo. Ainda bem que minha tarde melhorou quando meus afetos entraram pela porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Olá, meninas! - saudou o Zé.&lt;br /&gt;-- Boa tarde. - saudou Lino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles passaram direto pelo corredor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- E aí, rapazes? Como foi lá? - perguntei animada.&lt;br /&gt;-- Foi tranquilo. - disse o Zé ao passar - Vimos os espaços para acondicionamento do acervo. Depois a gente conversa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E seguiram direto para a sala da Nini para prestar seu relatório.&lt;br /&gt;Uns dez minutos depois, tão logo eles estavam de volta, Vallery falou com Nini, se despediu de nós e saiu na sequência. Será que eu a havia assustado? Até hoje não sei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os rapazes tomaram seus lugares de costume e ficamos a falar sobre as reformas e em como poderíamos aproveitar o tempo livre do plantão. Todos tinham em mente pôr os estudos em dia.&lt;br /&gt;É claro que nem tudo era seriedade... Fizemos piadas sobre o 1º de abril - Dia da Mentira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tempo foi passando e conforme chegavam, avisávamos aos alunos que a biblioteca entraria em reformas e que só ficaria aberta dois dias por semana. Nini preparava uns panfletos para divulgar aquilo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá pelas três horas, haviam poucos livros a serem arquivados de modo que o Zé se oferecera para realizar a tarefa sozinho. Ele saiu empurrando o carrinho, mas antes, e só para mim, ele deu uma piscadinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando entendi suas intenções, eu travei um sorriso e meneei a cabeça. Zé estava nos deixando sozinhos de propósito.... Eu tinha mais um torcedor.&lt;br /&gt;Depois que ele saiu, ainda debruçada sobre o livro em que trabalhava, comentei casualmente:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Vou voltar a Unirio hoje, Lino. Você vai à aula?&lt;br /&gt;-- Vou sim.&lt;br /&gt;-- Podemos ir juntos?&lt;br /&gt;-- Sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu olhei para ele que sorria. Eu sorri por dentro e por fora, mas voltei a dar atenção ao meu livro.&lt;br /&gt;Quando achei que Lino iria me dirigir a palavra para falar alguma coisa, Leandro entra hall a dentro fazendo barulho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Achei você!!! - sorria ele - E aí, gata!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele se aproximou e se inclinou por sobre o balcão na minha frente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Oi, Leandro. Tudo bom? - disse educada.&lt;br /&gt;-- Qual é, Alya? Nem um beijinho? Nós somos companheiros de causa ou não somos? - e sorriu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rolei meus olhos à hipérbole e tive que rir. Ele era tão espontâneo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Ah... Desculpe...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levantei-me, apoiei as mãos na bancada, me inclinei sobre o balcão e lhe beijei as faces.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leandro tinha aquele jeito chato de cumprimentar. Ele virava um pouco o rosto para dar beijinhos estalados, sua mão segurava a nuca da pessoa beijada e ele fazia isso mais lentamente do que a amizade permitia. Ele fazia isso com todas as garotas. Todas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao me afastar dele, me senti um pouco constrangida porque Lino estava ali e certamente observara a cena.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- E aí, Lino? Tudo jóia? - saudou Leandro estendendo sua mão para ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leandro e Lino eram da mesma turma. Se conheciam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Tudo bem, e você? - respondeu levantando-se e apertando sua mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leandro riu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Cara! Você trabalha com a Alya, - gesticulou para mim - e nunca falou nada! Pôxa!&lt;br /&gt;-- Pois é...&lt;br /&gt;-- Puxa, essa garota não para! Fala pra chuchu, resolve tudo e reclama a beça! Como tu aguenta!? - ele ria de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comecei a corar e tive que me intrometer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Ei! Vê lá como fala de mim! - disse brincando - Vai assustar o Lino! - eu sorria... mas estava falando sério.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lino deu um sorriso presunçoso e respondeu a ele:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Eu já me acostumei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu murmurei alguma coisa contra os dois que estavam me zoando.&lt;br /&gt;Lino e Leandro ficaram mais alguns minutos conversando sobre qualquer coisa referente a um trabalho acadêmico. Era contrastante ver os dois falando. Um com a voz modulada e gestos contidos e o outro tagarelando e gesticulando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Olha, gata. - disse Leandro quando se virou e pousou uma pasta plástica azul sobre o balcão - Aqui estão os currículos e as cartas de apresentação dos palestrantes. Tenho que voltar pro seminário.&lt;br /&gt;-- Ah, sim. Obrigada. - respondi pousando a mão sobre a pasta para puxá-la para mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leandro travou meu movimento ao segurar minha mão e de repente ficou sério:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- A gente se vê na próxima reunião, Alya. - e soltou todo o poder de seus olhos verdes sobre mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pega de surpresa, como uma passarinho mesmerizado por uma cobra, fiquei alguns segundos perdida nos olhos dele. Emudeci.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É claro que ele gostou da minha expressão...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Tchau, Lino! - disse ele ainda me olhando - A gente se vê amanhã. - só aí me soltou quebrando o link.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Virou-se, acenou e saiu sem mais.&lt;br /&gt;Eu e Lino murmuramos um "tchau" mudo e quando a porta se fechou atrás dele a biblioteca ficou em total silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda desconcertada, soltei a respiração que prendia e peguei a pasta. A guardei junto de minhas coisas e me sentei. Lino já estava em seu lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Ele é um cara legal... - comentei para quebrar o gelo - É meio chatinho, mas é legal... - e me lembrei dos olhos verdes - ... Além de ser um tremendo gato! - completei em tom de brincadeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lino não fez expressão alguma. Apenas levantou-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Vou ver se Nini quer que eu leve as cartas para os escaninhos agora. - disse com indiferença. Passou por mim e saiu pelas portas duplas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu fiquei no vácuo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;!?!?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Me virei, abri o armário e peguei algumas fichas para ordenar. Bati a gaveta com força.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Droga!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa era, basicamente, a diferença entre Lino e eu: ele falava de menos e eu demais.&lt;br /&gt;Será que lhe provoquei ciúmes? Eu nunca saberia. Eu não tinha material o suficiente para analisar a situação. E era também isso que atrapalhava aquele romance. Eu nunca conseguia ter uma certeza razoável sobre se ele gostava de mim do mesmo jeito que eu gostava dele. Para cada palavra ou expressão que me dizia que sim; havia uma dúzia, que não me diziam que não, mas me deixavam no limbo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava eu xingando mentalmente quando o Zé voltou ao balcão e Lino passou pelo hall com as cartas porta à fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Aconteceu alguma coisa? Vocês brigaram? - perguntou Zé ao sentar-se.&lt;br /&gt;-- Não. Por que? - me surpreendi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Zé deu de ombros:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Ah... Por nada... É que ele estava com uma cara...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, Droga... O que ele estaria pensando? Argh! Vou mandar esse garoto às favas! Já não aguento mais esse "estica e puxa" de sentimentos. Saco!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Dez para as quatro, Alya. - cortou o Zé - Você não tem que voltar à Unirio?&lt;br /&gt;-- Ãh? Ah, é.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parei o que fazia e comecei a recolher minhas coisas. Depois peguei a mochila e a tal pasta azul e as pousei sobre o balcão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Ia partir sem mim? - Lino perguntou ao entrar pelas portas da biblioteca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sorri quando o vi, sinceramente feliz por ele parecer estar de bom humor de novo. Minha raiva se esvaindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Eu estava te esperando... - mentira. Àquela altura eu já achava que teria que ir sozinha - Vamos? - controlei o sorriso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Zé sempre ficava mais meia-hora para pagar suas faltas com seminários e cursos, então nunca saía conosco. Lino pegou suas coisas, nos despedimos de todos e saímos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fizemos o conhecido trajeto falando pouco.&lt;br /&gt;Falamos sobre as reformas na biblioteca - Vão instalar computadores? Puxa! -, da situação política do país - em duas palavras: Era Collor -, das greves e dos salários.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos alojamentos, nos dirigimos automaticamente para nosso jardim e, mais uma vez, senti a timidez pairar no ar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Vão ter que esticar meu estágio, sabia? - comentei - Com essas reformas e minha viagem à BH, eu vou acabar tendo que compensar até junho.&lt;br /&gt;-- Junho? - sorriu ele - Até quando? ...Até meu aniversário?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu olhei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Você faz aniversário em junho?&lt;br /&gt;-- 19 de junho.&lt;br /&gt;-- Hum... Um geminiano... - disse num tom de mistério. Cruzei as pernas e pousei as mãos nos joelhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conhecer as fases dos &lt;a href="http://www.astral-online.com/sol/index.shtml"&gt;signos solares &lt;/a&gt;não era algo recente para mim. Eu sempre me interessei por Astrologia. No entanto, eu sabia pouco sobre Gêmeos. Sabia que mudavam de humor rapidamente e que a dualidade é um traço marcante na personalidade dos geminianos, e só. ( Hoje eu sei bem mais que isso...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele perguntou curioso sobre o que eu sabia e eu lhe respondi o comentado acima. Ele me olhou incrédulo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Eu não acredito nessas coisas. - afirmou com um sorriso zombador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu olhei presunçosa:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Você sabia que o signo de Virgem é o único que consegue mudar o humor de um geminiano tanto para o bom quanto para o mau?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele sorriu apertando os lábios, olhou para longe e de volta para mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- E você é virgiriana. - o sorriso se abriu.&lt;br /&gt;-- De 28 de agosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele se inclinou e apoiou os cotovelos nos joelhos, juntou as mãos e olhou de novo para longe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Então, neste caso, estou começando a acreditar... - e me olhou com o canto dos olhos - Só você consegue me fazer sorrir e também me irritar ultimamente...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu coração palpitou. Ele queria dizer o quê? Que eu era a dona do humor dele?&lt;br /&gt;Resolvi manter o diálogo leve.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Eu te irrito? - sorri e bati com meu ombro no dele - Eu não sou nada irritante, tá! - disse como uma garotinha. E mudando o tom completei - Eu gosto de mexer com você... Provocar você... É diferente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Ai, meu Deus... o que eu estava dizendo?&lt;/em&gt; "Provocar" poderia ter diversas interpretações... Mais um pouco e eu estaria me declarando. Me calei e virei o rosto encabulada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- ...nosso ônibus. - ele disse. Pareceu-me que ele fizera um esforço para falar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Soltei o ar pesadamente. Ainda sem olhar, ajeitei a mochila no ombro e me levantei. Nem tinha notado que o ônibus chegara.&lt;br /&gt;Caminhei sem falar nada e o rapaz ao meu lado também estava quieto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como de costume, ele parou à porta e fez sinal para eu subir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia um banco vazio no meio do ônibus e me sentei à janela.&lt;br /&gt;Tão logo ele se recostou ao meu lado percebi seu calor. Era bom. Olhei discretamente. Lado a lado, seu ombro era um palmo mais alto que o meu. Ele estava usando uma camisa de botões negra com as mangas dobradas até o cotovelo e calça jeans escura. Lhe caíam muito bem. Eu gostava daquele porte físico dele. Me atraía... Na verdade eu achava ele lindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ônibus deu partida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Ai, meu Deus! Minha pasta! Onde a deixei!? - me alarmei tateando em volta quando me libertei do devaneio.&lt;br /&gt;-- Calma... está aqui. - e me passou ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que alívio! Eu vivia esquecendo as coisas... Se não fosse ele...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Ah... Obrigada. - disse me recompondo. Sorri um pouco. - Eu ando meio distraída... Essa distração vive atrapalhando meus planos... - afirmei resignada.&lt;br /&gt;-- E quais são seus planos? - me encarava agora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hum... Essa me pegou... Ele estava me dando assunto para uma hora inteira de viagem até a Urca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Ah... Bem... - comecei entrando em &lt;em&gt;modo palestra &lt;/em&gt;- Primeiro preciso me formar; conseguir um emprego... - gesticulei - Neste caso, essa viagem à BH será uma boa experiência profissional porque, você sabe, nossa área...&lt;br /&gt;-- Nós já falamos sobre nossa vida profissional... - me cortou ele - Eu falo da vida pessoal... - engoliu. Corava? - Quais são seus planos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Senti aquele friozinho no estômago. Para onde ele estava levando aquela conversa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Sinceridade, Agnostha.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Bem... No nível pessoal as coisas estão meio confusas... - eu moderava a voz agora - Ainda não sei bem o que quero. - meus olhos vagaram - Tenho milhões de tarefas e responsabilidades comigo, com minha família, os estudos e o DA. - balancei a cabeça - As vezes é bem difícil fazer um plano coerente, sabe? - e olhei pra ele.&lt;br /&gt;-- E os pretendentes? - perguntou casualmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui corando. Olhei para a frente. Apertei as mãos no o colo sobre a mochila.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Ah... Tenho alguns, você sabe... - gesticulei - Mas eles não se encaixam nos meus planos... Não que eu não queira... A vida é que está confusa mesmo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Notei que ele puxou o ar antes de falar:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Você tem planos com o Leandro?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leandro? Como Leandro entrou nessa conversa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Perseverança, Agnostha.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;-- Não... eu não tenho planos com o Leandro... - suspirei - Tenho planos com outra pessoa... - e olhei furtivamente para ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele girou um pouco no banco, virando-se pra mim, e procurou meus olhos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Outra pessoa? - hesitou - Posso saber quem?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha respiração suspendeu. Eu pisquei confusa e me virei para a frente. Dois segundos e soltei o ar de maneira audível. Senti seus olhos ainda sobre mim. Tão perto...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;O que faço!? Falo? Digo que gosto dele? Mudo de assunto? Ajo?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Meu coração martelava forte enquanto meu sangue fervia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Coragem, Agnostha.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Agi.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Solenemente, me virei pra ele, puxei seu queixo para baixo e, delicadamente, dei um, dois, três selinhos em seus lábios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Você, idiota. - completei olhando em seus olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei pra frente de novo. Desnorteada com o que tinha feito, continuei falando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Bem... como ia te dizendo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;... e não faço a menor ideia do que disse naquela hora!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu coração palpitava como louco e meus ouvidos zuniam! Minhas mãos pareciam picolés e meu rosto estava ardendo de vergonha e - por que não? - de alegria também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele estava congelado - ou chocado - na mesma posição... Eu não sei... eu ainda não tinha coragem para olhar. Eu falava sem parar para respirar e devo ter falado por um minuto inteiro!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vendo que a situação era insustentável, eu finalmente pausei e inspirei fundo.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;O que fiz!? Será que ele estava chateado comigo? Toda nossa amizade perdida?&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Expirei relaxando os ombros e olhei pra ele sem encarar seus olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Ai, ai... Me desculpe... - disse sem jeito - Eu sou maluca... Eu sou doida... eu... - e balancei a cabeça - Eu não queria te forçar... eu...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sua mão segurou meu queixo e levantou meu rosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Ainda bem que você falou... - seus olhos nos meus. Sorriu - ...Eu estava juntando coragem pra me declarar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;E aí sua boca colou na minha e eu não vi mais nada!&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Não vi o ônibus cheio de gente, não senti seu saculejar, não vi em que ponto do trajeto estávamos... Nada!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O primeiro beijo com alguém que se ama é sempre o melhor de todos! Não dá para descrever!&lt;br /&gt;Seus lábios eram macios, úmidos e quentes. Eles se encaixavam perfeitamente nos meus... e o gosto... e a língua... Ah!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos últimos dois meses minha vida tinha sido uma eterna dúvida ...e desejo. Aquele beijo era um alívio e ao mesmo tempo uma guinada em minhas emoções.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando nos desvencilhamos olhamos nos olhos e sorrimos. Nossa respiração indo e vindo rápido. Sua mão afagou meu rosto e eu retribuí o gesto. Como era bom finalmente poder tocá-lo! Tocá-lo com carinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele segundo eu senti como se fosse um reencontro... Eu não sei explicar... Era como uma saudade enorme... que morria ali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda não havia espaço para palavras então nos beijamos de novo... e de novo... Até que tive que fazer um esforço consciente para lembrar que estávamos num ônibus acadêmico cheio de gente e me comportar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Éramos todo sorriso. Agora nossas mãos dadas pousavam sobre a mochila em seu colo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Ainda bem que isso aconteceu. Eu não aguentava mais essa situação... - comentou ele timidamente.&lt;br /&gt;-- Você não aguentava!? - eu controlava minha euforia - Eu é que não aguentava mais!!! Você tem noção do que passei!?&lt;br /&gt;-- Você passou? - e riu - E o que eu passei? Sem saber se o que percebia era interesse, ou mais uma brincadeira sua...&lt;br /&gt;-- Brincadeira!? - bufei teatral - E você que tem a mesma cara para todas as emoções!? Como eu ia saber!?&lt;br /&gt;-- A mesma cara? - e riu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E começamos a brincar um com o outro sobre nossas inseguranças naqueles meses.&lt;br /&gt;Foi divertido. Fiquei sabendo que ele estava interessado em mim desde a primeira ida à Unirio, que ele pensava que eu namorava o Marconi, que ele se segurava pra não me beijar na biblioteca...&lt;br /&gt;Fiquei feliz. Em troca falei de como me sentia quando ele chegava perto demais ou quando estávamos sozinhos no balcão, e da vergonha que senti quando peguei ele sem camisa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nós rimos muito.&lt;br /&gt;A situação toda era engraçada porque parecíamos dois amigos que se beijavam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar da brincadeira, eu ainda estava alerta. Sabia que ele tinha terminado um namoro recentemente e o que acontecera ali, podia ser algo de momento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não queria falar sobre nada sério naquela hora. Não queria perguntar se estávamos namorando de verdade ou não. Não queria saber da &lt;em&gt;ex&lt;/em&gt; dele e em que pé estava.&lt;br /&gt;Eu queria aproveitar o agora... Deixar toda minha ansiedade acumulada se esvair na felicidade daquele momento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fomos nesse clima até a Urca. De vez em quando um beijo interrompia o diálogo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando ele segurou minha mão para descer do ônibus, não a largou mais.&lt;br /&gt;Quem passava, via um casal feliz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me sentia meio idiota com um sorriso estampado no rosto que não desmanchava. Não conseguia encará-lo diretamente, com vergonha de parecer uma boba infantil. Eu era, literalmente, uma adolescente de com seu primeiro amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caminhamos pelo pátio - ou era o céu? - e só me dei conta que já estava em frente a escada da sala do DA porque ele parou. Olhei e vi que tinha gente lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficamos de frente um para o outro. Ele me passou a pasta azul - que eu já nem me lembrava dela (de novo) - e sorriu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me demorei em seus olhos negros.&lt;br /&gt;É. Brilhavam... como os meus...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- E então... - era sempre eu quem quebrava o gelo... naquele caso, o calor - ... nos vemos amanhã?&lt;br /&gt;-- Espero que sim. - e sorriu torto - Vou estar te esperando...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele se inclinou e me beijou de novo.&lt;br /&gt;Ele apenas pousou sua mão em minha cintura, mas eu tive que me esforçar para fazer daquele beijo, só um beijinho de despedida...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o coração palpitando, eu sorri e me afastei dele.&lt;br /&gt;Foi difícil dar-lhe as costas e subir as escadas. Estabanada como era, não sei como consegui.&lt;br /&gt;Do topo olhei pra ele e sorri. Ele inclinou a cabeça e sorriu também.&lt;br /&gt;Fiquei olhando até ele sumir na rampa dos elevadores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Suspirei e entrei saltitante na sala do DA. Feliz da vida.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6166509029461223532-7716995425814715110?l=agnostha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://agnostha.blogspot.com/feeds/7716995425814715110/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6166509029461223532&amp;postID=7716995425814715110&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/7716995425814715110'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/7716995425814715110'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://agnostha.blogspot.com/2010/09/redentor-parte-2.html' title='Redentor (Parte 2)'/><author><name>Agnostha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01959666006463231736</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://2.bp.blogspot.com/_CHP_-J93J6o/S1TD3Zrm6JI/AAAAAAAAAAM/AUnSeLWxstk/S220/Ag1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6166509029461223532.post-6931154943592599435</id><published>2010-08-16T08:18:00.001-07:00</published><updated>2010-09-06T03:57:53.215-07:00</updated><title type='text'>Redentor (Parte 1)</title><content type='html'>Eu estava com muita raiva, de modo que quando aquele demônio jogou o carro sobre mim, eu nem me dei ao trabalho de desviar dele... Atravessei o carro ao meio - meu corpo denso - e foram pedaços para todos os lados da estrada!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mesmo corpo denso e a mesma raiva impediam-me de voar, então todo meu esforço não passou de um salto para o outro canto da estrada. Pesada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando toquei com os pés no chão em minha acrobacia perfeita, me virei para atacá-lo. Mas já era tarde demais...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro carro me atingiu em cheio, dessa vez pela lateral. Fui pega de surpresa.&lt;br /&gt;O carro se arrastou por cima de mim, me arrastando também pelo chão por vários metros. Minha visão se turvou. Não tive &lt;em&gt;psique&lt;/em&gt; para suportar a situação, e meu corpo agnosto se tornou humano. &lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Droga!!! &lt;/em&gt;Acordei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava parecendo um feto na cama... pés e mãos recolhidos sob meu abdomen curvado...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na época nada fez muito sentido pra mim...&lt;br /&gt;Sonhara que estava numa estrada pouco movimentada, mas muito perigosa. Um ser das trevas representado pela imagem de um homem enorme, marron, e com pernas e chifres de bode, assombrava aquela estrada causando acidentes às almas incautas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando ganhei alguma consciência, quis destruí-lo. Sabe como é... expulsar ele de lá na base da porrada mesmo. Não estava com medo da aparência horrenda que ele tinha. Eu queria era baixar o cacete nele. Com raiva de tudo que era desconhecido... tudo que era diferente... tudo que eu não podia controlar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem cogitei levar um papo com ele, mostrar a luz, nem nada louvável...&lt;br /&gt;Acabei por &lt;em&gt;eu&lt;/em&gt; levar o cacete! A força bruta se voltando contra mim...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me virei na cama. Chateada. Enfim respirei fundo e tentei voltar a dormir porque ainda era madrugada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não foi uma boa ideia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O vácuo me envolveu e em segundos eu sabia que estava de pé em um local muito alto. Eu digo "sabia", porque eu não o via. Não consegui abrir os olhos oníricos.&lt;br /&gt;A vertigem subia pelas minhas pernas e eu me sentia cega à beira de um precipício... ou algo similar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Eu não consigo... - disse apavorada para o nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O vento soprava pelo meu corpo e me fazia balançar. Devia ser algum lugar muito alto mesmo. Mais vertigem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Consegue sim. - respondeu uma voz. Parecia ser masculina.&lt;br /&gt;-- É alto demais... - choraminguei - Eu vou cair! - meus olhos ainda fechados.&lt;br /&gt;-- Você sabe que não vai.&lt;br /&gt;-- Vou sim!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pavor me dominou e a sensação de queda era iminente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordei com medo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse sonho era repetido. Já era a segunda vez.&lt;br /&gt;Nesse sonho, eu não sabia aonde estava, com quem estava ou porquê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desisti de dormir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tinha uma vaga noção do que estava acontecendo. Eu estava fraca.&lt;br /&gt;Aquelas semanas perto do Lino, desejando e ao mesmo tempo lutando contra esse desejo, acabaram por deprimir-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No fundo, eu ainda era muito adolescente. Mas do que a idade, 19, e o corpo, dizia aos outros.&lt;br /&gt;Sem a experiência de amores platônicos anteriores, eu estava penando com aquele primeiro amor... e o amor quando não é correspondido se torna frustração. A frustração, por sua vez, se manifesta como tristeza ou raiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu variava entre os dois pólos: uma guerreira desvairada em sonho; uma ostra acordada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá em casa, ninguém estranhou muito... eu costumava ter umas fases assim, meio ostra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Li em algum lugar que os Amparadores utilizam-se de projetores encarnados quando precisam de energia humana - como acredito que tenha sido o caso que contei em &lt;/em&gt;&lt;a href="http://agnostha.blogspot.com/2009/10/mix-parte-1.html"&gt;&lt;em&gt;Mix&lt;/em&gt;&lt;/a&gt;&lt;em&gt;. Se algum daqueles sonhos foi uma projeção astral... acho que não fui de muito auxílio naquela noite...&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Depois de passar um dia mergulhada em meus pensamentos, fazendo minhas coisas como uma autômata, fui na tarde daquele domingo ver Deguinha pois um amigo iria nos visitar, o Albert.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deguinha parecia interessada no Albert. Ele era um moreninho muito lindinho. Quase um índio, com sua pele cor de jambo. Eu aproveitaria sua visita para dar uma força aos dois, ou como dizem, colocar o cara &lt;em&gt;na fita&lt;/em&gt; dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Albert e eu compartilhávamos um segredo. Ele também era agnosto... estranho.&lt;br /&gt;Um dia, quando nos encontramos numa festa, ficamos conversando e acabamos por descobrir nossa natureza em comum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Éramos parecidos em sonho. Não que ele tivesse um avatar como no meu caso, mas alguns de seus sonhos se manifestavam na vida real. As vezes, mesmo acordado, ele entrava em transe espontâneo... Médium, por assim dizer...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembra que comentei que fiz cursos no IIPC? Pois é, dois destes cursos eu fiz junto dele.&lt;br /&gt;Naquele domingo, não sabíamos que faríamos cursos juntos... Isso ainda era um futuro não muito distante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando cheguei à casa de Deguinha, ele já havia chegado e encontrei os dois sentados na calçada. &lt;em&gt;Velhos costumes adolescentes demoravam para sumir... &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Me sentei também e abracei os amigos. Começamos a conversar.&lt;br /&gt;Eu havia levado as fotos que tinha tirado na última quinta-feira no IF.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele tempo, ainda usávamos câmeras fotográficas de filme.&lt;br /&gt;Como haviam sobrado exposições do filme comprado para o Carnaval, meu pai me perguntara se eu não queria utilizá-las para ele poder levar a câmera para revelar na sexta. Não pensei duas vezes quando a levei para o IF e tirei várias fotos dos amigos - incluindo o Lino, claro.&lt;br /&gt;Foi uma tarde bem legal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Eu gostava em especial de uma em que eu, o Zé e o Lino fazíamos pose em frente a porta da copa. &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Deguinha, ao olhar para as fotos, intuiu que eu finalmente havia admitido meu interesse pelo Lino. Quando confirmei - conformada - ela se inclinou, começou a rir e a me dar tapinhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Eu sabia!!! - se gabava ela - Eu sabia!!! - e estapeava meu ombro - Tá apaixonada!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Albert estava entre nós duas e sofria os tapinhas também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Ei! Será que alguém pode me explicar o que está acontecendo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Narrei os fatos rapidamente e acrescentei as ocorrências da semana. Deguinha riu muito com a estória do fantasma...&lt;br /&gt;Contei como me sentia e como estava sendo difícil lidar com aqueles sentimentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os amigos me ouviam com benevolência.&lt;br /&gt;Quando pausei, Albert comentou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Você tem que se declarar pra ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Franzi a testa e resmunguei:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Ai, Albert... Eu sou moderna, mas nem tanto. - olhei para o chão - Não tenho cara pra isso... - balancei a cabeça - Não consigo...&lt;br /&gt;-- Consegue sim. - disse o Albert num tom incisivo.&lt;br /&gt;-- Que nada... - gesticulei - Eu vou acabar levando um fora...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Albert se abaixou para achar meu olhos e declarou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Você sabe que não vai...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entonação e frase familiar...&lt;br /&gt;Me deu um estalo e foi aí que eu me lembrei do sonho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha cabeça foi se erguendo devagar na mesma proporção em que a ficha caía.&lt;br /&gt;Eu olhei dentro de seus olhos. Estava suspresa. Ele deve ter estranhado a minha cara, mas mesmo assim sorriu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Que foi? - perguntou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava sem ação e ele interpretou isso como incredulidade:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Você &lt;em&gt;acha&lt;/em&gt; que vai levar um fora. Pois eu te digo que &lt;strong&gt;não&lt;/strong&gt; vai. - sorriu e pôs a mão em meu ombro - Depois de tudo que você me contou, eu posso afirmar que esse cara tá a fim de você também. Vai por mim! - deu uma piscadinha.&lt;br /&gt;-- Eu concordo! - exultou Deguinha&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu olhei para a cara de Deguinha e de novo para a dele. Meus olhos sorriram. Os dois estavam ali me dando a maior força. Como bons amigos, estavam me dizendo o que eu queria ouvir... o que eu precisava ouvir. Mas não era só isso.&lt;br /&gt;Pra mim, Deus..., os anjos... - os Amparadores... - o que quer que fosse de bom que me guiava, estava usando o Albert para me dar um recado: eu não devia desistir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sorri.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu humor mudou drasticamente. Em alguns minutos eu estava brincando e zoando como sempre. Acabei por fazer meu papel de cupido, e ajudei Deguinha.&lt;br /&gt;Saí de lá estrategicamente, deixando-os sozinhos.... Não queria segurar vela...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais tarde, naquela noite em minha cama, peguei o envelope com as fotos e as olhei de novo.&lt;br /&gt;Da primeira vez que as olhara, elas me causaram uma dorzinha no peito - Pra quê eu teria uma foto daquele garoto? Pra sofrer mais?- e eu já estava arrependida de tê-las tirado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas daquela vez era diferente.&lt;br /&gt;O IF e os amigos retratados ali eram um aspecto muito querido da minha vida. Me faziam feliz.&lt;br /&gt;E o Lino? Ah, o Lino...&lt;br /&gt;Esse... - eu poderia até quebrar a cara depois... - mas ele seria &lt;strong&gt;meu&lt;/strong&gt;!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dormi bem naquela noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;----------------------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na segunda resolvi botar minha decisão em prática.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não tinha a menor ideia de como faria aquilo, mas tinha resolvido deixar o garoto perceber meu interesse por ele. Eu não conseguiria esconder aquilo de qualquer modo mesmo... Eu sabia que parecia patética aos olhos mais espertos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava ciente também que o momento não era o mais oportuno para falar de namoro com ele, posto que ele tinha desmanchado um relacionamento recentemente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas eu não queria pensar muito naquilo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu queria era acabar com aquele sentimento platônico. Queria acabar com aquela sensação de limbo... Ou ele diria que poderíamos ter um &lt;em&gt;affair&lt;/em&gt; ou me punha pra escanteio de vez... (Eu ia ficar com o coração partido - pela primeira vez - mas ainda era melhor do que ficar suspirando aqui e ali por ele.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, quando cheguei ao IF, a primeira coisa que perguntei quando me acomodei em minha cadeira foi como tinha sido o fim de semana dos rapazes. Usei um tom bem casual.&lt;br /&gt;Não me lembro o que ambos responderam, mas a frase seguinte foi:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- E você Lino? Voltou pra namorada? - perguntei sem olhar pra ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tinha que me certificar que o caminho ainda estava livre. Sabia que um fim de semana era tudo o que uma garota precisava para voltar para um namorado reticente. Basta um bilhetinho, um recado, uma ligação, um charme, e um cara interessado volta correndo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os meninos estavam dando baixa numa leva de livros acumulados da última sexta. Zé anotava a estatística, Lino carimbava. Peguei um livro ao acaso.&lt;br /&gt;A resposta dele me agradou tanto quanto me confundiu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Não... - disse tranquilo - As coisas são mais complicadas do que parecem...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sorriu com o canto da boca, pegou mais um livro e, com aquela calma peculiar, retrucou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- E você? Ficou com alguém?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Caraca... ele pensava rápido.&lt;/em&gt; Por que ele queria saber? Abri o livro e tirei a ficha para carimbar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Não... Fiquei só. - repondi ainda casual. Carimbei a ficha e joguei o livro na pilha dele - As coisas são mais complicadas do que parecem... - alfinetei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na outra cadeira, Zé parecia alheio ao nosso diálogo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Peguei outros livros e tirei as fichas para carimbar a devolução, - naquele tempo era tudo na base manual... Hoje essa atividade é automatizada - minha cabeça processava o que ele havia dito.&lt;br /&gt;Ele ainda estava só. Mas o que isso significava na verdade?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se ele fosse um tipo expansivo, ele poderia comentar com os amigos que estava sofrendo, que queria que ela voltasse, que o tempo longe dela estava sendo difícil, ou, ao contrário - e para minha alegria - que ela era uma &lt;em&gt;galinha&lt;/em&gt;, que ele tinha ódio dela, que não queria vê-la nunca mais e que estava procurando um novo amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;... Isso se ele fosse um tipo expansivo. Mas ele era o Lino...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava distraída com esses pensamentos quando notei a pequena adição à decoração de nossa bancada de trabalho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na última sexta-feira, num momento solitário na recepção - os rapazes arquivando - eu, entediada e deprimida, resolvi ampliar a imagem da onça-pintada que figurava na capa da minha agenda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiz à lápiz para dar os efeitos de luz e sombra, e acrescentei alguma vegetação ao desenho original. Eu gostava muito de desenhar e o fazia razoavelmente quando minha paciência estava em alta. Quando terminei, deixara o desenho sobre o balcão. Já era hora de ir e não tinha dado muita importância àquela pequena obra... até ali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Peguei o quadrinho nas mãos e virei para olhar o que tinham feito.&lt;br /&gt;Meu desenho havia sido colado num papel cartão grosso com apoio atrás para ficar em pé, adornado com papel silueta laranja nas bordas, formando uma moldura, e plastificado em toda superfície com papel &lt;em&gt;contact&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Ai... Que fofo! - falei sorrindo - Quem fez isso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles olharam pra mim também sorrindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Foi feito a quatro mãos. - respondeu o Zé - Eu fiz a estrutura e Lino, a moldura e a plastificação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu olhei para os dois com ternura.&lt;br /&gt;Eu tinha largado a folha lá... Eles poderiam simplesmente tê-la jogado no lixo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Obrigada pela consideração... Tô até me sentindo uma artista. - brinquei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Baixei o quadrinho de volta à bancada baixando também os olhos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Vou sentir falta daqui quando meu estágio acabar... - completei com uma pontinha de tristeza na voz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mês de abril se iniciaria ainda naquela semana. Meu estágio no IF iria até a primeira semana de maio. Assim, aquele seria meu último mês por lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Mas você pode renovar, não pode? - perguntou Lino, e ele se inclinou para achar meus olhos quando fez isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu olhei pro lado admirando aqueles olhos puxadinhos, mas estava triste.&lt;br /&gt;Eu não renovaria o estágio no IF.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poderia até não sair do Fundão, indo para outra biblioteca por ali, mas não ficaria mais quatro meses no IF.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu ainda tinha meu "&lt;a href="http://agnostha.blogspot.com/2009/12/cigana.html#plano"&gt;glorioso plano&lt;/a&gt;", lembra?&lt;br /&gt;Ficar no IF não seria bom para minha carreira, e mesmo o que eu sentia por Lino não seria o suficiente para me demover de minhas metas. Eu ia limitar meu aprendizado ficando ali. Eu precisava conhecer outros centros de pesquisa e bibliotecas. Tinha que variar minhas experiências.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- A Unirio não costuma renovar com a mesma biblioteca... É bom que tenhamos outras experiências... - respondi. Não queria falar de minhas prioridades ali...&lt;br /&gt;-- Ah... Tem razão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele se virou e continou fazendo seu trabalho, mas seu semblante parecia... preocupado?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não queria pensar muito em minha saída do IF - ficar longe do Lino - então voltei ao trabalho também, meu semblante refletia o dele agora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto dávamos baixa e ordenávamos os livros no carrinho para serem levados ao acervo, um grupo de alunos entrou e Lino foi dar-lhes atenção. Eu e Zé ficamos organizando o restante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Peguei a folha de estatísticas e fui contabilizar as somas anotadas por ele.&lt;br /&gt;Meus cabelos cairam em meus olhos quando me inclinei. Os joguei para trás.&lt;br /&gt;Notei que haviam mais números na planilha do que livros no carrinho e estranhei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Zé? Você já havia guardado alguns livros dessa leva? -perguntei.&lt;br /&gt;-- Não... estão todos ainda no carrinho... Por que?&lt;br /&gt;-- Estão faltando livros... - eu olhava a folha e recalculava. Não era um gênio da matemática, mas qualquer um notaria que a soma não batia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os cabelos me incomodaram de novo. Juntei tudo com as mãos, embolei e joguei para o lado esquerdo. Se continuassem atrapalhando meu raciocínio pegaria uma caneta e, à moda oriental, daria um nó naquela juba!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse momento Lino voltou ao balcão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Lino... - perguntei sem olhar pra ele - Você guardou algum livro antes de anotá-los aqui? - e quiquei a caneta no papel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava distraída tentando ver a solução na planilha quando senti a respiração do lado exposto de meu pescoço. Gelei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Você contou com aqueles que foram direto para a sala da Nini? - falou ele devagar. A voz rouca - Quando cheguei, a Nini me pediu para...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu já não estava ouvindo a explicação. Tinha me perdido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lino apoiara o braço esquerdo no encosto de minha cadeira num quase-abraço se inclinado para ver a folha por sobre meu ombro direito. &lt;em&gt;Muuuito&lt;/em&gt; perto. Aquela voz de locutor de rádio fluindo ao pé do meu ouvido, seu calor irradiando em minha face... &lt;em&gt;O que ele estava querendo? Me provocar!? ...Conseguiu!&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Prendi a respiração, girei a cabeça devagar e olhei pra ele por baixo dos cílios.&lt;br /&gt;Ele ainda falava. Seu rosto estava a milímetros do meu. Se ele se virasse, me beijaria.&lt;br /&gt;Emudeci, absorta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Êeeeh! Com um olhar desses eu entregava os pontos, mermão! - exclamou o usuário que apareceu do nada para devolver um livro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu praticamente pulei na cadeira. Meu rosto vermelho de imediato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nós nos ajeitamos. E apesar de eu achar que a vergonha era só minha, notei que ele também se sentiu flagrado. Seu rosto corou também. Nós disfarçamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Qual é, cara! Que isso! Para de palhaçada!!! - eu exagerei gesticulando e rindo sem graça.&lt;br /&gt;-- Imagina... - disse Lino ao mesmo tempo em que eu falava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Zé riu da nossa reação e levantou-se para atender ao usuário que sorria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- É... Esses dois aí não se decidem... - comentou ele pegando os livros do moço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu murmurei alguma coisa em minha defesa mas deve ter soado como a mentira que era.&lt;br /&gt;Estava constrangida. Eu queria que o Lino notasse que estava interessada nele, mas não assim, tão rápido, e não todo mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava surpresa com o Zé também. "Esses dois", ele dissera. Será que ele sabia de alguma coisa que eu não sabia?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era melhor eu sair dali... Eu era patética mesmo... Ridícula! Idiota!&lt;br /&gt;Peguei a planílha e fui para a sala de Nini ver se os benditos livros estavam mesmo lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passei batida pelo acervo - seria assim até o fim do estágio - e entrei na sala de Nini. Ela me mostrou os livros e eu os contei. É. Completavam os cálculos. Ainda bem que hoje isso tudo é feito por computador...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltei para o balcão. Meu ânimo normal o suficiente para dar as caras.&lt;br /&gt;Pensei ter ouvido algum burburinho antes de entrar na recepção, mas os meninos estavam quietos quando cheguei... ou se calaram na minha presença.&lt;br /&gt;Desconfiei mas deixei essa passar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tempo passou normal - se é que éramos um trio normal... - e no final do dia o Zé me convidou para tomar um café, no que aceitei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entramos na copa. A porta entreaberta. Nos servimos e sentamos.&lt;br /&gt;Depois dos comentários sobre os biscoitos moles e o café ralo, achei que o ambiente seria seguro o suficiente para sondar o Zé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;--Zé... - comecei casualmente.&lt;br /&gt;--Hum... - sua boca mastigava uma bolacha.&lt;br /&gt;-- Zé... Você acha que o Lino está sofrendo muito pela ex-namorada? - olhei para a xícara e para ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele me olhou, sorriu travando os lábios e respondeu no mesmo tom:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Pelo que ele me disse, ele está lidando bem com a situação... Eles brigavam muito... - e pegou outra bolacha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Zé não era do tipo fofoqueiro... Eu mesma o teria classificado como "tímido" se não tivesse conhecido alguém mais quieto que ele...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tomei um gole do meu café. Quando pousei a xícara continuei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Você acha que ele quer voltar pra ela? - ainda casual.&lt;br /&gt;-- Não sei. - pausou - Ele não me disse nada...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele bebeu mais um gole de seu café e sorriu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Você gosta dele, não é? - perguntou à queima-roupa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha máscara caiu e acho que meu rosto ficou mais quente que o café.&lt;br /&gt;Tirei as mãos da xícara e apoiei no colo. Ia esconder o quê? Suspirei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- É. Tô gostando dele. - respondi retorcendo os dedos. Eu tinha dificuldade de assumir sentimentos... meu leitor já deve ter notado isso... Devo ser assim até hoje...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele riu baixo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Eu já desconfiava... - apontou com o biscoito pra mim. Eu olhei. - Eu acho que ele gosta de você também.&lt;br /&gt;-- Voce acha? - eu fiquei feliz... mas pensei que ele tinha alguma certeza pra me dar...&lt;br /&gt;-- Você sabe que ele não é de falar muito... - e mordeu o biscoito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rolei meus olhos. Isso, todo mundo já sabia...&lt;br /&gt;Zé continuou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- ... Mas peguei ele olhando comprido pra você algumas vezes quando você estava distraída... e teve o dia em que você faltou e ele ficou resmungando toda hora em como o dia estava chato... e depois de hoje cedo... - sorriu com malícia - ...quando ele quase beijou seu pescoço... - e riu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu ri também, meio envergonhada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Quando você saiu da sala, - continuou - ele veio reclamar comigo de que você não ia gostar de piadinhas envolvendo vocês dois... Pra mim ele gosta de você mas tem medo de levar um fora. - apoiou os braços na mesa.&lt;br /&gt;-- Levar um fora? - fiz uma pergunta afirmativa, não estava entendendo bem.&lt;br /&gt;-- É, Alya. - ele gesticulou - Você tem esse jeito brincalhão... tá sempre zoando... - sorriu - E ele é caladão, você sabe... Fica difícil saber quando a coisa é séria ou quando é brincadeira... por parte dos dois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não tinha pensado naquilo. Meu jeito de levar as coisas. Como eu me mostrava aos outros.&lt;br /&gt;Acho que tinha ido muito bem na intenção de disfarçar meus sentimentos afinal... E eu achando que já dava muita bandeira sobre o que sentia...&lt;br /&gt;Ou eu era uma boa atriz... ou ele era muito lerdo... ou as duas coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem... o Zé sabia tanto quanto eu... Nada muito novo...&lt;br /&gt;Suspirei, balancei a cabeça e olhei de novo pra ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Zé... Eu gostaria que você não comentasse nada disso com ele... - como eu ia explicar minha confusão? - As coisas estão muito nebulosas... E eu queria que ele... quer dizer.... eu queria que eu...&lt;br /&gt;-- Ei, ei... - me interrompeu - Tudo bem, tudo bem. - sua mão tocou meu braço e me acalmou - "Eu não sei de nada". Está bom assim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sorri e assenti. Zé era um cara muito legal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando voltamos para o balcão, Lino estava ocupado com um usuário. Pensei ter visto um olhar desconfiado pairando no rosto dele quando nos sentamos, mas nessa hora entrou mais gente na biblioteca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não encontrei Lili na saída daquele dia, então minha viagem de volta foi um ruminar de pensamentos incessantes até em casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Puxa... Como tudo aquilo era estranho... Em outros tempos eu simplesmente namorava ou não com alguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se o cara não desse sinais de interesse por mim, eu mudava de objetivo e pronto. Não me importava em não ser correspondida... Sem dor. Ficava chateada e tal, mas sem dor. Nenhuma.&lt;br /&gt;O mesmo ocorria ao contrário. Se um garoto gostasse de mim e eu não tinha interesse nele, problema do cara... Eu não estava nem aí...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora tudo me parecia um drama, um melodrama... uma novela mexicana daquelas bem piegas...&lt;br /&gt;À noite, os pensamentos ainda estavam borbulhando, mas meu coração estava mais alentado.&lt;br /&gt;Eu sabia o que queria. Eu havia me decidido. Graças a ajuda de meus amigos. Meus redentores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Balancei a cabeça e suspirei. O que fazer então...?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me virei na cama, o sono chegando. Fechei os olhos e pedi a Deus para me ajudar a lidar com aqueles sentimentos....&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;... e meu Senhor respondeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Permitam-me contar...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6166509029461223532-6931154943592599435?l=agnostha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://agnostha.blogspot.com/feeds/6931154943592599435/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6166509029461223532&amp;postID=6931154943592599435&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/6931154943592599435'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/6931154943592599435'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://agnostha.blogspot.com/2010/08/redentor-parte-1.html' title='Redentor (Parte 1)'/><author><name>Agnostha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01959666006463231736</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://2.bp.blogspot.com/_CHP_-J93J6o/S1TD3Zrm6JI/AAAAAAAAAAM/AUnSeLWxstk/S220/Ag1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6166509029461223532.post-5286309461369944019</id><published>2010-08-16T05:39:00.001-07:00</published><updated>2010-08-16T07:57:12.890-07:00</updated><title type='text'>Fantasmas (Parte 2)</title><content type='html'>Quarta-feira.&lt;br /&gt;Quando acordei tive a impressão de que esse dia seria mais insuportável que o anterior.&lt;br /&gt;Não estava errada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na faculdade fiquei sabendo que teria que voltar a Urca à tarde para uma reunião de última hora. &lt;em&gt;Ótimo&lt;/em&gt;... estava crente que teria aquela semana para me acostumar a ser indiferente com o Lino...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois fiquei sabendo que as "Irmãs Tenebrosas" estavam fazendo estágio no campus do Fundão - elas tinham este apelido por serem conhecidas como as encrenqueiras (e fofoqueiras) da minha turma. Uma estava perto de Lili, no CCMN, e a outra perto de mim, na Química. &lt;em&gt;Ótimo&lt;/em&gt;... Teria que tomar cuidado com a amizade delas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até as aulas, geralmente agradáveis, foram insuportáveis. Tínhamos um professor que nunca estava totalmente sóbrio quando dava aula... Ele vivia mascando balinhas de gengibre para disfarçar o bafo e naquele dia, eloquente que ele era, um fragmento da balinha voou e colou no meu braço... &lt;em&gt;Ótimo!&lt;/em&gt; Todo mundo riu de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de viajar em pé, me despedir da Lili e comer num trailer barato, segui para o IF.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando cheguei no saguão senti um clima diferente no ar.&lt;br /&gt;O Zé não estava presente e Lino, que tinha me dado um "boa tarde" sério e frio, rabiscava num bloquinho sobre a bancada.&lt;br /&gt;Estranhei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Cadê o Zé? - perguntei após ter guardado minha mochila e assinado meu ponto.&lt;br /&gt;-- Ele não vem hoje... tem seminário. - respondeu Lino ainda rabiscando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Menos mal. Zé estava bem.&lt;br /&gt;Estávamos a sós no balcão, e normalmente aquilo me incomodaria... mas Lino não parecia mesmo bem e aquilo me incomodava mais.&lt;br /&gt;Sentei em minha cadeira de sempre e me inclinei buscando o rosto dele:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Que cara é essa, Lino? - perguntei tentando não parecer intrometida - Você está bem?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele continuou rabiscando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Estou bem, Alya. - mentiu ele.&lt;br /&gt;-- Não parece... - insisti com medo de levar um fora - Não quer falar...? - não consegui evitar pousar minha mão em seu braço. A recolhi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele pensou. Finalmente olhou pra mim, suspirou e largou a caneta. Parecia meio sem graça, mas resolveu falar:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Minha namorada e eu tivemos uma briga... e ela foi embora... - falou hesitante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sabe quando você corta o dedo com papel? Algo tão fino que você fica imaginando como pode ser tão dolorido? Pois é... Foi como eu senti o que aquela frase fez com meu coração... um &lt;em&gt;papercut&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;Ele tinha namorada... e estava sofrendo por ela. E esse "foi embora"? Eles moravam juntos? Não tive coragem para perguntar...&lt;br /&gt;Minha aura mudou de cor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Ah... puxa.... Como você está? - perguntei controlando minha expressão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele apertou os lábios e deu de ombros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Não foi nossa primeira briga... Ela é muito possessiva. - balançou a cabeça - Nosso relacionamento já estava estremecido...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar de estar enamorada dele, eu fiquei triste porque ele estava triste. Me lembrei das vezes em que tinha terminado com alguém e do clima ruim que era. Imagine se ele estivesse mesmo apaixonado pela moça? Não gostei de ver sua dor...&lt;br /&gt;Eu queria confortá-lo... talvez abraçá-lo... Me contive:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Ela volta... - eu sorri complacente. Quem não voltaria pra ele? - Confie em você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele riu sem graça.&lt;br /&gt;Olhamos para a frente. Ficamos em silêncio. Eu não sabia o que dizer e ele ruminava seus pensamentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Sabia que uma vez eu e uma garota desmanchamos porque nós falávamos pouco? - ele disse sem mais nem menos. Eu olhei e ele sorriu tristemente - Ficávamos um olhando pro outro calados. Daí concluímos que era melhor acabar com o namoro. - e riu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu ri com ele, mas era óbvio que ele estava mudando de assunto. Não queria me dar detalhes sobre o relacionamento dele ...&lt;br /&gt;Eu respeitei sua privacidade e até gostei do tópico mais leve. Consolar ele por outra garota não era algo que eu conseguiria fazer sem parecer um pouco falsa...&lt;br /&gt;Eu não podia negar que o fato de saber que ele estava só mexia comigo... As perguntas começavam a pipocar na minha cabeça: será que eles voltariam? Será que o coração dele estava muito machucado? Será que eu poderia ter alguma chance?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Você tem namorado, Alya?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa me pegou de surpresa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Ãh? Eu?... Não...não. - respondi. Por que ele queria saber? Me compararia ao relacionamento sério dele? Me achava muito jovem? Inexperiente? - ... Eu fiquei com um garoto no Carnaval... - já arrependida - ...Mas foi só passatempo.&lt;br /&gt;-- Ah... - e voltou a olhar para seus rabiscos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu olhei pro nada... era melhor procurar o que fazer...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Você tem muitos "passatempos"? - ele perguntou isso sorrindo mas olhando para seu bloquinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Muitos.&lt;/em&gt; -- Ãh... Não. Não muitos. - estava meio sem jeito, mas aí veio uma pontinha de coragem - ... Eu ainda estou procurando um par... - &lt;em&gt;... de preferência japinha com furinho no queixo...&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Ele me olhou: -- E Marconi?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais surpresa agora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Que tem ele?&lt;br /&gt;-- Vocês... - e balançou as sobrancelhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De onde ele tirou aquilo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Não. - respondi - Nós somos apenas amigos.&lt;br /&gt;-- Ah... - e fez uma expressão de "Não é o que dizem..."&lt;br /&gt;-- Que foi? Acha que estou mentindo? - eu estava me zangando.&lt;br /&gt;-- Não, não. - olhou pra frente - É que vocês são tão parecidos...&lt;br /&gt;-- ???&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele me encarou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Vocês são tão ativos... eloquentes... líderes... Guerreiros, por assim dizer. - ele sorria com o canto da boca - Estão sempre juntos lá na faculdade...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu gostei do elogio. Mas isso não me fazia namorada automática do Marconi...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Ah... - desviei os olhos - É. Somos parecidos neste sentido. - sorri - Mas ele tem muitas namoradas... - rolei os olhos - E eu não quero ser mais uma na coleção dele...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rimos juntos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse era um dos motivos do porque Marconi não me interessava. As garotas viviam cercando ele... e ele pegava todas. Acho que tinha a ver com sua liderança no D.A. Ele era realmente muito carismático. Atraía todos a sua volta.&lt;br /&gt;Eu até o admirava. Nosso relacionamento era muito bom. Mas não conseguia me imaginar namorando ele... Além disso ele não fazia meu tipo físico - loiro de olhos azuis. Naquele momento eu estava preferindo os niseis, sanseis...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lino meneou a cabeça:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- E eu sou um desastre com garotas... - sorria, mas parecia constrangido - Sempre acabo estragando tudo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhou para longe. Algo passou pelos seus olhos, e seu sorriso sumiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Ei...! - chamei tocando seu braço novamente. &lt;em&gt;Droga! Controle-se! &lt;/em&gt;Tirei a mão - Não fica assim, não... - sorri - Essas coisas passam... Você é um cara muito legal... - e involuntariamente procurei seus olhos - Se ela não voltar, vai estar cometendo um erro...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele me encarou num olhar indecifrável.&lt;br /&gt;Eu fiquei sem jeito e tive que quebrar o clima estranho:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Além disso... - disse desdenhando - Quem mais poderia aturar esse seu jeito esquisito? Só ela mesmo... - &lt;em&gt;e eu...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nós rimos de novo.&lt;br /&gt;Ele parecia mais animado. &lt;em&gt;Ótimo...&lt;/em&gt; ter que consolar o cara que queria sobre outra garota que, na melhor das hipóteses, era minha rival...&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Que dia!&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Os usuários foram chegando e nos distraímos com o trabalho.&lt;br /&gt;Éramos bons nisso. Trabalhávamos em equipe. Enquanto um dava baixa, o outro colocava no carrinho, enquanto um fazia a estatística o outro ordenava as fichas...&lt;br /&gt;Houve um momento em que Lino resolveu arquivar as obras devolvidas. Eles, o Zé e ele, estavam evitando que eu fosse ao acervo, imaginei eu, por causa da minha... &lt;em&gt;ãh&lt;/em&gt;... sensibilidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um usuário devolveu um livro. Me levantei, o peguei e o pousei sobre a bancada perto das coisas do Lino. O usuário saiu me dizendo "até logo", mas eu mal ouvi. Meus olhos estavam sobre aquele bloquinho que o Lino estava rabiscando.&lt;br /&gt;Tentei ler mas não entendi nada. Caligrafia feia e palavras desconhecidas.&lt;br /&gt;Peguei o bloquinho e o aproximei do rosto. Não estava em português... apertei os olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- É um mantra. - disse Lino na minha nuca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abafei o grito com um arquejo. O bloquinho quase caiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Ai, Lino!!! Que susto! - exclamei virando-me para ele com a mão no peito. - Aparecer assim do nada, pô! - respirei. &lt;em&gt;Ele estava tão próximo de mim!&lt;/em&gt; - Um mantra!? - perguntei para disfarçar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na época eu tinha uma vaga ideia do que seria um mantra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- É. É um fragmento de um mantra budista. - ele tinha um sorriso no canto da boca - Uma espécie de oração...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me virei e sentei em minha cadeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Você é Budista? - perguntei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Religião era um tópico que ainda não tínhamos conversado. O Budismo podia explicar muitas coisas nele... principalmente o silêncio. Mas naquela época eu não conhecia bem essa filosofia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Eu costumo frequentar um templo... - disse sentando-se ao meu lado - Mas não sou exatamente um budista... - sorriu - Gosto de ir lá pois me sinto em paz por lá.&lt;br /&gt;-- Ah... - fiquei imaginando que tipo de paz ele precisaria. Empurrei o bloquinho que ainda estava em minhas mãos pela bancada para ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele olhou para o bloco e olhou para mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Você segue alguma religião? - perguntou&lt;br /&gt;-- Não. Quer dizer... Temos uma formação católica e tudo, mas não frequentamos nenhum templo ou igreja... - respondi incluindo minha casa - Minha família é muito eclética... - &lt;em&gt;só Deus sabe o quanto...&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;-- Hum...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele tornou a olhar o bloco. Depois arrancou a página e colocou a folha na bancada a minha frente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Fique para você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava surpresa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Pra mim!? - sorri - Valeu... - peguei a folha - Vou colocar em minha agenda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tive que desviar os olhos. Eles deviam estar brilhando com aquela pequena demonstração de afeto dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Reli o fragmento, mas ele só veio a fazer sentido anos depois com o advento da &lt;a href="http://www.buddhanet.net/chant-nichiren.htm"&gt;internet&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"&lt;em&gt;Myoho renge kyo&lt;br /&gt;Hoben-pon Dai ni&lt;br /&gt;Niji seson&lt;br /&gt;Ju sanmai&lt;br /&gt;Anjo ni ki&lt;/em&gt;"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Tenho que voltar a Unirio hoje... Você vai? - perguntei enquanto guardava a folhinha na agenda.&lt;br /&gt;-- Vou sim. - levantou-se - Me espere. Vou resolver algumas coisas com Nini e depois saímos, ok?&lt;br /&gt;-- Ok.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O humor dele estava visivelmente melhor. Não posso negar que o meu também estava. Acho que havíamos ajudado um ao outro naquela tarde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele foi a sala de Nini Brantes e voltou com vária folhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Vou colocar estas cartas nos escaninhos. - disse passando pelo hall - Quando voltar saímos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu assenti.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comecei a guardar minhas coisas. Eu tinha que prestar atenção pois eu sempre esquecia alguma coisa no estágio. Canetas, casaco, até meus cadernos eu já tinha esquecido...&lt;br /&gt;Notei uma presença atrás de mim. Era Nini. Ela sorria enquanto pegava as folhas de estatística:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Já deu sua hora, não? - comentou ela. Eu já deveria ter partido.&lt;br /&gt;-- Ah, sim. Mas estou esperando o Lino. Nós vamos para a Unirio... - respondi fechando o zíper da mochila.&lt;br /&gt;-- Ele fica bem mais falador com você por aqui... - sorriu - Mais animado... - ela queria parecer natural, folheando a estatística, mas tinha uma expressão bem estranha no rosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu fiquei sem graça. Ela estava insinuando alguma coisa? Resolvi fazer piada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Também pudera... Comigo falando pelos cotovelos e enchendo os ouvidos dele, ele tem que, no mínimo, me acompanhar. - e ri.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela riu também.&lt;br /&gt;Lino voltou e após as despedidas, saímos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo estávamos andando pelo campus. Conversávamos como dois bons amigos. É claro que eu falava mais, mas isso já não me era estranho pois ele me ouvia sorrindo.&lt;br /&gt;Como na primeira vez, ele foi atencioso, me ajudando a subir e a descer da condução.&lt;br /&gt;Nos alojamentos, tornamos a sentar naqueles banquinhos do jardim enquanto aguardávamos o Urca chegar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sensação de &lt;em&gt;déjà vu&lt;/em&gt; continuava lá, mas este era o menor dos meus problemas... Ficar perto de Lino, a sós, ainda mais quando ele se sentava assim &lt;em&gt;tão&lt;/em&gt; ao meu lado, começava a parecer um desafio muito grande.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Retornamos ao assunto sobre Religião.&lt;br /&gt;Ele falou dos mantras, dos discos budistas, das outras pessoas que frequentavam o local...&lt;br /&gt;Não havia como falar de minhas crenças sem falar de minha linhagem confusa. Eu tinha antepassados maternos ciganos espanhóis com católicos portugueses, bisavô negro e seus cultos afros e bisavó índia com pajés, fora os italianos católicos romanos por parte de pai... Enfim, era assunto que não acabava mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ônibus chegou e fomos para o fim da fila. Lotou rapidinho. Dessa vez ele teve que viajar em pé. &lt;em&gt;Droga!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Mesmo assim, de tempos em tempos, ele se inclinava para fazer ou ouvir algum comentário meu.&lt;br /&gt;Nenhum dos dois falou sobre namoros ou namorados. Acho que não queríamos falar sobre o assunto que chatearia aos dois...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com aquela conversa fluída, chegamos à Unirio rapidamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes de subir para o DA, me despedi do Lino à moda carioca. Depois dos beijinhos no rosto, murmurei um "tchau" e não tive coragem de olhar de novo - subi as escadas. Eu já tinha passado dos meus limites...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na sala, cumprimentei os amigos e abracei Marconi fraternalmente. Não nos víamos desde antes do Carnaval. Foi bom ver aquela alegria toda. Leandro também estava lá. Estava lindo, mas eu o tratei com a maior frieza que a educação permitia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A reunião foi rápida. Em uma hora já estava saindo do campus. Não precisava de companhia. Estava segura sobre o trajeto tranquilo e o sol tinha acabado de se pôr.&lt;br /&gt;Assim, imagine minha surpresa quando Leandro emparelhou comigo quando eu passava pelos portões da faculdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Oi.&lt;br /&gt;-- Oi. - respondi sem diminuir o passo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Notei que ele estava sem mochila ou cadernos, o que concluí que ele estava ali só para falar comigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Er... Você me desculpa pelo nosso último encontro? - perguntou com um sorrizinho cínico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Encontro"... &lt;em&gt;Humf!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Tá desculpado. Mas não gosto que venham me agarrando.... - fui grossa. Continuei andando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele riu para si mesmo. Era um tipo muito seguro de seus encantos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Você é muito gata... Eu não resisti.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mentiroso, ainda por cima!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Tá... Foi engraçado... Mas não faz mais isso, ok? - e continuei andando. Não olhava para o lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele tocou meu ombro e paramos. Tive que olhar. Ele fez uma cara querendo parecer sério.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Podemos ser amigos, hein?... Me desculpe. - e sorriu descarregando o poder de seus lindos olhos verdes...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu suspirei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Tudo bem. - &lt;em&gt;quem iria ser inimiga de um gatão daqueles?&lt;/em&gt; - Amigos. - sorri um pouquinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele sorriu satisfeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Tenho que voltar para a aula...&lt;br /&gt;-- Tá. -&lt;em&gt; já vai tarde...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele se aproximou, segurou-me pela nuca, beijou minhas faces e se foi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Petulante...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Peguei meu ônibus.&lt;br /&gt;Enquanto ele avançava pelo Aterro eu revisava meu dia.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Que dia!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abri a agenda e reli o mantra que Lino me dera.&lt;br /&gt;Se não fosse o fantasma da ex-namorada dele me assombrando, aquele presentinho teria muito mais significado...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6166509029461223532-5286309461369944019?l=agnostha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://agnostha.blogspot.com/feeds/5286309461369944019/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6166509029461223532&amp;postID=5286309461369944019&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/5286309461369944019'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/5286309461369944019'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://agnostha.blogspot.com/2010/08/fantasmas-parte-2.html' title='Fantasmas (Parte 2)'/><author><name>Agnostha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01959666006463231736</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://2.bp.blogspot.com/_CHP_-J93J6o/S1TD3Zrm6JI/AAAAAAAAAAM/AUnSeLWxstk/S220/Ag1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6166509029461223532.post-3620338046047952938</id><published>2010-07-23T12:04:00.000-07:00</published><updated>2010-07-27T09:06:54.371-07:00</updated><title type='text'>Fantasmas (Parte 1)</title><content type='html'>Depois do almoço avancei apressada pela enorme escadaria do hall do &lt;a href="http://www.if.ufrj.br/images/ct2.gif"&gt;CT&lt;/a&gt; e depois pelos corredores do Instituto de Física.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando entrei no saguão da biblioteca e vi o Zé e o Lino no balcão, senti alegria...e alívio. Tudo estava em seu lugar. Sorri.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- E aí, rapazes! - saudei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles me sorriram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Puxa, você está preta, garota! Foi a praia!? - saudou-me Zé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu ri. Avancei pelo bequinho do balcão e beijei as faces do Zé. Depois, com naturalidade, dei outro passo e beijei as faces do Lino. Era a primeira vez que beijava-o. Eu me sentia vermelha...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como era de praxe, começamos a tagarelar... quer dizer, eu e o Zé começamos a tagarelar.&lt;br /&gt;Lino prestava muita atenção mas falava pouco. Como fui gostar desse cara?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Falei da praia, do toboágua, do churrasco, do bloco, da caipifruta, da minha sandália que arrebentou, do primo que me derrubou suco, do confetti que caiu nos meus os olhos, falei de tudo... menos de Rafael, claro.&lt;br /&gt;Zé falou do retiro que fizera com sua igreja, do local, das caminhadas, dos amigos...&lt;br /&gt;O Lino... bem, o Lino se limitou a dizer que tinha passado bem, que bebeu um pouco e que foi dormir tarde todos os dias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre um tópico e outro fazíamos um atendimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tentava ao máximo ignorar como eu me sentia em relação ao Lino agora. Acho que foi por isso que falava tanto... Me distraía.&lt;br /&gt;Estava difícil controlar meus olhos para vê-lo com espontaneidade sabendo o que eu sabia. Que estava enamorada dele... Não conseguia encará-lo. Tinha medo que ele visse a verdade no meu olhar como Deguinha e Lili viram.&lt;br /&gt;Mesmo meus olhares furtivos estavam diferentes. Me peguei reparando na forma como ele movia os lábios enquanto falava com o Zé. Sua boca, como a maioria dos orientais, era perfeitamente desenhada e os lábios eram cheios... pareciam macios...&lt;br /&gt;&lt;em&gt;É melhor eu sair daqui!&lt;/em&gt; - concluí.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Peguei alguns livros que estavam sobre o balcão e os empilhei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Já fez a estatística destes aqui, Zé? - perguntei arrumando a pilha no carrinho que ficava encostado na parede.&lt;br /&gt;-- Já sim, Alya. Vai arquivá-los? - respondeu girando na cadeira para me olhar.&lt;br /&gt;-- Vou sim. É melhor não deixar acumular... - ...&lt;em&gt;e é melhor eu sair daqui antes que o Lino perceba que estou caidinha por ele...&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Empurrei o carrinho e segui para a porta dupla que separava o saguão e o acervo.&lt;br /&gt;O acervo era um salão comprido. Deviam caber quase duas quadras de volei dentro dele.&lt;br /&gt;As estantes eram dispostas no sentido do comprimento formando cinco corredores estreitos e perpendiculares ao corredor central em que eu estava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era um daqueles momentos em que o acervo ficava vazio. Naquele horário os alunos estavam em suas classes.&lt;br /&gt;Mesmo naquela amplidão, eu ainda ouvia o burburinho dos rapazes conversando no balcão de atendimento, Nini Brantes falando ao telefone (o escritório dela ficava no fundo do salão) e de seu Manoel guilhotinando papéis (sua sala vivia fechada por causa do barulho, ficava do lado oposto do salão).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu empurrava o carrinho que fazia aquele barulhinho monótono de rodinhas sobre assoalho.&lt;br /&gt;Olhei os livros que tinha que guardar e verifiquei os códigos em suas lombadas. Classe 539... Hum... Deve ser no corredor quatro, lado esquerdo... - pensei - e empurrei o carrinho para lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passei pelo corredor um, passei pelo corredor dois...&lt;br /&gt;Quando passei pelo corredor três, vi um senhor de pé de frente para as prateleiras. Estava a alguns metros de mim, mas dava para ver que podia ser um médico. Todo de branco: usava um jaleco de botões até o pescoço, calça e sapatos brancos. Folheava um livro tranquilamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ho... O acervo não estava tão vazio, afinal.&lt;br /&gt;Avançava para o corredor quatro, quando me lembrei de alertar àquele senhor para não repor a obra consultada na estante - tínhamos que contabilizar os assuntos...&lt;br /&gt;Na mesma hora dei um passo para trás me esticando para olhar o corredor anterior de novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem sumira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Surpresa.&lt;br /&gt;Franzi a testa. Como pôde? Será que ele passou por mim? Teria ele dado a volta tão rápido sem que eu visse ou ouvisse naquela quietude? - eu sorri - Devo estar muito lerda mesmo...&lt;br /&gt;Balancei a cabeça e voltei ao meu corredor de interesse...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o homem estava lá.... no meio do corredor quatro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levei um segundo para realizar que só havia uma forma de ele ter chegado ali tão rápido sem que eu tenha visto... &lt;em&gt;Atravessando as estantes!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu travei. Meus olhos se arregalam, meu coração bombou e os cabelos subiram!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segurando o grito, simplesmente larguei tudo para trás e praticamente corri de volta ao balcão. Os meninos se assustaram com a maneira que eu empurrei as portas duplas e me joguei na cadeira entre eles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Que foi, Alya!? Você está pálida! - perguntou-me Zé sorrindo dubiamente e pondo a mão no meu ombro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lino também se virou para mim. A cabeça inclinada.&lt;br /&gt;Eu apoiei os cotovelos na bancada e segurei minha cabeça com as duas mãos. Respirava apressada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- A-a-acho que vi um fantasma... - minha voz tremia - Um homem de branco... - respirei fundo - ...entre as estantes!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu achei que os dois iam rir de mim, mas me surpreendi quando Lino se levantou sem dizer nada e foi para o acervo, e o Zé foi para a copa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não era a primeira vez que isso me acontecia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma vez, eu tinha uns 14 anos, nós, minha família e parentes, voltávamos de Duas Barras quando minha mãe começou a se sentir mal. Pressão-alta.&lt;br /&gt;Paramos num pronto-socorro para que ela tivesse atendimento.&lt;br /&gt;Eu fiquei no carro com minha prima, já adulta, e meus irmãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando olhei a escadaria do hospital e vi minha mãe e meu pai descendo por ela, notei que eles estavam acompanhados por um senhor de branco, médico com certeza.&lt;br /&gt;Seria uma cena até natural - que alguém acompanhasse os forasteiros à saída - se não fosse o fato de o homem não ter imagem nenhuma dos joelhos para baixo. Transparente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu olhei, pisquei e olhei de novo e conforme meus pais se aproximavam do carro a imagem do médico ia desaparecendo, até sumir por completo quando eles entraram no carro.&lt;br /&gt;Eu estava cravando as unhas no braço de minha prima sem conseguir falar o que via e ela apertou a minha mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Eu estou vendo também... - falou ela calmamente quando viu o pânico em meus olhos. - Fique calma. - completou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa era a segunda vez. Houveram outras... talvez eu conte...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Não há ninguém no acervo... - comentou Lino quando voltou. A dúvida no rosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu, ainda sentada, bebia a água que o Zé me trouxera. Olhei atônita para a cara dos dois rapazes que me olhavam atônitos também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Três medrosos.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;De repente meu nervosismo explodiu em gargalhadas!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- K-k-k-k-k! Eu vi um fantasma!!! - ria nervosa com a mão na boca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dois não estavam preparados para minha reação. Entreolharam-se...&lt;br /&gt;... e caíram na gargalhada também!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Ha-ha-ha! Você parecia uma vela!!! - ria Zé batendo em seus joelhos.&lt;br /&gt;-- Só acontece com você mesmo, Alya! Ha-ha! - gargalhava Lino. Os olhos em riscos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rimos muito.&lt;br /&gt;Ri de chorar. &lt;em&gt;E se continuasse rindo perderia o controle e choraria de verdade...&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Você deve estar achando isso muito estranho. Alguém rir de algo tão macabro. Mas eu já estava acostumada com essas estranhices e naquele momento, com meu enamorado ali e meu amigo, rir era a melhor maneira de extravasar a tensão... apesar de que acho que daquela vez eu consegui passar um atestado de 'maluca total'...&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Depois que Nini saiu do telefone, ela veio ver o que nos arrebatara no balcão uma vez que o barulho estava impróprio para uma biblioteca. Contei o que vira.&lt;br /&gt;Ela achou que eu estava brincando, mas nos contou que alguns alunos já tinham visto o fantasma do patrono da biblioteca por ali. O &lt;a href="http://omnis.if.ufrj.br/~ifbib/plinio.html"&gt;Plínio Sussekind&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;Nós rimos mais um pouco com essas estórias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi bom ver o Lino rindo... mesmo tendo eu levado um sustão... Ele tinha um sorriso tão lindo... dentes branquinhos... &lt;em&gt;Ooops... &lt;/em&gt;Virei o rosto e parei de encarar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aproveitamos para falar de situações de medo... eu não contei nem 1% das minhas aventuras...&lt;br /&gt;E passamos o resto da tarde assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dei graças a Deus por, naquele dia, não ter tido reunião do DA na Urca.&lt;br /&gt;Eu precisava de tempo para me acostumar à ideia de ter Lino por perto como a um amigo qualquer...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-------------------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, depois de uma apresentação em uma matéria do curso, depois de ter contatado outras faculdades sobre a prévia do Encontro, depois de ter copiado matérias atrasadas e depois de ter narrado os insólitos acontecimentos no acervo e driblado Lili cordialmente sobre como estava suportando meu relacionamento amoroso unilateral, entrei na biblioteca do IF sorridente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava todo mundo no balcão da recepção: Zé, Lino, Seu Manoel e Nini Brantes. Pareciam animados vendo algo espalhado sobre a bancada.&lt;br /&gt;Perguntei qual era a novidade quando me acomodei na cadeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Chegaram os jalecos. - respondeu Nini Brantes - Fui informada também que nossa biblioteca passará por reformas. - comentou&lt;br /&gt;-- Jalecos? - olhei as embalagens com as camisas azuis. Eu achava aquilo muito &lt;em&gt;démodé&lt;/em&gt;, mas uma biblioteca não é o lugar mais salubre do mundo... -- Ah... Legal. Vou ter que usar também?&lt;br /&gt;-- Não será preciso... só quando você for trabalhar no acervo. - respondeu ela - Aqui no balcão é limpinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei grata. Eu já me achava feia... imagine feia de jaleco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dia foi agitado. Uma palestra no IF havia impulsionado os alunos a procurar certos tópicos no acervo e a biblioteca estava no maior entra e sai.&lt;br /&gt;Eu, Zé e Lino revezávamos no atendimento realizando os empréstimos, dando baixa nas devoluções e auxiliando na localização de títulos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá pelas quatro da tarde, perto do meu horário de saída, bateu aquela fome. A biblioteca estava mais tranquila, então achei que uma paradinha não iria sobrecarregar ninguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Meninos, vou à copa comer uns biscoitos. - anunciei - Alguém quer me acompanhar? - completei torcendo para que Lino fosse.&lt;br /&gt;-- Não, obrigada, Alya. - reponderam os dois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desapontada, mas ainda com fome, fui para nossa copa.&lt;br /&gt;A copa era uma salinha no fundo do hall. Só cabiam um forninho elétrico e uma cafeteira sobre a pia; um armário de duas portas, um frigobar e uma mesinha de dois lugares com duas cadeiras.&lt;br /&gt;Abri o armário e peguei alguns biscoitos de leite. Nós fazíamos uma vaquinha para comprar biscoitos todos os meses, de modo que sempre tinha alguma coisa comunitária lá para se comer. Bebi uma xícara de café requentado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando saí de lá, encontrei o Zé todo atolado com uma pilha de livros. Não perguntei pelo Lino. Tinha que manter minha fachada de 'indiferente'.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Quer ajuda, Zé? - ofereci&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele resmungou alguma coisa e continuou ocupado em anotar as devoluções.&lt;br /&gt;Olhei a pilha e vi dois livros importantes os quais Nini estava aguardando a chegada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Os livros do &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Richard_Feynman"&gt;Feynman&lt;/a&gt; foram devolvidos! Vou levá-los para Nini...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Zé estava tão concentrado na estatística que nem sei se me ouvira. Peguei os livros e fui para a sala de Nini Brantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrei no acervo, passei pelo corredor e avancei pelas estantes sem olhar para os lados. Ainda estava com medo de ver alguma coisa como no dia anterior.&lt;br /&gt;Me dirigi para a sala de Nini. Essa ficava no fundo do acervo; era o que alguns chamam de "aquário" - uma divisória de vidro montada sobre estruturas de compensado.&lt;br /&gt;Quando alcancei os vidros a claridade me iluminou e eu vi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Que susto!!! Um homem sem camisa!!!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Soltei uma exclamação e do outro lado ele soltou uma também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levei um segundo para perceber que Lino estava provando os jalecos naquele espaço.&lt;br /&gt;Baixei a cabeça no outro segundo, mas foi o suficiente para notar os braços fortes, o tórax coberto de pelos, e a pequena imagem escura tatuada no braço do rapaz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Me desculpe!!! - exclamei. Estava mais vermelha que um pimentão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me virei, totalmente sem graça, e cheguei ao balcão na metade do tempo que fizera pra ir. Me joguei na cadeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Que foi, Alya! Viu outro fantasma! - Zé estava alarmado.&lt;br /&gt;-- Quase! - eu estava queimando - Me assustei com o Lino... - &lt;em&gt;"assustada" não era bem a palavra...&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Zé riu alto. Ele devia ter ideia do que me acontecera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Seu bobo! Nojento! - levantei da cadeira rindo - Você podia ter me avisado!!! - eu ria de vergonha enquanto batia com os livros do Feynman no ombro dele. - Ai, meu Deus!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele começou a me zoar. Que ódio!!!&lt;br /&gt;Depois de mais alguns tapas eu me acalmei.&lt;br /&gt;A visão de Lino sem camisa só piorou minha situação. Eu já achava ele atraente... sem camisa... Irresistível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A coisa ficou pior ainda quando Lino voltou ao balcão. Estava usando o bendito jaleco. Me olhava com um sorrisinho malicioso.&lt;br /&gt;Eu já estava controlada, mas totalmente constrangida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Você me assustou. - falou ele com aquela calma insuportável - Pensei que fosse um dos seus fantasmas... - sorriu e se sentou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tornei a ficar vermelha. "Meus fantasmas..." - &lt;em&gt;Humf!&lt;/em&gt; - Moderei minha voz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Ah... me desculpe. &lt;em&gt;Ninguém&lt;/em&gt; me avisou que você estava lá...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atrás de mim, ouvi o Zé disfarçar o riso dele numa tossida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Desculpe a mim. - respondeu Lino - Eu devia ter ido ao toalete ou ao vestiário - ambos ficavam no corredor, afastados da biblioteca.&lt;br /&gt;-- Que isso... foi nada... bobagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava mesmo sem graça, mas discrição nunca foi meu forte. Ele viu quando eu olhei para o braço dele aonde a tatuagem devia estar ocultada pela manga da camisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Você viu? - apontou com os olhos. Sorria. Suas faces coraram também.&lt;br /&gt;-- Er... vi. - não consegui me segurar - O que é? - perguntei curiosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele estendeu o braço e arregaçou a manga da camisa. A pequena tatuagem ficava na parte interna de seu braço, próximo à axila. Era pouco maior que um boton.&lt;br /&gt;Um dragão sinuoso em negro, verde e vermelho com toques azuis, enroscado sobre si mesmo. Parecia uma medalha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Fiz quando tinha uns quinze anos... Os garotos da turma estavam fazendo tatuagens... sabe como é... para se exibir... - e riu - Eu tinha pavor de agulhas mas não queria parecer um fraco e fiz esta pequena...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nós rimos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- É interessante... - &lt;em&gt;...como tudo em você.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Alguém entrou no hall.&lt;br /&gt;Nos ajeitamos nas cadeiras... nossas cabeças estavam quase se tocando...&lt;br /&gt;Levantei e fui atender ao usuário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na saída encontrei Lili e fomos conversando.&lt;br /&gt;Não tive como deixar de comentar a ocorrência do dia.&lt;br /&gt;Obviamente, ela também ficou me sacaneando. E foi ainda pior porque ela sabia o que eu sentia pelo Lino (ela brincou dizendo que mais um pouco e eu teria quebrado aquela vidraça e agarrado ele; entre outras coisas desse tipo...).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando me despedi dela, fiquei pensativa enquanto andava até em casa.&lt;br /&gt;A situação toda seria cômica se não fosse trágica (ao menos para mim): um cara tímido, uma garota expansiva, uma paixão velada... e ocorrências estranhas para temperar... &lt;em&gt;Putz!&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;À noite, deitada só em meu quarto, minha cabeça estava confusa. Não sabia se fomentava o que sentia e corria o risco de perder a amizade dele, ou se engavetava os sentimentos e tocava minha vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu piscava os olhos e a imagem de Lino sem camisa me assombrava... mas era o fantasma mais doce que conhecia...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6166509029461223532-3620338046047952938?l=agnostha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://agnostha.blogspot.com/feeds/3620338046047952938/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6166509029461223532&amp;postID=3620338046047952938&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/3620338046047952938'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/3620338046047952938'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://agnostha.blogspot.com/2010/07/fantasmas-parte-1.html' title='Fantasmas (Parte 1)'/><author><name>Agnostha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01959666006463231736</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://2.bp.blogspot.com/_CHP_-J93J6o/S1TD3Zrm6JI/AAAAAAAAAAM/AUnSeLWxstk/S220/Ag1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6166509029461223532.post-2372650642903996894</id><published>2010-07-14T01:22:00.000-07:00</published><updated>2010-07-15T05:23:12.924-07:00</updated><title type='text'>Carnaval</title><content type='html'>Aquelas semanas de fevereiro passaram voando.&lt;br /&gt;Como imaginara, minha vida ficou bem mais atribulada com as aulas, o D.A. e o estágio. Mas até que eu levava as coisas bem. Eu era muito agitada, e até hoje agendas cheias não me assustam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O feriado de Carnaval havia finalmente chegado e aquele sábado seria o primeiro dia dos nove que estaria de folga. Minha turma, em acordo com os professores, conseguiu enforcar a quinta e a sexta pós-carnaval. Então, só estaria de volta às atividades na outra segunda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava achando ótimo me desconectar de tudo, mas sentiria falta dos amigos.&lt;br /&gt;Ainda bem que em minha rua eu tinha Deguinha, minha melhor amiga.&lt;br /&gt;Ela era mais jovem que eu uns 3 anos, mas já era moça feita, muito bonita apesar de ter baixa estatura. Era uma pessoa superanimada, alto-astral e divertida. Mas não era só uma maluquinha qualquer, ela sabia também ser boa ouvinte e conselheira quando necessário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como não iríamos viajar naquele feriado - nossas famílias eram amigas e de vez em quando saíam juntas - resolvemos curtir o Carnaval nos blocos de rua no bairro vizinho ao nosso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não era lá o que se pode chamar de "foliã", ela tampouco.&lt;br /&gt;Nós íamos mesmo só para tomar uma &lt;a href="http://zerohora.clicrbs.com.br/rbs/image/6056986.jpg"&gt;caipifruta&lt;/a&gt;, comer um churrasquinho, paquerar e ser paqueradas, e, quem sabe, "ficar" com alguém já que estávamos ambas sem namorado. Eu não estava muito animada para "caçar" naquele ano, mas Deguinha me convenceu de que eu tinha que esquecer Wendell... como se eu precisasse...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de sair de casa - com a recomendação de nossos pais de não abusar de bebidas alcoólicas, evitar lugares ermos e não chegar muito tarde - chegamos na praça e demos uma volta para ter ideia do ambiente geral. Estava animado. Muitas pessoas pulavam com o barulhento bloco que tocava no fim da quadra. Como era um bairro residencial, famílias com suas crianças fantasiadas passeavam para lá e para cá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos afastamos do centro da folia. Paramos num trailer e compramos caipifrutas. De copos na mão, escolhemos um cantinho onde poderíamos conversar e observar a movimentação da aglomeração, ver e sermos vistas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- E então, Lia? Já está tudo certo para vocês irem a BH? - perguntou Deguinha. Eu sempre comentava as novidades do D.A. para ela.&lt;br /&gt;-- Ah, sim. Tivemos outra reunião chata na segunda passada e nossas passagens já estão agendadas. - respondi balançando o copo plástico.&lt;br /&gt;-- Sendo assim, então você foi no ônibus de novo com o "Samurai"? - praticamente afirmou animada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tive que rir. Embora "Samurai" fosse um termo que até poderia descrever Lino fisicamente, devido ao seu porte esguio, ele, definitivamente, estava longe de ser um guerreiro destemido...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Kamikaze, Deguinha, Kamikaze... - eu tinha contado essa estória pra ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela riu alto de si mesma, empurrando meu ombro - ela era mais expansiva do que eu... do que qualquer um, na verdade: -- Ah, você entendeu! - e continuou rindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ri com ela, mas não consegui entender o tom da pergunta. Qual a 'novidade' em eu ir a faculdade com um amigo? Preferi responder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Não, Deguinha... - apoiei o cotovelo na mão - Na última segunda nem fui ao estágio. Tive uma reunião à tarde, na decania. Marconi teve que ir também... - beberiquei meu drinque - Eles só liberaram duas passagens para BH, então teremos que ir somente eu e Marconi... O povo ficou chateado, mas prometeram que para Aracaju poderemos ir em comitiva...&lt;br /&gt;-- Você vai viajar sozinha com um cara? - ela arregalou os olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela me conhecia bem e sabia que seria minha primeira viagem com alguém do sexo oposto sem a supervisão de um adulto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- O que é que tem? - dei de ombros - Eu já sou maior de idade e não é nada de mais... estamos indo a trabalho. Além disso, Marconi não me interessa. Nós somos só amigos. Já te disse.- completei antes que ela começasse de novo. Desde que contei que estava no D.A., Deguinha vinha insistindo que eu namorasse com Marconi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela fez uma cara de desapontamento. Tomou um gole de sua caipifruta olhando a multidão. Depois olhou de novo pra mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Ele sentiu sua falta? - perguntou casualmente.&lt;br /&gt;-- Ele quem? - eu estava boiando.&lt;br /&gt;-- O Kamikaze. - ela sorriu - Ele sentiu sua falta quando você não foi ao estágio?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me lembrei da terça anterior, quando cheguei ao estágio e o rapaz me sorriu do balcão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Você não veio ontem... - ele comentou com a mesma calma de sempre.&lt;br /&gt;-- Tive uma reunião na parte da tarde ontem. - respondi guardando minha mochila - Não ia dar tempo de vir pra cá, então liguei para Nini e avisei que não vinha... - sentei ao lado dele.&lt;br /&gt;-- Isso aqui fica muito quieto sem você... - respondeu me olhando.&lt;br /&gt;Eu sorri.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Mas à tarde você tem o Zé...&lt;br /&gt;-- Não é a mesma coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu ri vaidosa, e ri de novo voltando ao presente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- É. Acho que sim. - eu ainda estava vendo a cena - Ele é um cara legal. - e lembrei de outra cena - Não sei como alguém pode não gostar dele... - murmurei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha visão voltou rapidamente para a segunda-feira em que faltei ao estágio.&lt;br /&gt;Saí reclamando da reunião. Marconi andava ao meu lado enquanto nos dirigíamos à parada de ônibus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Ah, justo hoje que Nini e seu Manoel não vão ao trabalho, eu não vou ao estágio... O povo do IF está em fase de renovação de matrículas... - reclamava e gesticulava - Lino e Zé vão ficar com a biblioteca nas costas!&lt;br /&gt;-- Você fala daquele cara "japa" do primeiro período? - perguntou Marconi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marconi estava no terceiro período da noite. Devia ver o Lino vez por outra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Lino? Sim, um altão, de cabelo espetado. - respondi confirmando sua hipótese.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arqueou as sobrancelhas: -- Você trabalha com aquele &lt;em&gt;babacão&lt;/em&gt;? - falou rindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquilo me chateou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Ei! Olhe como fala dos meus amigos! - franzi o cenho - Ele não é nada &lt;em&gt;babacão&lt;/em&gt;. - puxa, que falta de consideração do Marconi! Eu não deixaria alguém falar assim dele. Por que o deixaria falar assim do Lino?&lt;br /&gt;-- Ah, não!? - debochou - O cara nem fala direito... - gesticulou - Ele ficou isolado num canto, só bebendo sua cerveja na festa que os calouros pagaram pra gente depois da aula...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Eu sabia que Lino, literalmente, pagaria para não "pagar o mico" no pátio...&lt;/em&gt; Marconi continuou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- O pessoal que puxou assunto com ele, me disse que ele só respondia "Sim", "Não" e "Talvez". - e fez uma cara de débil rindo em seguida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me enfureci.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Isso não é verdade!! - minha mão cortou o ar - Ele é um cara caladão e tudo... Mas ele é um cara inteligente, tá! - respirei e moderei o tom - Ele só é na dele... quieto. - completei. Eu não sei o que me deu naquela hora para me alterar com o Marconi...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marconi continuou rindo, mas parou de falar.&lt;br /&gt;Seguimos nosso caminho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma turma de super-heróis passou por nós tocando trombetas. Voltei ao presente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Lino é muito gente fina... - lembrava do rosto dele sorrindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dei-me conta de que Deguinha me encarava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Nós formamos um trio e tanto! - completei rapidamente incluindo o Zé na equação.&lt;br /&gt;-- Você quer dizer 'um casal', né? - provocou ela com uma sobrancelha erguida.&lt;br /&gt;-- Não. Um trio... Tem o Zé também. - ela já sabia quem era o Zé - Nós três somos imbatíveis no balcão de atendimento. - e dei um gole na minha caipifruta de novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Mas você não está &lt;strong&gt;&lt;em&gt;apaixonada&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt; pelo Zé... - sentenciou Deguinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu quase me engasguei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Que isso, Deguinha! - disse tocando os dedos na boca pra ver se não tinha babado - Tá doida!? - respirei - Eu não te disse que estava até com medo do cara!?&lt;br /&gt;-- Esse medo tem outro nome... - fez uma cara presunçosa - "Amor à primeira vista". - afirmou com teimosia, parecia uma garotinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Eu fiquei púrpura! "Amor a primeira vista"!?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Isso que dava eu ter uma confidente. Ainda bem que eu não falava de Agnostha. Se tivesse falado, ela iria achar que eu era uma E.T. Da onde ela tirou aquilo? Pra que é que eu fui fofocar sobre o IF com ela? Deguinha tinha uma imaginação muito fértil mesmo... Imagine só: o cara mais quieto da universidade namorando a garota mais agitada do curso!? Que mistura!...&lt;br /&gt;Isso que dava ficar dois meses sem pegar ninguém... Era só aparecer algum comentário sobre meninos e já estavam me arranjando namorado... Ai, se o garoto fica sabendo disso! Que vergonha! - meus pensamentos viraram um turbilhão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Que amor o quê, Deguinha!? Para de graça! - ordenei.&lt;br /&gt;-- Você está gostando dele, sim! - insistiu, com a mão na cintura - Olha só como você fica alterada quando fala nele... - fez uma cara de sabichona.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquilo me irritou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Alterada!? Quem está alterada aqui!? - bufei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cada uma olhou para um lado fazendo bico. Depois, ela cruzou os braços e olhou para o povo que passava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Tá, Lia. Vamos fingir que eu não disse nada, está bem? - resignou-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu cruzei meus braços também e quase amassei meu copo plástico. Olhei para a multidão. Eu tinha que mostrar para ela que eu não estava interessada em ninguém. Nem no Marconi e muito menos no Lino. Chamei ela para darmos outra volta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deguinha conhecia milhões de pessoas. Não demorou muito até encontrarmos um colega dela, que por acaso, estava acompanhado de outro colega.&lt;br /&gt;O outro rapaz, Rafael, devia ter minha idade. Um moreno lindinho: mais ou menos da minha altura, cabelos negros ondulados. &lt;em&gt;Hum... Nada mal...&lt;/em&gt; - pensei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Papo vai, papo vem... Você sabe como é... Depois de meia hora eu estava beijando um e Deguinha o outro. (&lt;em&gt;Eu sou agnosta mas não sou santa!&lt;/em&gt; )&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficamos namorando e papeando até meia-noite mais ou menos.&lt;br /&gt;Os meninos foram bonzinhos e nos levaram em casa... Quer dizer, até nosso quarteirão. O pai da Deguinha não poderia saber que ela estava namorando - e que a amiga mais velha, e supostamente responsável, estava dando cobertura - e eu não queria que o rapazinho soubesse exatamente onde eu morava... &lt;em&gt;Duas fugitivas...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na despedida, combinamos de nos encontrar de novo no domingo de Carnaval.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu e Deguinha fomos caminhando e fazendo comentários acerca de nossa sorte.&lt;br /&gt;Nenhuma das duas estava entusiasmada. Era só passatempo. Mas era Carnaval, era festa, éramos jovens e ter companhia era bom.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não me sentia muito bem quando deitei em minha cama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As palavras de Deguinha misturavam-se com flashes dos meus dias com Lino reprisando em minha memória.&lt;br /&gt;As conversas no balcão sobre cinema e trabalho; na copa, sobre música (ele adorava os Scorpions e eu Roxette); no caminho, sobre família; o jeito que ele ficava quando eu e o Zé zoávamos ele; os risos quando ele tomava parte da zoação parecendo mais leve; os olhos orientais misteriosos quando o silêncio dele dava o tom do dia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ai, meu Deus... - eu me sentia confusa. Puxei o lençol.&lt;br /&gt;Eu sabia que ele era meu amigo. Disso eu tinha certeza. E eu não queria estragar nossa amizade com aquelas especulações bobas.&lt;br /&gt;Por que fui falar do &lt;em&gt;Kamikaze&lt;/em&gt; pra Deguinha?...Será que foi o meu tom de preocupação que alertou ela erradamente quando contei a história?&lt;br /&gt;Aliás... quem está preocupada aqui? ...Por mim, ele pode ser o próprio Dom Quixote que eu não estou nem aí...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Ai, meu Deus!&lt;/em&gt; - me virei na cama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Não! Nada de se interessar pelo Lino! Não mesmo!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Ele já deixou bem claro que ele tem problemas demais na vida dele... não iria precisar de uma namorada maluca...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, Puxa - me veio aquele desconforto - Será que ele já tinha namorada? Eu conhecia ele há dois meses e nem sabia se ele tinha namorada ou não... Nós nunca havíamos falado sobre essa parte antes... Não mesmo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me virei de novo. E se tinha? Que me importava? Será que ele tinha? - fechei os olhos - &lt;em&gt;Esquece!!!&lt;/em&gt; Você não está apaixonada por ele! Para de fantasiar as coisas!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pisei duro por entre a multidão. Sem fantasias! - coloquei as mãos na cintura, olhei para um lado e para o outro achando o que queria. Sorri. &lt;em&gt;Rafael! Sim!...&lt;/em&gt; Rafael beija bem. É um ótimo passatempo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As pessoas sambavam e brincavam se movendo em câmera lenta. Caminhei por entre os arlequins e as colombinas e fiquei frente a frente com ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rafael enlaçou minha cintura e me apertou contra seu peito. Fechei os olhos e me pendurei em seu pescoço beijando-o.&lt;br /&gt;Meus dedos se entrelaçaram nos cabelos espetados em sua nuca... Era bom beijar alguém tão mais alto que eu... Meu beijo se tornou mais ávido.... Deslizei uma das mãos pelas costas dele... Eu não queria fugir dos seus braços... Ele me envolveu mais. Sorri. Deslizei meus lábios pelo rosto imberbe encontrando aquela marquinha no queixo e a beijei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os tambores repercutiam no rítimo do meu coração... O abracei forte. Pousei minha face em seu ombro e, apesar da festa continuar ruidosa a nossa volta, senti uma imensa paz.&lt;br /&gt;"Tarde demais..." - murmurou ele enquanto passava os lábios em meu pescoço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Reconheci a voz.&lt;br /&gt;Consciência.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;Ai, meu Deus!!!&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Acordei ofegante. Meu coração martelava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentei na cama e me recostei na guarda. Meu quarto em silêncio.&lt;br /&gt;Respirei tentando entender. O Rafael de meu sonho... que beijara entre arlequins e colombinas... se tornara Lino e eu... eu... &lt;em&gt;Eu gostei!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Abracei as pernas e apoiei o queixo nos joelhos. Suspirei confusa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Tarde demais", ele dissera... &lt;em&gt;Tarde demais?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Minha cabeça dava voltas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não. É melhor esquecer isso.... Melhor esquecer...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem me lembro se dormi de novo naquela noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;------------------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O resto daquele feriado prolongado passou como uma tortura chinesa.&lt;br /&gt;Eu e Deguinha saímos com os meninos à noite, brincamos, lanchamos e namoramos, mas minha cabeça estava no IF. Me distraí o máximo que pude, mas sempre que ficava um minuto em silêncio, me vinha o sonho...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não queria sucumbir àquela hipótese e toda vez que Deguinha tocava no assunto eu saía com evasivas. Fugi do assunto durante todo feriado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na quarta-feira de cinzas, quando o garoto, Rafael, disse que iria lá em casa para continuar me vendo eu o cortei.&lt;br /&gt;Dei a desculpa de ter uma vida muito agitada e ocupada e que não queria me amarrar. Não era exatamente uma mentira.&lt;br /&gt;Ele também não se fez de rogado. "Quem eu estava pensando que era?" - era a cara dele quando se despediu de mim. Eu nem liguei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na quinta fui à praia, na sexta a um churrasco e no sábado à casa de parentes.&lt;br /&gt;Quando Deguinha foi me ver para papear no domingo, eu mantive o plano e fugi de qualquer assunto que me fizesse falar sobre o IF. Preferi ouví-la.&lt;br /&gt;Ela não era tola e percebeu que eu estava me forçando a não falar... mas era uma boa amiga e me deu espaço.&lt;br /&gt;Me dispus a esquecer aquela bobagem toda. Eu gostava do Lino sim, mas como amigo e pronto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;---------------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na segunda-feira fui para a faculdade feliz.&lt;br /&gt;Encontrei as amigas e passamos a manhã toda, entre uma aula e outra, falando em como fora o feriadão.&lt;br /&gt;Ri, brinquei, me gabei um pouco por ter ficado com alguém... foi legal. Mas me sentia diferente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando eu e Lili conseguimos - por um milagre - ir sentadas no ônibus que ia para o Fundão, ela começou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Então o Carnaval foi bom, hein? - comentou - Por que não ficou namorando o rapaz? Você está só, não está?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dei a mesma desculpa que dera ao Rafael. E após ouvir-me, ela respondeu: "Sei." - e olhou pela janela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu já estava com aqueles "Sei's" dela meio que atravessados na garganta, e naquele dia em particular, eu estava mais propensa a discutir:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Qual é, Lili? - incitei - Não estou entendendo esses &lt;em&gt;"Sei"&lt;/em&gt; seus... - sorri sem graça - Está querendo insinuar alguma coisa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela riu, segura de si.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Qual é você, Alya? Não vê que só existe um motivo pra você não querer se ocupar com outro alguém nesse momento?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu perguntei, imaginando a resposta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Que motivo?&lt;br /&gt;-- Lino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquilo me doeu. Era o assunto que me incomodara todo o feriado. Parecia que estava escrito em minha testa. Eu tentara inutilmente disfarçar rindo e brincando com todos, mas as pessoas que me conheciam bem, como Deguinha e Lili, viam a confusão em mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha máscara de onipotente caiu. Um misto de vergonha, frustração e surpresa passaram por mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Juntei as mãos sobre a mochila pousada em meu colo e olhei pro corredor. O ônibus chacoalhava em seu caminho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Já está &lt;em&gt;tão&lt;/em&gt; na cara assim? - perguntei com uma pontada de tristeza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sorriso dela se ampliou, satisfeita por eu ter praticamente admitido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Pô! É tarde demais, minha querida... Você já está apaixonada pelo cara... e não é de agora...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Tarde demais".&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me senti como um &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Cubo_de_Rubik"&gt;cubo Rubik&lt;/a&gt; sendo finalizado. Todas as faces de uma só cor. Tudo se encaixava.&lt;br /&gt;O misto de medo, ansiedade e desejo de ficar perto dele... com ele. O sonho, o beijo e a sensação boa que vinha junto... e o sentimento novo e desconhecido que se somava àquilo tudo.&lt;br /&gt;Era fato. Eu devia mesmo estar gostando do cara. Não podia mais ignorar esse sentimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E agora?&lt;br /&gt;Eu não sabia como lidar com aquilo. Quer dizer, eu nunca tinha gostado de alguém antes - claro que já tinha me apaixonado por cantores de rock e ídolos do cinema, mas aquilo era diferente...&lt;br /&gt;Todas as vezes em que namorei, eu estava gostando do cara; mas não daquele jeito... Eu nunca havia passado por uma amizade que se transformasse em algo mais. Pra mim, amigo era amigo, e paquera era paquera. Coisas bem distintas. Tanto que eu não sentia nada semelhante em relação a Marconi...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passei a mão pelos cabelos lentamente, olhei pra ela e soltei o ar que não sabia que estava segurando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Como deixei isso acontecer...? - balancei a cabeça - E agora? - perguntei impotente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela sorriu torto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- E agora nada. Você vai lá e diz pra ele que esta gostando dele e pronto! - respondeu.&lt;br /&gt;-- Nem pensar!!! - disse enfática - Ele não gosta de mim desse jeito e eu não quero acabar com nossa amizade... Além disso, acho ele não iria ficar com uma garota amalucada como eu... ele deve preferir as mais quietinhas. - ri sem graça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela franziu a testa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Que isso, Alya? - comentou - Você é animada, e não "amalucada". E você é quieta. Você é mais reservada do que aparenta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nossa... Lili era tão observadora. Tanto quanto Deguinha. Tão sensíveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem conhecer as motivações, elas conseguiram captar minhas máscaras e meus sentimentos em relação ao Lino, antes até do que eu mesma percebera... E eu me achando "A perceptiva", "A sonhadora"... Só tenho a agradecer aos céus por ter me dado amigas como elas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Tá Lili. - concordei - Mas vamos deixar tudo como está, ok? - gesticulei. Me lembrei que eu os tinha apresentado - Nem uma palavra Lili... Por favor. - pedi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela sorriu complacente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Tá bom. Tá bom. Eu quase não vejo ele mesmo... Mas acho que você deveria falar dos seus sentimentos pra ele...&lt;br /&gt;-- Vamos ver como as coisas ficam... - suspirei e sorri - Eu lido com o que vier... - estava tentando me convencer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lili me empurrou com seu ombro num gesto carinhoso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Torço por você, amiga. - e me sorriu fraternalmente.&lt;br /&gt;Eu retribui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ônibus seguia chacoalhando.&lt;br /&gt;O meu coração era uma passarela pisoteada pelos sentimentos que desfilavam nele enquanto eu me aproximava do Fundão.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6166509029461223532-2372650642903996894?l=agnostha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://agnostha.blogspot.com/feeds/2372650642903996894/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6166509029461223532&amp;postID=2372650642903996894&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/2372650642903996894'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/2372650642903996894'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://agnostha.blogspot.com/2010/07/carnaval_14.html' title='Carnaval'/><author><name>Agnostha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01959666006463231736</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://2.bp.blogspot.com/_CHP_-J93J6o/S1TD3Zrm6JI/AAAAAAAAAAM/AUnSeLWxstk/S220/Ag1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6166509029461223532.post-7261250071449772445</id><published>2010-07-01T09:30:00.000-07:00</published><updated>2010-07-14T17:53:03.844-07:00</updated><title type='text'>Cérbero (Parte 2)</title><content type='html'>Fomos para o jardim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pseudo-jardim. Tudo era mal cuidado e estava cheio de ervas daninhas. Apesar disso, por detrás do banco de cimento, &lt;a href="http://farm3.static.flickr.com/2090/2119604273_8668717de1.jpg"&gt;capitães-do-mato&lt;/a&gt; e &lt;a href="http://www.chicoaudibank.com.br/banco_imagem/675/00447.jpg"&gt;&lt;span style="TEXT-DECORATION: underline"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://www.chicoaudibank.com.br/banco_imagem/675/00447.jpg"&gt;margaridas de jardim&lt;/a&gt; floriam desordenadamente pintando aquela massa verde com alguma cor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do ângulo em que vim, encarando o cenário, tive uma sensação estranha.... &lt;em&gt;Eu já estivera ali?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Era um &lt;em&gt;&lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/D%C3%83%C2%A9j%C3%83%20_vu"&gt;déjà vu&lt;/a&gt;&lt;/em&gt;: o banco cinza, o verde salpicado de laranja, amarelo e branco, o entardecer em volta, me lembravam algo que já tinha visto....familiar.... Mas o quê?&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Meu Deus... aonde vi um jardim assim?-&lt;/em&gt; a resposta estava na ponta da língua, mas não saía.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Obviamente, tentei não transparecer nada da surpresa e frustração que se convulsionavam dentro de mim para o rapaz que caminhava ao meu lado. Mas acho que algo me escapuliu...&lt;br /&gt;Me sentei insegura, esticando a coluna para não parecer uma velha corcunda. Ele sentou-se ao meu lado e também parecia inseguro, como se tivesse cometido uma gafe ao me convidar para ali.&lt;br /&gt;Imagino que ele interpretara mal minha reação... De qualquer forma achei melhor não comentar. Vai que ele me acha uma esquisita?...&lt;br /&gt;Pensando em esquisitices, lembrei-me que sonhara com ele. Não comentaria nada sobre aquilo. Vai que ele me acha uma louca?...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei sem assunto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Er... bacaninha aqui, né? - falei já me sentindo uma idiota por abrir a boca.&lt;br /&gt;-- É. - respondeu no mesmo tom - Está pouco movimentado porque é a primeira semana... os alojamentos estão vazios.&lt;br /&gt;-- Ah, é.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cruzei as pernas e pousei as mãos nos joelhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Será que esse ônibus vai demorar muito? - olhei o meu pequeno relógio de pulso - Meus pais vão ficar preocupados...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O vento jogou meus cabelos em meu rosto. Eles eram longos e encaracolados.&lt;br /&gt;Ele apoiou os cotovelos em seus joelhos, juntando as mãos e se inclinando para frente para achar meus olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Você mora com seus pais?&lt;br /&gt;-- Eu e meus irmãos. - joguei o cabelo para trás. - Tenho dois. Um irmão e uma irmã mais novos. - respondi mais do que ele perguntara. Acho que era ansiedade. - E você? Tem irmãos? - Eu tinha que puxar assunto, ou então aquele clima iria ficar mais estranho...&lt;br /&gt;-- Ãh... Tenho três irmãs.... Uma de sangue que mora conosco, eu e minha mãe; e duas por parte de pai que moram com ele e sua esposa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;O-Oh... Será que pisei em campo minado?&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;-- Ãh... - pisquei - Faz muito tempo que... - deixei a frase morrer. &lt;em&gt;Intrometida! Intrometida&lt;/em&gt;!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele se ajeitou no banco:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Faz sim. - desviou o olhar - Eu tinha sete e minha irmã quatro, quando ele deixou a gente. - e olhou para longe vendo o passado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É. Era um campo minado. Eu notei o uso da palavra "ele" ao invés de "meu pai"...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele momento eu senti uma afinidade muito grande com aquele rapaz, já um homem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Famílias complicadas existem em toda parte. A minha mesmo, por exemplo, apesar de ser e estar unida, tinha seus altos e baixos de vez em quando. Eu já tinha tido minha quota de confusão quando pré-adolescente devido às brigas de meus pais. E tinha sido bem difícil... Imagine passar por aquilo na infância...&lt;br /&gt;Achei que naquele pequeno comentário dele estariam subentendidas muitas mágoas, ressentimentos e dor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Será que teríamos outras coisas em comum? Quer dizer... a dor tinha me ensinado a ser forte... claro... graças a Agnostha, de certa forma... Mas e ele?&lt;br /&gt;O que teria ele encontrado em sua jornada? Era essa a razão de ele ser tão tímido? Preferia se calar para esconder sua dor?&lt;br /&gt;Fiquei curiosa. Mas achei melhor lhe dar uma perspectiva similar... mostrar minha empatia:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Deve ter sido difícil... - eu olhava pra ele, e ele para longe. - As coisas já foram muito difíceis lá em casa também... de vez em quando ainda são...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele tornou a me olhar, me dando atenção.&lt;br /&gt;Falei um pouco da miha história, dos ciúmes da minha mãe, e dos vacilos do meu pai. Falei da quase separação e da fase de paz em que estávamos agora.&lt;br /&gt;É claro que não entreguei toooda a roupa suja... seria constrangedor...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- É engraçado... - iniciou ele. Eu olhei. - Você é sempre tão expressiva e alegre... está sempre de alto astral... Não parece alguém que tenha tido qualquer tipo de sofrimento nesta vida...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;O quê? Ele tava pensando que minha vida era um mar-de-rosas? Que eu era uma "patricinha"?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Todo mundo sofre, garoto... - e olhei pra frente sorrindo.&lt;br /&gt;-- Garoto... - sorriu franzindo a testa - Eu já tenho 23, &lt;em style="FONT-WEIGHT: bold"&gt;garota&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sorri vendo que ele não gostara do substantivo.&lt;br /&gt;Nessa hora o ônibus chegou. Nos levantamos e entramos no fim da fila.&lt;br /&gt;Como antes, ele ficou à porta e me deixou passar. Por sorte havia um banco vazio. Nos sentamos. Eu à janela. Olhei a paisagem e suspirei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Foi muito difícil para minha mãe criar a gente... - começou Lino do nada, captando minha atenção - Ela teve que fazer muitos sacrifícios. - olhou para a frente, de novo vendo o passado - Meu pai não pagava a pensão regularmente... e minha mãe teve que se virar em vários empregos, nem sempre bons... - ele olhou para suas próprias mãos pousadas na mochila em seu colo. Havia algo mais em sua expressão... Vergonha? - Nós levávamos uma vida bastante humilde a até bem pouco tempo. - me encarou - Nestes 3 últimos anos, comigo e minha irmã trabalhando, pudemos dar um descanso a minha mãe... Estamos estabilizando nossa vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele tinha tomado a iniciativa de falar... isso era novidade. Foi o discurso mais longo que eu já o tinha ouvido expressar desde que o conhecera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais uma vez senti afinidade. Ele também estava se dedicando a ser independente - não da família, neste caso; mas independente de um passado ruim. Estruturando sua vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- ... E agora que você passou para a faculdade, terá mais oportunidades de dar conforto a sua mãe e irmã. Legal isso. - completei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele gostou do meu raciocínio. Trocamos um sorriso de camaradagem.&lt;br /&gt;O ônibus seguia seu caminho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Você está indo se encontrar com o Marconi... É esse o nome dele? - perguntou mudando de assunto.&lt;br /&gt;-- Ah, sim. - e completei - Com ele e com o D.A.&lt;br /&gt;-- Por que você se importa com os alunos? Quer dizer... por que você pegou essa responsabilidade para si? - gesticulou - Não tinha ocupação o bastante? - e riu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Ainda me achando patricinha...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Achei que seria uma oportunidade de crescer profissionalmente, conhecer gente... sabe... pegar os macetes... - me ajeitei no banco e fiz um ar presunçoso - Além disso... gosto de ver as coisas acontecerem. Se algo tem de ser feito, precisar ser feito, e eu achar que posso fazê-lo, eu vou lá e faço.&lt;br /&gt;-- Huh. - ele sorriu e deu aquele olhar de como quem diz "corajosa!".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A viagem seguiu e eu aproveitei o gancho para falar de Belo Horizonte e Aracaju.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Sol já não era mais visível quando atravessamos o pátio naquela tarde.&lt;br /&gt;Perto do CCH Marconi nos avista e aparece na janela da salinha do D.A.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Graaande Alya. - saudou-me - Bem-vinda! Sobe aí... - gesticulou chamando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei para o janelão de vidro e vi que haviam outros na sala com ele. Paramos. Lino tinha que descer a rampa e eu subir para o D.A.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Bem... - comecei eu. A timidez voltando. - Obrigada por me ensinar a chegar aqui... e pela companhia... - ajeitei a mochila no ombro.&lt;br /&gt;-- Não foi nada. Precisando é só pedir... - os olhos orientais sorriram, mas os lábios estavam comprimidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pensei em beijar-lhe o rosto. Como forma de agradecimento e despedida. Mas ele era tão sério... Fiquei sem ação. Simplesmente me virei e subi as escadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na salinha cumprimentei a todos. Alguns à moda carioca.&lt;br /&gt;Éramos sete. Quatro rapazes e três moças. Da turma da manhã, só eu.&lt;br /&gt;Havia uma adição ao grupo e me apresentaram Leandro. Era um calouro que sabendo de nossa reunião, queria conhecer o D.A. e quem sabe, se engajar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era um rapaz de fisionomia interessante. Alto, magro, de tez muito clara e a característica marcante de ter os cabelos grisalhos apesar de não ter mais de 20 anos. Quando olhei para ele, me lembrei do cantor &lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_w6KTf-mMOaI/SGO59ZGR9gI/AAAAAAAAABY/VKbrysJAR_M/s320/voodecoracao.jpg"&gt;Ritchie&lt;/a&gt; dos anos 80. Mesmo corte de cabelo... mesmos olhos verdes. Atraente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não estava ali para apreciar a beleza de ninguém. Minha cabeça entrou em modo de trabalho quando a reunião começou e eu me abstraí.&lt;br /&gt;Levamos quase duas horas discutindo os preparativos da viagem: quem gerenciava as listas de temas, quem ia até a decania acompanhar a liberação das passagens, que ônibus pegaríamos, o que levar, quem fazia o quê e quando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei o relógio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Ai, Marconi! Já são quase nove... Eu moro longe, você sabe... - comentei.&lt;br /&gt;-- Tudo bem, Alya. Já acabamos aqui. - respondeu levantando-se - Mas antes, vamos nos apresentar às turmas, certo? Hoje é o primeiro dia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei o relógio de novo. Ah...puxa! Já estava tarde. Eles, ao sairem dali, voltariam as suas classes. Eu teria que atravessar todo o campus da UFRJ para chegar até a parada de ônibus no &lt;a href="http://maps.google.com.br/maps?hl=pt-BR&amp;amp;ie=UTF8&amp;amp;q=instituto+pinel&amp;amp;fb=1&amp;amp;gl=br&amp;amp;hq=instituto+pinel&amp;amp;hnear=Rio+de+Janeiro+-+RJ&amp;amp;view=map&amp;amp;cid=13999989467057578246&amp;amp;iwloc=A&amp;amp;ved=0CEYQpQY&amp;amp;sa=X&amp;amp;ei=5NctTO2BFJ-uMuXftMIJ"&gt;Pinel&lt;/a&gt;...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Tem que ser hoje, Marconi? - reclamei juntando as canetas - Eu terei que andar até a parada...&lt;br /&gt;-- Não liga não, gata. Eu te deixo lá. - falou o tal Leandro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu olhei pra ele. Ele sorria... pretencioso?&lt;br /&gt;Eu não gostei de ele ter me chamado de "gata". Primeiro que eu tinha conhecido ele naquele dia. Segundo que eu mal tinha falado com ele. E terceiro que eu não me acahava uma "gata". Mas o povo era jovem... deixa pra lá. E quanto a oferta, como negar? Eu sabia que não haveria perigo ao longo de um percurso cheio de estudantes, mas andar acompanhada era sempre melhor. Era a primeira vez que eu andava na Urca à noite...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Valeu. - disse simplesmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saimos todos juntos e entramos no CCH.&lt;br /&gt;Caminhamos pelos corredores. Marconi batia de porta em porta, pedia licença ao professor e fazia as apresentações formais às turmas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Essa aqui é meu braço direito pela manhã. - dizia ele quando chegava no meu nome - Precisando de algo do D.A. pelo turno da manhã, procurem Alya.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me limitava a fazer um "Oi" com o polegar, o indicador e o mínimo (Libras. Lili havia me ensinado. Ela falava linguagem dos sinais).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando chegamos à turma do primeiro período, vi Lino. Ele sentara no fundo da sala... claro.&lt;br /&gt;Marconi repetiu a fala e eu o gesto. Mas antes de sair eu pisquei um olho para Lino... para provocá-lo. &lt;em&gt;A-ha... Eu sabia que ele ia ruborizar! Que figura!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após a última sala, nos depedimos no corredor rapidamente. Cada um tinha que voltar a sua classe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Quer que eu te leve até a parada, Alya? - ofereceu Marconi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leandro se adiantou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Pode deixar que eu levo ela... Eu tô indo para casa. Primeiro dia de aula é um saco...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marconi me olhou e eu assenti. Se o cara estava indo para casa, para quê Marconi matar aula?&lt;br /&gt;Marconi olhou o rapaz e fez uma cara:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Olha lá, hein, rapá... Essa aí é minha amiga... Cuidado. - ameaçou brincando.&lt;br /&gt;-- Qual é, Marconi...? - Leandro fez uma cara inocente e brincalhona.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu girei meus olhos à hipérbole e bufei. &lt;em&gt;Qual era desses dois? Eu era algum bebê?&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Eu e Leandro descemos.&lt;br /&gt;Fizemos comentários sobre a reunião e a faculdade.&lt;br /&gt;Ele começou a falar de si, dizendo que morava na Barra, que tinha carro mas o deixara em casa, que aquela era sua segunda tentativa de fazer faculdade, que tinha um irmão, que iam pescar, que gostava de viver ao ar livre e blá, blá, blá, blá...&lt;br /&gt;Atravessamos todo o campus com ele falando sem parar. Eu estava cansada, mas fiz o possível para parecer simpática.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegamos no ponto do ônibus, próximo ao Instituto Pinel, e paramos. Eu estava até achando graça no rapaz que falava mais do que eu, mas meu ônibus apontou na rua.&lt;br /&gt;Eu olhei e fiz sinal, e então me virei para me despedir e agradecer a gentileza do moço.&lt;br /&gt;No segundo em que me aproximei ele enlaçou minha cintura com um dos braços e puxou meu corpo para si com força. Se eu não viro o rosto, ele teria me dado aquele selinho na boca. Foi muito rápido e eu já estava livre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Palhaço. - falei ultrajada, mas não arrogante. Ele era um cara muito confiante de sua beleza. Com certeza, a maioria das garotas deviam deixar ele beijá-las...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não havia mais tempo para discutir. Constrangida, dei as costas e entrei no ônibus. Em outra ocasião eu conversaria com ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paguei a passagem e me sentei sem olhar para a parada enquanto o ônibus saía. A enseada de Botafogo ficando para trás.&lt;br /&gt;Me recostei e respirei um pouco. Minha cabeça parecia um trailer de cinema. As cenas misturavam-se.&lt;br /&gt;Filho da mãe... - pensei e depois ri - Até que ele seria um cara interessante... se não fosse&lt;em&gt; tão&lt;/em&gt; convencido! ... &lt;em&gt;Mais essa agora...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava muito cansada. Cansada demais para ficar ruminando sobre um rapaz inconsequente e superficial. Me lembrei do meu dia , mais cedo, e sorri. Lino, ao contrário, era bem mais centrado... e mais complexo também, tendo em vista nosso papo no alojamento...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez mais que complexo... - ergui uma sobrancelha nessa linha de pensamento - Complicado mesmo. Um cara complicado: família complicada, personalidade complicada... Praticamente um "bicho de sete cabeças". - e senti um friozinho no estômago quando a lampadinha se acendeu - ... Ou um bicho de três cabeças... no labirinto da vida... E ri sussurrando a conclusão maluca:&lt;br /&gt;-- Cérbero!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei pela janela mas não via nada além do meu reflexo espelhado conforme o ônibus avançava pelo Aterro.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Isso é doidera sua, Alya... Essa sua psicologia barata está ficando mais pobre a cada dia.... Deixa o garoto em paz...&lt;/em&gt; - falei pra mim mesma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ônibus seguia sua viagem.&lt;br /&gt;Me lembrei também do &lt;em&gt;déjà vu&lt;/em&gt;. Mais um motivo para não me levar muito a sério...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei de novo para a moça no reflexo e fiquei imaginando se ela poderia ficar mais estranha.... mais Agnostha.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6166509029461223532-7261250071449772445?l=agnostha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://agnostha.blogspot.com/feeds/7261250071449772445/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6166509029461223532&amp;postID=7261250071449772445&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/7261250071449772445'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/7261250071449772445'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://agnostha.blogspot.com/2010/06/cerbero-parte-2.html' title='Cérbero (Parte 2)'/><author><name>Agnostha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01959666006463231736</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://2.bp.blogspot.com/_CHP_-J93J6o/S1TD3Zrm6JI/AAAAAAAAAAM/AUnSeLWxstk/S220/Ag1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6166509029461223532.post-241625079803530797</id><published>2010-06-14T10:00:00.000-07:00</published><updated>2010-07-14T17:55:21.109-07:00</updated><title type='text'>Cérbero (Parte 1)</title><content type='html'>Era o primeiro dia de volta às aulas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi muito bom ver as amigas de novo.&lt;br /&gt;Cumprimentei Lú e Diva com alegria, feliz também por ver Lili - mas ela eu via a semana toda.&lt;br /&gt;Trocamos comentários sobre as férias, o que fizemos e onde fomos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava feliz. Tinham sido ótimas férias.&lt;br /&gt;Não viajara, mas tinha ido a festas de aniversário, casamento, praia, campo e rio.&lt;br /&gt;Fora ao parque e à boate com as amigas.&lt;br /&gt;Meus pais, em fase de paz, nos levaram, eu e meus irmãos, ao Corcovado.&lt;br /&gt;Foi muito legal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ainda tinha o estágio. Estágio este que me ocupava os dias da semana, me livrando dos trabalhos domésticos, e adicionando algo ao meu aprendizado.&lt;br /&gt;Agora teria que ir ao estágio à tarde, mas estava tudo bem pois não tinha mais compromissos depois da aula.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No intervalo do lanche dei uma passadinha na sala do Diretório Acadêmico que ficava no mesmo campus.&lt;br /&gt;Era uma salinha de tamanho médio, mais comprida que larga, e ficava sobre a entrada daquela bendita rampa de acesso aos elevadores.&lt;br /&gt;Era conjugada com outra sala que fora cedida a uma microempresa de xerox. Os donos da microempresa nos pagavam em forma de quotas de xerox que era bastante utilizada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao chegar lá, o mocinho que trabalhava nas máquinas, já sabendo quem eu era, me avisou que Marconi havia confirmado a reunião da noite - naquele tempo não havia celular...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Retornando à cantina encontrei as amigas e comentei que teria que voltar à faculdade à tarde, como já desconfiava que o faria desde a semana anterior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Nossa... - comentou Diva enquanto lanchávamos - mal você volta às aulas e já tem reunião? - e completou referindo-se a Marconi - Esse cara está nos seus calcanhares, hein!?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi só uma fração de segundo, imperceptível para minhas amigas, mas eu me arrepiei quando a frase dela quicou no meu cérebro fazendo-me rememorar o sonho daquela noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu corria por ruas estreitas - ou um corredor largo - limitadas por paredes altas cobertas por eras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As quadras faziam ângulos de 90 graus com outras quadras.&lt;br /&gt;Era noite e somente a lua cheia iluminava o caminho. A mesma lua dava às folhas um aspecto prateado que contrastava com as penumbras.&lt;br /&gt;Eu corria descalça, com medo de olhar para trás.&lt;br /&gt;Usava um vestido de cor clara, diáfano - eu vi as saias - similar a uma toga. Os braços nus. Me sentia vulnerável.&lt;br /&gt;De som, só ouvia meus passos batendo no chão de terra e minha respiração indo e vindo muito rápido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava aflita. Avançava a cada esquina esperançosa.&lt;br /&gt;Olhava para um lado e para o outro buscando a saída, mas tudo era igual. Todas as esquinas iguais. Um labirinto!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu entrava nas ruas sem noção de para onde ir, atravessando zonas claras e escuras.&lt;br /&gt;Respirava e corria. Sabia que algo estava no meu encalço... nos meus calcanhares...&lt;br /&gt;Não havia tempo para decidir... eu só podia correr.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele momento eu não me lembrava da minha força... não agia. Só reagia. Semi-consciente.&lt;br /&gt;Me sentindo desamparada e só, ainda tive cabeça para me lembrar que na mitologia grega, era o &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Minotauro"&gt;Minotauro&lt;/a&gt; quem perseguia e devorava aqueles que entravam em seu labirinto.&lt;br /&gt;Aturdida com o pensamento, eu corria mais rápido, imaginando que ele poderia me alcançar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente parei estupefata numa rua sem saída. As eras indo alto demais para eu tentar pular. &lt;em&gt;Não!&lt;/em&gt; - gemi.&lt;br /&gt;Tatei o muro procurando desesperadamente por uma passagem. Foi quando ouvi passos vindo do corredor pelo qual passara.&lt;br /&gt;As paredes altas faziam sombra à lua justo naquela esquina. Um breu total.&lt;br /&gt;Virei assustada pressionando-me contra as eras e esperei que o Minotauro aparecesse no beco em que estava.&lt;br /&gt;Seria o fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando vi o corpo se mover nas sombras fiz menção de gritar, mas como, para minha surpresa, não era nada do que eu esperava, me contive.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele se aproximou caminhando calmamente aparecendo sob a luz da lua que iluminava o ponto onde eu estava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Esta perdida? - perguntou ele educado.&lt;br /&gt;-- Lino? - eu estava incrédula a e ao mesmo tempo aliviada - Sim... Você me ajuda a sair daqui? - implorei&lt;br /&gt;-- Venha. - gesticulou com a cabeça - Eu te ajudo. - e ofereceu sua mão direita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu a segurei e voltando ao corredor, começamos a caminhar.&lt;br /&gt;O alívio era enorme, mas eu ainda estava assustada. Ele usava as mesmas roupas de sempre, jeans e camisa de botão escuros, e parecia calmo demais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- O que está fazendo aqui? Não tem medo do Minotauro? - perguntei. &lt;em&gt;Eu devia estar sonâmbula mesmo...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;-- Não. O Minotauro não vive aqui. - respondeu tranquilo.&lt;br /&gt;-- Não!? - franzi a testa. Mas eu tinha certeza que algo me perseguia, eu o sentia - Quem me perseguia então? - perguntei confusa.&lt;br /&gt;-- Cérbero. - disse ele com toda naturalidade. - Ele mora aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Ihrrc!&lt;/em&gt; Lembrei do &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/C%C3%A9rbero"&gt;cão monstruoso &lt;/a&gt;de três cabeças que guardava as portas de Hades. -- Minha nossa!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando tirei meu olhos do rosto dele, vi que já estávamos sob o grande portão do labirinto.&lt;br /&gt;Era um portão duplo de ferro pesado, com lanças também de ferro decorando a parte superior.&lt;br /&gt;Com a mão que estava livre, ele pegou a grande argola e puxou uma das pesadas faces que cedeu sem resistência. Era o suficiente para passarmos.&lt;br /&gt;Pude ver que do lado de fora era tudo muito comum. Uma rua cheia de casas comuns, iluminadas, seguia alheia à entrada sinistra. Ninguém à vista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Avancei pelo portal e fiz menção de seguir pela calçada em que pisei, feliz por saber que estava livre, mas senti a trava. Ele não soltara minha mão.&lt;br /&gt;Ficou parado sob o portal do labirinto, me olhando.&lt;br /&gt;Estranhei aquilo. Me reaproximei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Anda! - urgi - Vamos sair daqui! - disse puxando sua mão para a calçada também.&lt;br /&gt;-- Não. - respondeu soltando minha mão gentilmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu olhei pra ele surpresa.&lt;br /&gt;Ele deu um passo para trás voltando para as sombras, seu rosto frio, e disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Eu moro aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E acordei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Hein, Alya? Vai ter que voltar mesmo? - insistiu Lili.&lt;br /&gt;-- Hã?... Ah, sim, sim. Vou. - respondi voltando ao cenário real. - Tenho que ligar para meus pais...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Raramente sonho com gente conhecida.&lt;br /&gt;Mesmo pais, amigos e parentes... raramente sonho com eles.&lt;br /&gt;Sonhar com conhecidos, da faculdade ou do trabalho, era mais raro ainda.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;O que é que aquela figura fazia no meu sonho? Putz.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O segundo tempo acabou muito rápido.&lt;br /&gt;Ou era eu que estava muito esbaforida?&lt;br /&gt;Nos intervalos de cada aula, eu corri todas as turmas para coletar sugestões e pedidos para encaminhar em nossa reunião da noite, além de me apresentar à turma do primeiro período.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No caminho, liguei de um orelhão para o trabalho dos meus pais avisando que demoraria. Depois, eu e Lili corremos para não perder o conexão - o ônibus da UFRJ que fazia a linha gratuita entre o campus Praia Vermelha na Urca, e o campus Ilha do Fundão. Ele saía ao meio-dia, e ai de nós se o perdêssemos... teríamos que pegar o convencional - pago - que levava milhares de anos para passar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ônibus lotado, ficamos em pé. Estava cansada mas aproveitei para verificar a lista que trouxera. Tentava ver se não tinha me esquecido de passar em alguma turma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Relaxa, Alya! - censurou Lili - Você é sempre tão elétrica! Pô! Até no ônibus!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu ri e guardei a papelada como pude. O ônibus balançava a beça. Lili sempre cuidava de mim...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Você já tem como voltar? - perguntou-me depois.&lt;br /&gt;-- Já. O Lino vai me mostrar o ponto final desse ônibus aqui lá na Ilha e vamos voltar juntos pra Urca. - respondi passando a mochila a uma boa alma que se oferecera para segurá-la.&lt;br /&gt;-- Sei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era a terceira ou quarta vez que Lili me respondia dizendo "Sei" e fazendo aquela cara de paisagem toda vez que eu falava no Lino ou no estágio. Aquilo já estava me dando nos nervos, mas deixei essa passar.&lt;br /&gt;Na semana anterior fora a vez dela me encontrar na biblioteca e eu apresentei o povo de lá para ela. Ela deu uma boa olhada no Lino. &lt;em&gt;Será que estava interessada nele? Ela era tão bonita...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegando no Fundão eu almocei num trailer barato. Lili havia trazido marmita e seguiu para o IGEO.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava de ótimo humor quando entrei na biblioteca.&lt;br /&gt;Dei "bom dia" a todos e fui para o balcão. A biblioteca estava movimentada com o primeiro dia de aulas também no Fundão. Vários alunos faziam seu cadastro e Nini Brantes me pediu que eu esquecesse o inventário e ficasse no balcão para ajudar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu concordei.&lt;br /&gt;Vi que havia mais gente naquele espaço estreito. Era o outro estagiário, o Zé.&lt;br /&gt;Era um jovem negro, entre 20 e 22 anos, mais ou menos de minha altura e bem magrinho.&lt;br /&gt;Depois das apresentações e beijinhos no rosto já estávamos nos enturmando.&lt;br /&gt;Ele era estudante da UFF e vivia na minha cidade. Foi fácil simpatizar com ele. Ele parecia também ser um rapaz tímido, mas não caladão como o outro companheiro de balcão.&lt;br /&gt;Era fácil falar com ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estávamos os três meio atolados com tanta gente na biblioteca. Pessoas entravam e saíam. As fichas de cadastro pareciam multiplicar-se sozinhas.&lt;br /&gt;Finalmente tivemos um momento de folga. Começamos a conversar. Me lembrei que este seria o primeiro dia de aula do Lino e comentei com o Zé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;--Hi, coitado! É calouro, é? Vão pintar ele! É dia de trote! - brincou Zé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu que estava sentada entre os dois, sabia que esse tipo de trote não ocorria na Unirio - ao menos não na minha época - mas quis provocar Lino e &lt;em&gt;botei pilha&lt;/em&gt;:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Nossa! É mesmo! Vão pintar ele de &lt;em&gt;rosa-choque&lt;/em&gt;! - e ri debochada - Vai ficar uma "&lt;strong&gt;fofa&lt;/strong&gt;"!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rapaz ficou de todas as cores possíveis, mas vi que estava levando na brincadeira.&lt;br /&gt;De onde estava, ele esticou o braço e segurou o meu próximo ao ombro. Me sacudiu querendo parecer feroz:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Você está querendo insinuar o quê, &lt;em&gt;hein!?&lt;/em&gt; - disse rindo com uma voz pseudo-ameaçadora.&lt;br /&gt;-- Brincadeirinha! Brincadeirinha! - fingi pedir clemência. &lt;em&gt;Caraca! O caladão estava me agarrando...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;-- Cuidado, Alya! Acho que vão pinta ele de &lt;em&gt;verde&lt;/em&gt;! Ele parece o Incrível Hulk! - completou o Zé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ríamos mais ainda...&lt;br /&gt;Não me deixei intimidar. Provoquei mais, falando em como iam ficar o cabelo e as roupas dele. O Zé fazia coro. Eu era uma palhaça mesmo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não sei porque fazer aquilo me deu prazer... Acho que eu queria acabar com aquela fachada calma dele. Ver a superfície borbulhar um pouco...&lt;br /&gt;Me senti motivada com a presença de Zé ali. Sem medo.&lt;br /&gt;Sem dúvida, o Zé foi uma ótima adição ao círculo de minhas amizades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de zoar, controlei os risos e moderei-me tratando de acalmar o rapaz, dizendo a ele o que esperar do trote da Unirio: uma festa patrocinada pelos calouros ou uma "pagação de mico" no pátio, como foi meu caso.&lt;br /&gt;Todos riram bastante enquanto era minha vez de ficar vermelha contando minha cena de amor com a estátua.&lt;br /&gt;Contar o caso fora uma forma também de não constranger Lino... - não que me sentisse obrigada - mas não queria que ele pensasse que eu o provocava por algum motivo obtuso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passamos o dia assim. Rindo e trabalhando.&lt;br /&gt;Já pelo final da tarde, eu me lembrei que teria que voltar para a Urca. Comecei a arrumar minha bolsa.&lt;br /&gt;Lino reconheceu o gesto e começou a juntar suas coisas também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Vamos? - chamou-me enquanto eu levantava.&lt;br /&gt;-- Vai me levar ao ponto final? - quis me certificar.&lt;br /&gt;-- É meu caminho. Não me custa nada... - seus olhos orientais sorriram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquilo me deu um frio no estômago.&lt;br /&gt;Ficaria sozinha com ele. Não absolutamente sozinha, claro. Mas sozinha no sentido de que estaria fora do ambiente de trabalho, na rua, com o rapaz.&lt;br /&gt;Eu não sabia porque ele me fazia me sentir assim...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saimos da biblioteca caminhando lado a lado. O silêncio era algo natural para ele.&lt;br /&gt;Em pouco tempo estávamos andando pelo campus. Os alojamentos ficavam a uma boa distância do IF então paramos no ponto de ônibus para pegar uma conexão interna.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De vez em quando eu fazia um comentário - somente os assuntos seguros: o tempo, a demora do ônibus, o trabalho cansativo do dia... Ele respondia com monosílabos de modo que eu também não falava muito.&lt;br /&gt;Grupos de pessoas se movimentavam aqui e ali, mas no ponto onde paramos não havia ninguém.&lt;br /&gt;Devia ser quase umas cinco horas, mas com o horário de verão, o céu ainda estava claro. &lt;em&gt;Ainda bem...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava meio sem jeito de ficar em pé ali com ele. Me balançava nos calcanhares de vez em quando, correndo os olhos pelo perímetro.&lt;br /&gt;Aquele mesmo sentimento de medo do primeiro dia crescia dentro de mim. Tinha vontade de correr dele.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Ridícula! Para de palhaçada! É mais fácil você atacar esse cara pacato do que ele a ti!&lt;/em&gt; - pensava comigo - E depois ri com a imagem mental de eu pulando no pescoço dele... &lt;em&gt;Ridícula!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu sorriso não passou desapercebido quando olhei para o outro lado, mas o ônibus para o alojamento finalmente chegara.&lt;br /&gt;Ele se adiantou e na porta do ônibus fez uma mesura para que eu entrasse. &lt;em&gt;Hum... Educado.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Sentamos juntos. Tentei não tocá-lo. Mas era difícil. O banco era estreito. Ignorei a situação.&lt;br /&gt;Poucos alunos no ônibus. Mantivemos o mesmo padrão de assunto durante a curta viagem. Em 10 minutos estávamos no ponto final do alojamento.&lt;br /&gt;Ao descer ele se adiantou novamente e me deu a mão para me ajudar a pisar nos degraus da condução. &lt;em&gt;Muito fofo da parte dele&lt;/em&gt; - pensei. Eu não estava acostumada a tanto cavalheirismo. Sempre fiz tudo sozinha...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O campus dos alojamentos era um lugar bastante feio. Chego a dizer, sinistro.&lt;br /&gt;Eram dois prédios de 3 ou 4 andares com cara de anos 70, de cor cinza, um ao lado do outro; um deles destacado, mais próximo à rua.&lt;br /&gt;Nesta endentação entre os prédios havia uma área verde com árvores, plantas, mato e dois banquinhos de cimento com um pequeno jardim mal cuidado entre os dois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Algumas pessoas começavam a se juntar ali na calçada formando uma pequena fila informal. Todos esperando o Urca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Quer sentar-se enquanto espera? - ele apontou os banquinhos solitários adiante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei pra ele. &lt;em&gt;E porque não?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Sem jeito, concordei.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6166509029461223532-241625079803530797?l=agnostha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://agnostha.blogspot.com/feeds/241625079803530797/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6166509029461223532&amp;postID=241625079803530797&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/241625079803530797'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/241625079803530797'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://agnostha.blogspot.com/2010/06/cerbero-parte-1.html' title='Cérbero (Parte 1)'/><author><name>Agnostha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01959666006463231736</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://2.bp.blogspot.com/_CHP_-J93J6o/S1TD3Zrm6JI/AAAAAAAAAAM/AUnSeLWxstk/S220/Ag1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6166509029461223532.post-7146051023595005375</id><published>2010-06-03T19:00:00.000-07:00</published><updated>2011-12-03T19:34:03.777-08:00</updated><title type='text'>Elevador</title><content type='html'>Já estava impaciente. Os cadernos incomodavam.&lt;br /&gt;Porque tinha que ser lá no 35º andar?&lt;br /&gt;Finalmente o elevador chegou. Cheio! &lt;em&gt;Droga!&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Entrei resignada me alojando de lado sob o ventilador do teto. Espremida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Três escriturários, dois boys, três secretárias (duas delas da mesma empresa), dois pacientes para uma consulta, um inquilino e uma universitária - eu. &lt;em&gt;Ótimo! Lotado.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Uma das moças me notou. &lt;em&gt;Que foi? Tô pelada? Não... Jeans, t-shirt e keds. Normal.&lt;/em&gt; - pensei comigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sensação de puxão: subindo.&lt;br /&gt;Os andares passavam rápido. 22, 24, 26... Elevador é um negócio chato mesmo. Não se tem para onde olhar. Falar o quê, se não se conhece ninguém... Ajeitei os cadernos debaixo do braço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A luz piscou, e sentimos o primeiro solavanco. &lt;em&gt;Ai!&lt;/em&gt; Desconfortável. Murmúrios.&lt;br /&gt;Foi quando sentimos o segundo... mais do que desconfortável. Assustou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escutei um barulho longínquo de vários chicotes estalando. Motores rangendo. &lt;em&gt;Perda de tração!? Perigo!.... Escuridão! Puta que pa-&lt;/em&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;AAAAAAHHHH&lt;/span&gt; - Gritou todo mundo enquanto caíamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dois segundos e a luz de emergência se acendeu. O primeiro sistema de segurança entrou em ação e as roldanas travaram. A primeira Lei de Newton foi implacável: todos fomos ao chão! BHAM!&lt;br /&gt;A tal moça caiu por cima de mim. &lt;em&gt;Ai! Doeu!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;O elevador parou. Nos levantamos todos ao mesmo tempo. Agora era o pânico. Um mar revolto dentro de um cubículo. As mulheres gritavam e os homens esmurravam a porta automática.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Socorro!!! Tirem agente daqui!!! Socorro!!! - gritavam todos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em silêncio, me espremi contra a parede no canto. Baixei a cabeça e coloquei os cadernos na frente da barriga para não levar um soco não-intencional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu coração palpitava fortemente mas mantive o controle. Imediatamente, como sempre ocorria em casos extremos, minha mente entrou em modo de auto-preservação. Meus sentidos prontamente vasculhando as possibilidades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sondei as roldanas. &lt;em&gt;Droga!&lt;/em&gt; Não iriam suportar os solavancos agora causados pela movimentação das pessoas dentro do carro. Quanto tempo? &lt;em&gt;Mais 5 segundos!&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Vaguei até o segundo sistema de segurança. &lt;em&gt;Não!&lt;/em&gt; Uma das travas em forma de cunha de um dos lados dos trilhos não suportaria a tração. O carro desaceleraria 30% mas continuaria resoluto até o último sistema de segurança que era o pistão no fundo do fosso....&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Oh!...&lt;/em&gt; Muitas pernas quebradas, braços... uma coluna inutilizada para sempre e dois pescoços... &lt;em&gt;Meu Deus! Não!!!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3 segundos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não vacilei. Olhei pra cima e irrompi através do ventilador de teto jogando cacos para todos os lados! AGNOSTHA!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2 segundos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Voar é fácil... difícil é ficar parada em pleno ar!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Manter a energia vibrando nos "pontos de apoio" - que hoje eu sei que são os chacras - requer mais concentração do que deixar a energia simplesmente fluir num pulso.&lt;br /&gt;Levei um segundo para estabilizar o voo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;...E o carro desceu. &lt;em&gt;Céus!!!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um! Dois andares! 3 m/s e acelerando!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Freio a disco!&lt;/em&gt; - pensei rápido. Planando onde estava, abracei os cabos com força, pressionando-os contra mim. Virei o rosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Iiiiiiiiiiiiiiiiiiirrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr!!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A lei da dinâmica entrou em ação, e o atrito dos cabos friccionados rudemente pelo meu corpo e acelerando pelas roldanas do vagão que descia provocavam faíscas que clareavam todo o fosso.&lt;br /&gt;Meu corpo espelhado duplicava a luz!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Não pense no peso! Não pense no peso!&lt;/em&gt; - gritei mentalmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Iiiiiiiiiiiiiiiirrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr!!&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;O zunido terrível passava pelos meus braços cruzados, peito e pescoço, mãos em garra, ecoando pelo fosso, reverberando pelas paredes.... Era difícil flutuar!&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Iiiiiiiiiiiiiirrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr!!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Que peso!!!&lt;/em&gt; Parecia que segurava uma geladeira por um cabo - &lt;em&gt;Não! Não! Mais leve! Mais leve!&lt;/em&gt; - era o pânico me desconcentrando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tive a ideia e enrosquei as pernas também. Meu abraço de torniquete agora parecia um rapel.&lt;br /&gt;Mais faíscas projetavam-se para todos os lados. Eu trepidava!&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Iiiiiiiiiiiirrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr!!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;O carro já tinha avançado dez andares abaixo. As pessoas gritavam desesperadas lá dentro!&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Iiiiiiiiiiirrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr!!&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Mais um andar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Não!!! Força Agnostha!&lt;/em&gt; - gritava internamente. - &lt;em&gt;Força!!! -&lt;/em&gt; Aquelas luzes me deixavam nervosa!&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Iiiiiiiiiirrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr!!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Outro andar... e mais outro...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O contrapeso passou rangendo por mim... &lt;em&gt;Oh!...&lt;/em&gt; Me contraí mais firmemente em torno dos cabos. &lt;em&gt;Anaconda!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Iiiiiiiiiirrrrrrrrrrrrrrrrrrr!&lt;br /&gt;Uma mochila pesada. Isso! Só uma mochila pesada!&lt;br /&gt;Iiiiiiiiiirrrrrrrrrrrrrrrrr!&lt;br /&gt;Uma mochila pesada! Só uma mochila pesada!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Iiiiiiiiiirrrrrrrrrrrrrr!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Repetia mentalmente até que...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A desaceleração foi brusca, diminuindo também as faíscas.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Iiiiiiirrrrrc!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Funcionou! - &lt;em&gt;Isso! Isso! -&lt;/em&gt; jubilei. - &lt;em&gt;Tração! Equilíbrio enfim!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais uma vez a lei da inércia atuou sobre todos fazendo-os cair sobre eles mesmos - &lt;em&gt;A secretária mais gordinha ia ter que procurar um ortopedista... Ai, minha cabeça! &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;Iiirrc...shhhhhh!&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;O elevador finalmente parou. Tudo turvo ao meu redor. &lt;em&gt;Ufa!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda enroscada nos cabos, exercendo uma pressão enorme sobre eles, olhei para baixo.&lt;br /&gt;De lá alguém olhou pelo buraco que eu deixara. Era o rapaz mais moreno. Estava pálido.&lt;br /&gt;Não havia tempo a perder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O elevador estava quase encaixado ao oitavo andar mas fiquei com medo de tentar erguê-lo, incerta sobre minha força. Seria na base da persuasão então.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Libertei a mão direita dos cabos e me concentrei. A palma da minha mão escura tornou-se prateada. Direcionei-a para o aparato sobre a porta automática do carro do elevador lá embaixo, e lancei uma descarga elétrica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fino raio cruzou o espaço, clareando tudo como um relâmpago, e atingiu o motor que controlava o braço mecânico. Este foi acionado imediatamente abrindo as portas internas do elevador. No mesmo instante, redirecionando a mão e rezando para que o sensor da porta externa fosse ótico, lancei uma onda infravermelha. O feixe de luz invisível aos olhos humanos atingiu o grupo de fendas e as portas externas se abriram quase que simultaneamente com a primeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Projetei minha voz pelo fosso:&lt;br /&gt;-- Saiam!!! - ordenei para o rapaz que ainda me olhava atônito. &lt;em&gt;Duvido que com aquela confusão, ele pudesse entender o que via...&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Apesar do degrau ter dificultado a saída da secretária com o joelho machucado, todos foram breves. Ainda bem... Não aguentaria mais. Relaxei um pouco a pressão nos braços e pernas e o elevador desceu a 60% da velocidade de queda normal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Iiiiiirrrrrrr....&lt;/em&gt; recomeçou o zunido. Ainda assim, ouve algum dano quando o ouvi chegar ao pistão alguns andares abaixo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Suspirei aliviada soltando-me dos cabos. Estava mesmo difícil de manter-me flutuando ali. Voar é sempre mais fácil. Dei uma olhadela rápida no meu corpo agnosto. Sem danos. Foram os cabos que faiscaram, não eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Murmúrios vinham do vão no andar ainda aberto. Mais gente. Comoção.&lt;br /&gt;Ergui a cabeça e senti que a escotilha de reparos, apesar dela estar a muitos metros acima, no topo do prédio, estava fechada apenas com um cadeado... &lt;em&gt;Um estrago a mais um a menos não vai fazer diferença... É melhor eu sair daqui. - pensei.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Foi apenas um pensamento, e já estava em movimento ascendente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Mais rápido!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os andares eram borrões agora. &lt;em&gt;Mais rápido!&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Atravessei a escotilha como se fosse papel-de-seda e ganhei a claridade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Ahhh! O céu azul!!! &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Deixei a velocidade do pensamento dominar meu corpo metálico...&lt;br /&gt;Acordei tranquilamente, com aquela sensação maravilhosa de voo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espreguicei. &lt;em&gt;Puxa! Outra noite animada!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Fui escovar os dentes e tomar meu banho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse tipo de sonho não me assustava - nem me assusta, até hoje. É um tipo de sonho de aventura; onde eu incorporo a personagem e, apesar de reagir conforme o sonho dita, eu me lembro que sou Agnostha. Esse é o tipo de sonho que me deixa forte. Cheia de energia. Preparada! Como se eu pudesse encarar qualquer coisa que viesse pela frente!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vesti-me alegremente para ir para o estágio. Estava feliz por ter realizado um trabalho bem feito naquela noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto tomava meu café, e depois na condução - meus pais não me levavam ao Fundão - eu fiquei rindo do sonho. Que tipo de heroína eu era?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Do tipo "pobre", eu suponho...&lt;/em&gt; - sorri. Se fosse o super-homem, ele pegaria os cabos charmosamente, fazendo aquela pose heróica; baixaria o carro suavemente e deixaria todos a salvo no térreo. Depois, todo mundo iria saudá-lo na recepção do prédio, agradecer a ajuda com "vivas" e "bravos"; e ele voaria elegantemente - saindo pela porta ou uma janela aberta - em direção ao céu azul. "Para o alto e avante!" - Ele diria, voando sob uma nuvem de aplausos entusiasmados!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;K-k-k!&lt;/em&gt; Imagine eu, pendurada feito uma macaca enganchada nos cabos de um elevador! - eu ria da impossibilidade. - &lt;em&gt;Uma macaca!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Algumas pessoas do ônibus me olharam. Tive que controlar o riso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De qualquer forma - só por desencargo de consciência - evitei elevadores ao longo do dia. Quando cheguei ao CT fui direto para as escadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava radiante quando entrei na biblioteca. Minha disposição estava no máximo, ainda reflexo da noite animada.&lt;br /&gt;Dei de cara com o rapaz, Lino, e soltei um "Bom dia!" com todos os dentes.&lt;br /&gt;Ele retribuiu sorrindo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Bom dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Guardei a bolsa e cantarolando, peguei as fichas para trabalhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- E então, como foi seu fim-de-semana? - perguntei a ele enquanto juntava um bolinho delas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Bom. - sua voz calma. - E o seu? - retrucou&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Bom também. - respondi alegre - Vi um filme maneiro neste fim-de-semana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Rocky III? - ele perguntou sarcasticamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.adorocinema.com/filmes/rocky-3"&gt;Rocky III&lt;/a&gt; era um filme dos anos 80, e só porque eu comentara com ele na semana anterior que eu morava do outro lado da ponte, ele estava querendo fazer piada da minha cidade... Ele que tomasse cuidado pois neste tipo de brincadeira - sarcasmo - eu era boa. Poderia irritá-lo, se quisesse. Mas limitei-me:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Ra-rá. - ironizei. - &lt;a href="http://wikimapia.org/8093177/pt/Maria-da-Graça"&gt;Maria da Graça &lt;/a&gt;também não é lá essas coisas, sabia? - era onde ele morava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gostei de ele ter brincado comigo. Se passara uma semana desde aquela segunda-feira estranha do primeiro encontro. A amizade forçada pelo ambiente de trabalho estava ficando agradável afinal. Ainda assim, não me permitia ficar absolutamente a sós com ele. Seu Manoel já estava na salinha de encadernação e Nini Brantes em seu escritório. Eu me sentia aliviada por isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele serrou os lábios para não rir abertamente da minha troça, depois continuou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Que filme você viu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E então começamos a falar sobre cinema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É claro que para cada filme que ele comentava, eu comentava outros quatro... Mas ainda assim foi uma conversa agradável. Tínhamos gostos parecidos. Muitos dos filmes de que gostei ele gostara também. A exceção ficava com os filmes de guerra que ele adorava e que não são meus preferidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A relação com os filmes o fez lembrar de algo e ele comentou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- As vezes tenho sonhos em que sou um Kamikaze.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele disse isso com um sorriso triste. Como quem se desculpava. Eu fui pega totalmente de surpresa pela frase dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Um &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Kamikaze"&gt;Kamikaze&lt;/a&gt;? - repeti interessada e ao mesmo tempo confusa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Àquela altura, estávamos sentados um de frente para o outro muito próximos. &lt;em&gt;Caraca, mesmo sentado ele era tão alto...&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;-- É... Sonho que estou num avião... voando direto para um navio inimigo, atirando nele sem parar. - ele gesticulou como se estivesse segurando num manche - E então eu me choco contra o navio... E morro!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele falou isso sorrindo mas notei que aquilo o incomodava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Acordo todo maluco... Assustado... - balançou as mãos e a cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele parecia querer fazer piada daquilo e eu até ri para encorajá-lo, mas fiquei preocupada com ele. Seria ele como eu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Algumas pessoas podem ter problemas com sonhos deste tipo, sabe? Eles se tornam pesadelos esmagadores se você não encontrar sua força e superar os desafios oníricos.... ou espirituais. &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Puxa... que estranho, né? - foi tudo o que disse. Caraca... Pensei em falar de Agnostha, mas me calei rapidamente. Iria parecer uma ridícula contando meus sonhos. Ainda não havia intimidade para aquilo. &lt;em&gt;Eu queria intimidade?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conversamos mais um pouco saindo daquele assunto e fui confrontar minhas fichas. Ao fim das 4 horas eu tinha que ir. Era meio-dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- É. Semana que vem recomeçam as aulas... Vou ter que vir a tarde então. - comentei enquanto recolhia minhas coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Então você vai conhecer o Zé. - disse ele. - É o novo estagiário da tarde. É um cara legal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Ah, que bom. - respondi, mas tinha outra preocupação em mente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na última reunião, quando conseguimos as passagens para Aracaju, eu e Marconi ficamos sabendo que teríamos que ir a Belo Horizonte antes, em abril, para uma reunião da Comitiva de Estudantes do curso - algo como se fosse uma prévia do encontro propriamente dito. Para isso teríamos que nos reunir as segundas-feiras, e tratar dos detalhes até o evento. Marcamos um encontro com toda a equipe o D.A. em nossa salinha da faculdade às 18h. Mas como voltar à Urca a partir do Fundão naquele horário?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Você pode ir no ônibus que sai daqui da Ilha para a Urca. - respondeu Lino quando formulei a pergunta para ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Sai um ônibus daqui de volta para lá? - aquilo era novidade pra mim. Eu sabia que saia um de lá para cá ao meio-dia, mas ao contrário...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Sim. Ele parte do alojamento e segue viagem até a Urca. Ele sai às 17h. - completou ele - Deve dar tempo de fazer seu estágio e voltar para lá, e é grátis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Hum, gostei. - disse animada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dei-lhe as costas, puxei minha mochila da gaveta e nela guardava minha agenda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Eu vou pegar esse ônibus todos os dias já que terei o início de minhas aulas também. - ouvi Lino comentar quase num sussurro. Olhei pra ele. - Poderia te mostrar o ponto e te fazer companhia.... Se você quiser... - ele ergueu a cabeça e me olhou nos olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquilo espalhou um friozinho desconhecido pelo meu estômago.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Hã... Vai ser legal... - murmurei um pouco desconcertada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Silêncio.&lt;br /&gt;Pisquei um pouco e pendurei a mochila ao ombro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Despedi-me de todos e saí do estágio. Atravessei o campus e fui encontrar a Lili na Geografia. Voltamos juntas para a parada do ônibus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Refeita, conversávamos ao caminhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Você parece animada hoje. - comentou ela sorrindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- É. Acho que estou. - respondi também sorrindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficamos sob a proteção da parada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Como estão as coisas no estágio? E o Lino? Se sente melhor?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu havia comentado com ela, &lt;em&gt;superficialmente&lt;/em&gt;, sobre como me senti em relação ao rapaz que trabalhava comigo. Disse a ela que ele era um cara calmo e quieto - até atraente, de certo modo - mas confessei que ele me dava medo. Acho que era porque ele era tão alto, com aqueles olhos orientais... Os japoneses não costumam ser tão altos, né?... A verdade é que eu não sabia explicar direito o que era...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Ah, sim. - gesticulei - Foi só uma primeira impressão ruim. - menti - O cara é gente boa. - isso era verdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Sei. - respondeu ela secamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pegamos nosso ônibus e fomos para casa.&lt;br /&gt;Falamos sobre as coisas aprendidas no dia, nos amigos e na expectativa de volta às aulas. Eu sabia que o segundo período não seria fácil. Eu teria mais matérias para estudar e a atuação no diretório para gerenciar, além do estágio. As coisas poderiam ficar um pouco confusas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comentei com Lili sobre as reuniões e sobre a brilhante atuação de Marconi na semana anterior para conseguir as passagens. Depois, falando de assuntos mais amenos, comentei sobre cinema e, sem querer, lembrei-me do Lino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Aquele Lino é esquisitão mesmo... - falei sem mais nem menos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Por que? - perguntou ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu já estava arrependida de ter feito o comentário. Tinha lembrado do Kamikaze. Mas aquele sonho não era meu. Eu não tinha o direito de contar aos outros. Eu não contava os meus a ninguém... Por que contaria o dele?&lt;br /&gt;Me sentindo uma fofoqueira, dei uma evasiva:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Ah, por nada... É aquele jeito dele...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Sei. - e fez cara de paisagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu ergui uma sobrancelha pra ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando nos separamos em nossa cidade, voltei a me lembrar do que o rapaz dissera sobre seu sonho reincidente. Será que tínhamos mais em comum do que supunha? ... Sei lá...&lt;br /&gt;Segui meu caminho..&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A tarde descia sobre a cidade, enquanto minha curiosidade subia.... Como um elevador.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6166509029461223532-7146051023595005375?l=agnostha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://agnostha.blogspot.com/feeds/7146051023595005375/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6166509029461223532&amp;postID=7146051023595005375&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/7146051023595005375'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/7146051023595005375'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://agnostha.blogspot.com/2010/05/elevador.html' title='Elevador'/><author><name>Agnostha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01959666006463231736</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://2.bp.blogspot.com/_CHP_-J93J6o/S1TD3Zrm6JI/AAAAAAAAAAM/AUnSeLWxstk/S220/Ag1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6166509029461223532.post-2072508241370062575</id><published>2010-05-25T17:24:00.000-07:00</published><updated>2011-10-17T13:57:25.248-07:00</updated><title type='text'>Ryiuniyana (Parte 5)</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Alguns dizem que a morte nada mais é do que um despertar para uma outra vida. No meu caso, eu senti literalmente isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto meu corpo morria no sonho, eu sentia as formas familiares da minha cama ganharem &lt;span id="SPELLING_ERROR_0" class="blsp-spelling-error"&gt;consistência&lt;/span&gt; sob mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas eu não queria despertar! Eu queria encontrar Prēmī e me empurrei em &lt;span id="SPELLING_ERROR_1" class="blsp-spelling-error"&gt;direção&lt;/span&gt; à inconsciência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sabia, no entanto, que era em vão. Eu já estava sentindo meu corpo deitado de decúbito dorsal, real demais. Mais um segundo e estaria totalmente desperta. Foi quando eu ouvi:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- &lt;span id="SPELLING_ERROR_2" class="blsp-spelling-error"&gt;Gavāhī&lt;/span&gt;?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu coração disparou ao reconhecer a voz suave, e aquilo só me fez ter mais certeza de que já estava acordada. No mesmo instante, senti a mais leve pressão em meus lábios e junto com ela a sensação de uma presença curvada sobre mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A adrenalina se espalhou frenética em minhas veias, mas não abri meus olhos... Deixei-me beijar. Meu Deus! Isso é onírico demais... real demais... Ofeguei. As lágrimas abriram caminho entre minhas pálpebras...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;... E a ilusão se dissipou. Como uma brisa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abri os olhos. Eu estava só.&lt;br /&gt;Um gemido baixo rompeu meu peito enquanto eu me sentava no colchão abraçando meus joelhos. Não consegui segurar o choro. Era irracional, eu sei, mas não consegui. Sabia que não podia fazer barulho. Era de manhã. Minha mãe iria bater em nossa porta em alguns minutos. Minha irmã dormindo na cama ao lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu soluçava baixo com a cabeça apoiada nos joelhos. Sentia-me um tanto ridícula chorando por um sonho... só um sonho.&lt;br /&gt;Respirei fundo, tentando me controlar. Passei as costas das mãos nos olhos e ergui a cabeça. Suspirei. Lembrei do beijo de novo... Tão doce... Tornei a chorar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Mesmo agora, enquanto escrevo estas linhas, não consigo ignorar a dor em meu peito.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sabia que eles haviam partido - &lt;span id="SPELLING_ERROR_3" class="blsp-spelling-error"&gt;Gavāhī&lt;/span&gt; e Prēmī. Em algum lugar, eles se encontraram...&lt;br /&gt;Ao menos era assim que eu queria que fosse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu devia esquecer o beijo. Ele era mais uma das minhas "&lt;span id="SPELLING_ERROR_4" class="blsp-spelling-error"&gt;estranhices&lt;/span&gt; agnósticas"...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até hoje não sei &lt;span id="SPELLING_ERROR_5" class="blsp-spelling-error"&gt;exatamente&lt;/span&gt; qual fora minha conexão com &lt;span id="SPELLING_ERROR_6" class="blsp-spelling-error"&gt;Gavāhī&lt;/span&gt;. Uma antepassada minha? Uma encarnação minha?Hum... Possível, tendo em vista algumas &lt;span id="SPELLING_ERROR_7" class="blsp-spelling-error"&gt;coincidências&lt;/span&gt; que ocorreram depois. Mas não provável... De qualquer modo, naquela hora eu não queria pensar em nada. Mal e mal eu conseguia lidar com meus sentimentos confusos, quem dirá pensar em conexões espirituais...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de tentar ser racional meia dúzia de vezes, consegui enfim, controlar aquela sandice.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando minha mãe abriu a fresta da porta eu já estava de pé procurando &lt;span id="SPELLING_ERROR_8" class="blsp-spelling-error"&gt;mecanicamente&lt;/span&gt; minhas roupas pra sair. Ela sorriu dando "bom dia". Notei que ela viu meus olhos. Deviam estar no mínimo inchados, mas não comentou nada. Ela desceu dizendo que ia pôr o café e que eu acordasse minha irmã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele fim de semana, por &lt;span id="SPELLING_ERROR_9" class="blsp-spelling-error"&gt;coincidência&lt;/span&gt;, eu tinha desmanchado meu namoro com &lt;span id="SPELLING_ERROR_10" class="blsp-spelling-error"&gt;Wendel&lt;/span&gt; - um simpático rapaz que conhecera numa festa de quinze anos três meses antes. Imagino que ela deve ter pensado que meus olhos vermelhos e meu &lt;em&gt;ex&lt;/em&gt; deviam ter alguma relação...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mal sabia ela que eu estava feliz da vida por ter desmanchado. Não feliz por ter causado dor em alguém, veja bem. Aquilo não me agradou. Mas feliz por estar livre de novo. Não havia mesmo química em nosso namoro... Nenhuma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele queria uma coisa... Que eu ainda não estava preparada para dar... - se é que me entendem... - Ele estava ficando impaciente, insistente, irritante. E eu também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele frequentava a casa já fazia um mês, quando resolvi acabar com tudo.&lt;br /&gt;Foi chato. Ele ficava me perguntando o "porquê" e eu não tinha um "porquê" para responder pra ele. Eu não queria o que ele queria e pronto! Me constrangia falar sobre o assunto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando ele, resignado, me deu um beijo de despedida e foi embora, eu senti alívio... E um pouco de tristeza também... Nunca mais procuraria &lt;/span&gt;&lt;a href="http://agnostha.blogspot.com/2009/12/cigana.html"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Cigana&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt; alguma. Droga!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando comecei a namorar com ele no fim da primavera do ano anterior, eu achei que ele poderia ser o tal cara das cartas...&lt;br /&gt;Lêdo engano. Nem de longe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele dia quente de meados de janeiro, segunda de manhã, minha mãe acorda e me pega de olhos vermelhos no quarto. Ela deve ter associado meu estado a algum sentimento de arrependimento ou culpa... Até fazia sentido... De certa forma eu me sentia culpada sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Culpada por &lt;span id="SPELLING_ERROR_11" class="blsp-spelling-corrected"&gt;frustrar&lt;/span&gt; meus pais (de novo); culpada por não me apegar a ninguém; culpada por ser egoísta; não sentir desejo por ninguém; culpada por não saber amar.&lt;br /&gt;Acho que minha noite turbulenta tinha &lt;span id="SPELLING_ERROR_12" class="blsp-spelling-error"&gt;ótimas&lt;/span&gt; explicações, afinal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saí de casa com cara de enterro (sem piada) naquele dia. Um nó fazia menção de se formar em minha garganta sempre que pensava em &lt;span id="SPELLING_ERROR_13" class="blsp-spelling-error"&gt;Gavāhī&lt;/span&gt; e Prēmī. Me incomodava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encarar uma reunião na faculdade foi realmente um &lt;span id="SPELLING_ERROR_14" class="blsp-spelling-error"&gt;porre&lt;/span&gt;... Só não foi pior pois tínhamos conseguido as passagens para &lt;span id="SPELLING_ERROR_15" class="blsp-spelling-error"&gt;Aracaju&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu falo "tínhamos" porque Marconi também estava lá. Ele fora o herói daquele dia - já que naquela mamnhã minha apatia não ia &lt;span id="SPELLING_ERROR_16" class="blsp-spelling-corrected"&gt;conquistar&lt;/span&gt; nem uma passagem de &lt;span id="SPELLING_ERROR_17" class="blsp-spelling-error"&gt;metrô&lt;/span&gt; para a a zona Norte, quem dirá quinze de &lt;span id="SPELLING_ERROR_18" class="blsp-spelling-error"&gt;ônibus&lt;/span&gt; para &lt;span id="SPELLING_ERROR_19" class="blsp-spelling-error"&gt;Aracaju&lt;/span&gt;. Ele fora eloquente e hábil e conseguira o acordo com o reitor. Eu o admirava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vi que ele estranhou um pouco minha quietude, mas não comentou nada. Era mesmo um bom amigo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span id="SPELLING_ERROR_20" class="blsp-spelling-corrected"&gt;Saímos&lt;/span&gt; da reunião felizes com a vitória - eu não tão efusiva...-, nos despedimos com um abraço fraterno e cada um seguiu seu caminho. Ele tinha que ir para o trabalho e eu para meu novo estágio. Pela hora, eu iria ter que adentrar pela tarde para poder pagar as horas que ficara na reunião. Mas tudo bem. Isso iria ocupar minha cabeça. Era o melhor a fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto me dirigia pra lá - de ônibus - eu fiquei me debatendo internamente: porquê estava tão triste e incomodada com o sonho? A&lt;em&gt;final eu tenho sonhos doidos quase todas as noites...&lt;/em&gt;&lt;em&gt; Por que aquele me incomodava tanto?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Só perto da &lt;span id="SPELLING_ERROR_21" class="blsp-spelling-error"&gt;UFRJ&lt;/span&gt; é que eu chegara a uma &lt;span id="SPELLING_ERROR_22" class="blsp-spelling-corrected"&gt;surpreendente&lt;/span&gt; conclusão: estava com inveja de &lt;span id="SPELLING_ERROR_23" class="blsp-spelling-error"&gt;Gavāhī&lt;/span&gt; &lt;span id="SPELLING_ERROR_24" class="blsp-spelling-error"&gt;Dēnā&lt;/span&gt;. Não inveja do destino dela... Não, claro que não. Inveja do que ela tinha com Prēmī.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tá! Tudo bem. Era infantil mesmo. Essa &lt;span id="SPELLING_ERROR_25" class="blsp-spelling-error"&gt;estória&lt;/span&gt; de primeiro amor, amor eterno, e coisa e tal... Eu sei! Mas o que eles tinham era tão lindo e puro e &lt;span id="SPELLING_ERROR_26" class="blsp-spelling-error"&gt;correspondido&lt;/span&gt;... Era amor.&lt;br /&gt;E isso não é banal... Não mesmo. É raro... Muito raro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E tinha a dor. Até a dor eu invejava. Eu sei que parece presunção, mas eu não conseguia me imaginar sofrendo por alguém daquele jeito intenso que ela sofrera pelo garoto - haja vista o que eu fizera ao pobre &lt;span id="SPELLING_ERROR_27" class="blsp-spelling-error"&gt;Wendel&lt;/span&gt;... &lt;span style="font-style: italic;"&gt;No pity!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span id="SPELLING_ERROR_28" class="blsp-spelling-error"&gt;Gavāhī&lt;/span&gt; parecia ser mais humana do que eu. Sofreu por amor como uma humana, morreu por este amor... Eu era mais uma andróide mesmo. &lt;span id="SPELLING_ERROR_29" class="blsp-spelling-error"&gt;Agnostha&lt;/span&gt;. Vivia para fazer meu trabalho: analisar, aprender, &lt;span id="SPELLING_ERROR_30" class="blsp-spelling-error"&gt;planejar&lt;/span&gt;, sintetizar, corrigir, agir, organizar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo meu relacionamento com outras pessoas era muito superficial. Tinha sorte de conseguir manter algumas amizades antigas... Não que eu fosse uma insensível. Não, acho que não. É claro que eu já tinha me apaixonado antes, na &lt;span id="SPELLING_ERROR_33" class="blsp-spelling-error"&gt;adolescência&lt;/span&gt;. Mas eu, mesmo adolescente, sabia que era passageiro. Curtia o momento. Era moda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de moça eu levantara as barreiras: namoro só para ocupar o tempo! Eu tinha meus objetivos! Queria conquistar independência! Viva as barreiras! Nada seria tão forte para derrubá-las... A não ser um amor como aquele, e eu, certamente, nunca iria encontrar algo como aquilo... Nem ao menos similar... Eu sabia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi com este espírito que cheguei à biblioteca naquele dia e dei de cara com aquele rapaz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No instante em que nossos olhos se cruzaram eu senti um arrepio correr por minha espinha e a sensação de estar estranhamente desconfortável... Vulnerável...&lt;br /&gt;Medo. Só podia ser medo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois do estágio, lá pela &lt;span id="SPELLING_ERROR_34" class="blsp-spelling-error"&gt;tardinha&lt;/span&gt;, enquanto voltava pra casa, até estava rindo comigo mesma. Coitado do rapaz! Deve ter me achado uma maluca! Bipolar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Primeiro pareço um bicho &lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;" id="SPELLING_ERROR_35" class="blsp-spelling-error"&gt;acuado&lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;, e depois, uma tagarela!&lt;/span&gt; - ria olhando pela janela do &lt;span id="SPELLING_ERROR_36" class="blsp-spelling-error"&gt;ônibus&lt;/span&gt; - &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Maluca mesmo...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sol brilhava alaranjado no horizonte daquele entardecer de verão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-------------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje, vejo como foi estranho o como - de certa forma - aquele sonho se realizou, com seus &lt;span id="SPELLING_ERROR_37" class="blsp-spelling-corrected"&gt;desdobramentos&lt;/span&gt; até bem recentes - tendo em vista a cicatriz em meu pulmão... E pensar que tudo começou naquele dia... Quer saber mais?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://agnostha.blogspot.com/2010/05/elevador.html"&gt;(Continua)&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6166509029461223532-2072508241370062575?l=agnostha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://agnostha.blogspot.com/feeds/2072508241370062575/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6166509029461223532&amp;postID=2072508241370062575&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/2072508241370062575'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/2072508241370062575'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://agnostha.blogspot.com/2010/05/ryiuniyana-parte-5.html' title='Ryiuniyana (Parte 5)'/><author><name>Agnostha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01959666006463231736</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://2.bp.blogspot.com/_CHP_-J93J6o/S1TD3Zrm6JI/AAAAAAAAAAM/AUnSeLWxstk/S220/Ag1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6166509029461223532.post-7041109585289602776</id><published>2010-05-13T18:27:00.000-07:00</published><updated>2011-10-17T12:52:38.798-07:00</updated><title type='text'>Ryiuniyana (Parte 4)</title><content type='html'>A emoção de ver meus pais ali, na entrada da cela olhando para cima, me vendo naquela situação, minou minhas forças...&lt;br /&gt;Sorri-lhes... E em seguida apaguei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava pairando junto ao &lt;span id="SPELLING_ERROR_0" class="blsp-spelling-error"&gt;teto&lt;/span&gt; de uma casa - não há outra explicação - quando recobrei o controle.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era um quarto. Havia uma janela mais alta que larga onde a luz da manhã entrava filtrada por uma cortina fininha azul. Num dos cantos havia um pequeno altar com uma estátua sobre ele, ao estilo indiano. A seus pés haviam pratos com frutas, incenso, e velas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sinceramente, o quarto não me interessava muito... Eu queria saber o que ainda fazia ali. Quanto tempo havia se passado? Perdi tal noção - como se isso fosse possível num sonho...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei para baixo e vi um corpo no que parecia ser uma cama.&lt;br /&gt;A moça estava de bruços - seu rosto quase infantil apoiado de lado sobre algo fofo, os olhos fechados e os cabelos compridos espalhados como algas escorrendo pelo outro lado. Estava coberta até o pescoço por um lençol de cor laranja com estampas vermelhas... Rosas vermelhas? Era &lt;span id="SPELLING_ERROR_1" class="blsp-spelling-error"&gt;Gavāhī&lt;/span&gt; &lt;span id="SPELLING_ERROR_2" class="blsp-spelling-error"&gt;Dēnā&lt;/span&gt;, provavelmente em seu leito de morte, pensei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei triste... Lembrei que &lt;span id="SPELLING_ERROR_3" class="blsp-spelling-error"&gt;Gavāhī&lt;/span&gt; havia prometido esperar por Prēmī. Já estaria ela morta?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como se meu pensamento tivesse sido gritado, vi quando o olho que não estava sobre o travesseiro se abriu inicialmente sem foco, mas depois girou na órbita e olhou de soslaio pra mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi como um tiro!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num &lt;span id="SPELLING_ERROR_4" class="blsp-spelling-error"&gt;átimo&lt;/span&gt; - sem nenhuma decisão consciente minha - estava eu voando para fora da casa!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi tudo muito rápido - como num passeio de fórmula 1 - vi algumas casas caiadas de branco, pessoas passando, animais num mercado... e o templo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Avancei pelas colunas e num segundo minha visão percebeu o corredor seguido pelo quarto ricamente decorado. No segundo seguinte percebi o barulho da briga. Em algum lugar meu coração palpitou com a voz conhecida: era Prēmī discutindo com sua mãe dentro do quarto!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu cheguei já no meio da discussão. Seria eu o assunto? Angústia.&lt;br /&gt;Ele estava de pé gesticulando muito, e parecia zangado. Ela, também de pé, bradava os braços no ar, nervosa, a fisionomia dura. Era &lt;span id="SPELLING_ERROR_5" class="blsp-spelling-corrected"&gt;óbvio&lt;/span&gt; que eles não me viam... o que me angustiava mais!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava confusa e não conseguia entender o que diziam... Eu não conseguia me concentrar... a atmosfera estava muito pesada. Lutei um pouco com meus ouvidos... Finalmente, como se alguém apertasse a tecla &lt;span id="SPELLING_ERROR_6" class="blsp-spelling-error"&gt;SAP&lt;/span&gt;, eu comecei a entender:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- A senhora nunca se importou realmente com meus sentimentos, mãe! - falou ele &lt;span id="SPELLING_ERROR_7" class="blsp-spelling-error"&gt;transparecendo&lt;/span&gt; seu pesar.&lt;br /&gt;-- Que sentimentos, &lt;span id="SPELLING_ERROR_8" class="blsp-spelling-error"&gt;Ātmaghātī&lt;/span&gt;!? Que sentimentos? U&lt;span id="SPELLING_ERROR_9" class="blsp-spelling-error"&gt;h!&lt;/span&gt;? - exaltou-se ela - Isso que você tem por aquela &lt;span id="SPELLING_ERROR_10" class="blsp-spelling-error"&gt;mandira&lt;/span&gt; é simplesmente desejo! Desejo! - ela continuou numa torrente - Você inveja &lt;span id="SPELLING_ERROR_11" class="blsp-spelling-error"&gt;Krūra&lt;/span&gt; &lt;span id="SPELLING_ERROR_12" class="blsp-spelling-error"&gt;Ādamī&lt;/span&gt;! Roubou-lhe a noiva! - girou os olhos à hipérbole - Meus deuses! Você me envergonha! - a mão na testa. Dramática.&lt;br /&gt;-- Não é verdade! - ele exaltou-se também - Não estou brincando com ela, mãe! Eu vou tomá-la por esposa! - deu um passo duro a frente, apontava - A senhora verá! Ficaremos juntos! - o tom agora era ameaçador.&lt;br /&gt;-- Nunca! - o dedo em riste cortou o ar, e franzindo o &lt;span id="SPELLING_ERROR_13" class="blsp-spelling-error"&gt;cenho&lt;/span&gt; continuou - Não criei você sem seu pai para isto! Tenho coisa melhor para ti! - ela bufou.&lt;br /&gt;--&lt;span id="SPELLING_ERROR_14" class="blsp-spelling-error"&gt;Humf&lt;/span&gt;! "Coisa melhor" pra mim? - perguntou Prēmī sarcasticamente - ... Ou melhor para sua linhagem real? - cruzou os braços zangado.&lt;br /&gt;--Chega, &lt;span id="SPELLING_ERROR_15" class="blsp-spelling-error"&gt;Ātmaghātī&lt;/span&gt;! Você não fica com ela! - balançou a mão para ele e deu-lhe as costas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pausaram. Ambos ruminando as palavras ditas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Além disso... - retomou ela, mas dessa vez cuidadosa - Além disso... - baixou o tom - ... &lt;span id="SPELLING_ERROR_16" class="blsp-spelling-error"&gt;Krūra&lt;/span&gt; está com ela...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Confusão no ar. Silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela soltou um longo suspiro, daqueles audíveis, e puxando um pouco a saia, virou-se e sentou na cama. &lt;span id="SPELLING_ERROR_17" class="blsp-spelling-error"&gt;Garva&lt;/span&gt; &lt;span id="SPELLING_ERROR_18" class="blsp-spelling-error"&gt;Mām&lt;/span&gt; notou que agora não poderia recuar, respirou fundo e não encarou seu filho ao continuar:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Ele exerceu o direito de castigá-la, Prēmī... Para limpar sua honra...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span id="SPELLING_ERROR_19" class="blsp-spelling-error"&gt;Ātmaghātī&lt;/span&gt; Prēmī congelou onde estava. Seu rosto tingido de surpresa e terror.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- C-Como é? - perguntou num suspiro.&lt;br /&gt;-- Ele... Ele a levou para a masmorra... - agora ela parecia arrependida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vendo que Prēmī a encarava &lt;span id="SPELLING_ERROR_20" class="blsp-spelling-error"&gt;acusadoramente&lt;/span&gt; ela continuou, defensiva:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Eu não pude fazer nada, Prēmī! Ela era a noiva dele! - gesticulou - Eu não sei o que ele fez com ela... Acho que &lt;em&gt;corpo&lt;/em&gt; dela não está mais lá! ... Os pais a levaram...- ela falou de uma só vez como quem se desculpava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Prēmī ainda estava de pé no centro do quarto. Sua respiração estava cortada.&lt;br /&gt;Senti que a &lt;span id="SPELLING_ERROR_21" class="blsp-spelling-corrected"&gt;palavra&lt;/span&gt; "corpo" reverberou nele. Seus olhos pareciam alucinados. Acusação.  &lt;span id="SPELLING_ERROR_22" class="blsp-spelling-corrected"&gt;Frustração&lt;/span&gt;. Dor. Raiva. Vi tudo passar por eles. Imaginei que Prēmī voaria no pescoço dela!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, lentamente, vi sua luz se apagar. Os olhos &lt;span id="SPELLING_ERROR_23" class="blsp-spelling-error"&gt;desfocados&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;Ele baixou a cabeça e vi duas pequenas estrelas d'água aparecerem no chão aos seus pés. Sei que sentia dor. Os punhos fechados agora estavam travados ao longo do corpo. Ele estava tentando se controlar... - Aquilo me dilacerava...Ver meu amado sofrendo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na cama, &lt;span id="SPELLING_ERROR_24" class="blsp-spelling-error"&gt;Garva&lt;/span&gt; estava tensa. Virou o rosto ocultando suas feições. Pensei ter notado algo em seu rosto antes dela se virar. Estava arrependida? Arrependida de quê? De não ter me ajudado? Ou de ter contado meu paradeiro ao filho?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela tornou a olhar e notei a &lt;span id="SPELLING_ERROR_25" class="blsp-spelling-corrected"&gt;humidade&lt;/span&gt; em seus olhos. Vendo que ele parecia estar em choque, ela continuou num tom maternal:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Prēmī... Por favor... Eu só quero seu bem... Você tem que esquecê-la...- ela esforçava-se para modular a voz que parecia querer embargar - Prēmī? - chamou ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele não reagiu. Ela forçou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Prēmī... Eu não decidi nada! &lt;span id="SPELLING_ERROR_26" class="blsp-spelling-error"&gt;Krūra&lt;/span&gt; &lt;span id="SPELLING_ERROR_27" class="blsp-spelling-error"&gt;Ādamī&lt;/span&gt;...&lt;br /&gt;-- Você &lt;em&gt;me&lt;/em&gt; matou... - cortou Prēmī suavemente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Surpresa, ela encarou o rosto dele. Incrédula. O &lt;span id="SPELLING_ERROR_28" class="blsp-spelling-error"&gt;cenho&lt;/span&gt; se franziu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;-- Como é que é?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele levantou a cabeça lentamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não havia nada lá, nenhuma emoção. Nem tristeza, nem dor, nem raiva. Nada. Só os olhos vermelhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Você me matou... &lt;em&gt;Vocês&lt;/em&gt; me mataram. - e aquela calma de sua voz trazia algo diferente. Decisão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vi a compreensão horrorizar o rosto de &lt;span id="SPELLING_ERROR_29" class="blsp-spelling-error"&gt;Garva&lt;/span&gt; &lt;span id="SPELLING_ERROR_30" class="blsp-spelling-error"&gt;Mām&lt;/span&gt; e me horrorizei também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- &lt;span id="SPELLING_ERROR_31" class="blsp-spelling-error"&gt;Ātmaghātī&lt;/span&gt; !!! EM QUE VOCÊ ESTÁ...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela estendeu os braços levantando-se para segurá-lo, mas já era tarde!&lt;br /&gt;Ele já tinha se virado e saído do aposento a passos duros, rápidos e decididos, deixando-a no vazio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me desesperei!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"O que você disse a ele!? Que eu morri!?" - gritei sem voz. Meu peito me oprimia. O que ele irá fazer? - "Vá atrás dele, sua burra! Vai! Não deixa ele ir!!! Vai!!!" - bradei angustiada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ninguém me ouviu. Ela fitava o vazio.&lt;br /&gt;Avancei sobre ela e gritei de novo: "Vá atrás dele!!! Agora!!!"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No momento seguinte ela ruiu sobre os próprios joelhos e caindo no chão começou a chorar alto e convulsivamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desesperança.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span id="SPELLING_ERROR_32" class="blsp-spelling-error"&gt;Argh&lt;/span&gt;! Orgulhosa! &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não fiquei ali. Perdi a paciência! Ela que se entendesse com sua dor...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu - literalmente - voei atrás de Prēmī. Minha cabeça a mil!&lt;br /&gt;Eu já não sabia quem eu era. Se era eu, &lt;span id="SPELLING_ERROR_33" class="blsp-spelling-error"&gt;Alya&lt;/span&gt;, se era eu, &lt;span id="SPELLING_ERROR_34" class="blsp-spelling-error"&gt;Gavāhī&lt;/span&gt;. Pouco importava! Eu só sabia é que eu não queria que meu primeiro e único amor fizesse uma besteira por minha causa! E voei mais rápido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os corredores passavam por mim, o templo era grande. Não conseguia localizar-me. Droga!&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Ele deve ter descido para o pátio interno, aonde os homens treinam&lt;/em&gt; - concluí... Ou me foi dito. - Sim, sim! - sem tempo para discussão mental agora. E voei apressada para lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A claridade me alcançou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia uma roda de guerreiros &lt;span id="SPELLING_ERROR_35" class="blsp-spelling-error"&gt;atônitos&lt;/span&gt;. &lt;span id="SPELLING_ERROR_36" class="blsp-spelling-error"&gt;Ātmaghātī&lt;/span&gt; Prēmī estava no centro da roda frente a frente com &lt;span id="SPELLING_ERROR_37" class="blsp-spelling-error"&gt;Krūra&lt;/span&gt; &lt;span id="SPELLING_ERROR_38" class="blsp-spelling-error"&gt;Ādamī&lt;/span&gt;. Ambos em posição de luta. Eles pareciam discutir. Voei em &lt;span id="SPELLING_ERROR_39" class="blsp-spelling-error"&gt;direção&lt;/span&gt; à aglomeração com toda a &lt;span id="SPELLING_ERROR_40" class="blsp-spelling-corrected"&gt;velocidade. Como iria parar aquilo?&lt;/span&gt;... &lt;em&gt;Meu Deus! Não!!!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A imagem virou um borrão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- &lt;span style="font-style: italic;" id="SPELLING_ERROR_41" class="blsp-spelling-error"&gt;Argh&lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;!!!&lt;/span&gt; - gritei contra minha vontade quando minha mãe passou o &lt;span id="SPELLING_ERROR_42" class="blsp-spelling-error"&gt;unguento&lt;/span&gt; em minhas costas. - Não!!! - minha mão segurou o punho dela com força, o movimento fez doer minhas costas, e ela deixou cair o vasilhame do remédio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Droga! Estava no meu quarto na casa de meus pais! Há quanto tempo? Não podia perder um segundo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Mãe... Mãe! Por favor, me escute! - arfei. Estava difícil falar. Não largava seu punho - Prēmī! ... No templo! Por favor! - estava desesperada. A voz pesava-me. Eu fazia um esforço sobre-humano - Por favor, Mãe... No templo! Por favor... - agonizava. - Temos que ir... !&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha mãe se assustou, puxou a mão e levantou-se ressaltada. Gritou pelo meu pai.&lt;br /&gt;Ele entrou correndo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha voz era pouco mais que um sopro, mas eu continuei gritando. Tinha que fazê-los entender... As palavras embolavam em minha boca. Pesadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Pai...! - ar, ar - Prēmī! ... No templo! - inspirei. - Por favor!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda estava de bruços o que dificultava a passagem do ar pela minha garganta. Tentei me virar.&lt;br /&gt;Eles me seguraram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- É a febre! Ela está delirando! O que faremos!? - minha mãe parecia desesperada também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu pai dobrou os joelhos ao lado da cama:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Minha filha... Calma! - havia embargo e nervosismo em sua voz - Calma!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não tinha mais tempo! Apoiei o cotovelo esquerdo erguendo-me um pouco - doeu - com o braço livre agarrei a roupa dele na garganta. Puxei para perto os milímetros que pude:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- &lt;em&gt;Vão. Matar. Prēmī!!!&lt;/em&gt; - falei séria e olhei bem dentro dos olhos negros dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não sei o que ele viu mas sua feição mudou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu o soltei... e caí de novo sobre a cama. Exausta.&lt;br /&gt;Sem me dizer nada, ele levantou-se, olhou para minha mãe:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Eu já volto. - e saiu apressado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha mãe parecia triste enquanto se abaixava ao meu lado. Inclinou a cabeça e passou a mão em meus cabelos. Sei que ela era bonita... Toda mãe amorosa é.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tomei um longo fôlego... Me acalmei, resignada. Tinha que esperar.&lt;br /&gt;Tentei focar o rosto da mulher ao meu lado mas não conseguia. Eu queria confortá-la. Dizer que estava tudo bem comigo. Mas não encontrei minha voz... Na verdade, eu não encontrei meu corpo. Já não sentia mais nada. Meu corpo entorpecera. Era difícil manter-me acordada no sonho... - que loucura... Mas é a mais pura verdade... Eu queria ficar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de olhar meu corpo com um vinco na testa, minha mãe levantou-se e puxou o lençol que me cobria. Ela gemeu alto ao fitar as estampas vermelhas ... Ah! Entendi... Não eram rosas afinal... Ela chamou mais alguém, um criado, acho, que àquela altura eu já não sabia se era homem ou mulher. Eles, com muito jeito, me viraram de decúbito dorsal. Eu não senti nada.&lt;br /&gt;A outra pessoa se retirou e ela trouxe um lençol limpo e me cobriu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei para o &lt;span id="SPELLING_ERROR_43" class="blsp-spelling-error"&gt;teto&lt;/span&gt;. Para mim já não fazia diferença... Eu só precisava saber o que acontecera com Prēmī... Quanto tempo? Eu já não tinha mesmo tal noção...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ar entrava e saia &lt;span id="SPELLING_ERROR_44" class="blsp-spelling-corrected"&gt;mecanicamente&lt;/span&gt; de meus pulmões. Meu corpo parecia tremer, mas eu não sentia nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois comecei a sentir como se meu corpo estivesse mergulhado em água. Era uma sensação boa, mas eu sabia que estava me perdendo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei para minha mãe que ainda estava sentada ao lado do meu leito. Eu queria dizer a ela que não conseguiria continuar ali - Eu tinha que ir... - mas me segurei porque neste momento meu pai entrou no quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei para ele com ansiedade. Ele parecia soturno e concluí que a notícia não era das melhores. Meus olhos se arregalaram e queria gritar para que ele falasse logo, mas não encontrei minha voz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha mãe olhou com significado para meu pai e cedeu-lhe o lugar ao lado da cama. Ela soluçava, mas abafava o som com as mãos. Ele sentou-se, e pesaroso, pegou minha mão que jazia em algum lugar. Começou a acariciá-la. Eu não senti o toque.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;--Filha... - começou ele hesitante - &lt;span id="SPELLING_ERROR_46" class="blsp-spelling-error"&gt;Ātmaghātī&lt;/span&gt; Prēmī... - levantou a cabeça e me olhou nos olhos - Prēmī está morto... - concluiu amargo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um nó se formou em minha garganta e começou a transbordar pelos olhos mas eu não disse nada. Ele continuou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Ele... Ele encontrou &lt;span id="SPELLING_ERROR_47" class="blsp-spelling-error"&gt;Krūra&lt;/span&gt; &lt;span id="SPELLING_ERROR_48" class="blsp-spelling-error"&gt;Ādamī&lt;/span&gt; no pátio e o pediu que ele lhe desse o mesmo destino que foi dado a ti... - sua voz era grossa pelo embargo -... Ele pediu... E &lt;span id="SPELLING_ERROR_49" class="blsp-spelling-error"&gt;Krūra&lt;/span&gt; aceitou...! - balançou a cabeça - Eles o penduraram... - sua voz falhou na palavra - ... penduraram como o costume... Mas ele teve um &lt;span id="SPELLING_ERROR_50" class="blsp-spelling-error"&gt;sangramento&lt;/span&gt; muito forte... Não parou...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hemorragia, eu pensei. &lt;span id="SPELLING_ERROR_51" class="blsp-spelling-error"&gt;Alya&lt;/span&gt; pensou. Meu pai continuou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Ele pronunciou seu nome... - agora as lágrimas escorriam por sua face -... e fechou os olhos... Não abriu mais... - meu pai baixou a cabeça. - Tiraram-no de lá. Mas já era tarde...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um choque &lt;span id="SPELLING_ERROR_52" class="blsp-spelling-error"&gt;anafilático&lt;/span&gt;, eu sabia. &lt;span id="SPELLING_ERROR_53" class="blsp-spelling-error"&gt;Alya&lt;/span&gt; sabia.&lt;br /&gt;Ele concluiu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- &lt;span id="SPELLING_ERROR_54" class="blsp-spelling-error"&gt;Garva&lt;/span&gt; está &lt;span id="SPELLING_ERROR_55" class="blsp-spelling-error"&gt;inconsolável&lt;/span&gt;... &lt;span id="SPELLING_ERROR_56" class="blsp-spelling-error"&gt;Krūra&lt;/span&gt; foi repudiado por &lt;span id="SPELLING_ERROR_57" class="blsp-spelling-error"&gt;Vacta&lt;/span&gt;... - apertou minha mão - Eu sinto muito... Muito, minha filha!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era informação demais... Eu encarava o &lt;span id="SPELLING_ERROR_58" class="blsp-spelling-error"&gt;teto&lt;/span&gt; agora.&lt;br /&gt;Acho que entrei em choque porque meu corpo parou de tremer e minha respiração se acalmou. Só as lágrimas pareciam &lt;span id="SPELLING_ERROR_59" class="blsp-spelling-error"&gt;refletir&lt;/span&gt; meu estado de espírito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não gostei do que ele fez. Por que acabar com a vida por escolha própria? Eu não tive escolha. Ele tinha. Idiota! Eu não merecia tal sacrifício... Como ele pôde?... Como ele pôde?... Ele fez isso pra ficar &lt;em&gt;comigo&lt;/em&gt;? Ah, meu amor! Eu teria te esperado... Esperado por toda a eternidade! Não precisava se apressar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pensamento de que ele - que estava atrasado - agora estava adiantado, me fez sorrir...&lt;br /&gt;Ele já estava lá... - seja lá onde "lá" for - ... e me esperava!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei para meus pais ainda sorrindo. Os dois ao meu lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Estou pronta. - disse suavemente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha mãe não suportou mais. As lágrimas caíam. Meu pai se &lt;span id="SPELLING_ERROR_60" class="blsp-spelling-corrected"&gt;levantou&lt;/span&gt; e acolheu a face dela no ombro dele, confortando-a.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sensação de água que sentia banhar meu corpo alcançou meu rosto... Eu estava imersa...&lt;br /&gt;Não tive medo. Olhei para eles como quem se desculpa. Eles me olharam carinhosamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Não chorem...- usei o último ar que tinha - Eu...vou...ver... Prēmī...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E fechei os olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://agnostha.blogspot.com/2010/05/ryiuniyana-parte-5.html"&gt;(Continua)&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6166509029461223532-7041109585289602776?l=agnostha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://agnostha.blogspot.com/feeds/7041109585289602776/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6166509029461223532&amp;postID=7041109585289602776&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/7041109585289602776'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/7041109585289602776'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://agnostha.blogspot.com/2010/05/ryiuniyana-parte-4.html' title='Ryiuniyana (Parte 4)'/><author><name>Agnostha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01959666006463231736</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://2.bp.blogspot.com/_CHP_-J93J6o/S1TD3Zrm6JI/AAAAAAAAAAM/AUnSeLWxstk/S220/Ag1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6166509029461223532.post-3387206373160645044</id><published>2010-05-05T19:24:00.001-07:00</published><updated>2011-10-17T11:32:14.065-07:00</updated><title type='text'>Riyuniyana (Parte 3)</title><content type='html'>Controlei o nó na garganta e me apressei.&lt;br /&gt;Corri para colocar as frutas aos pés da deusa, derramei mais óleo nas lâmpadas, recolhi as toalhas e fiz a reverência final.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois corri para o cubículo e troquei a roupa ritual pelas minhas. Tirei o ōpī, soltei o coque e deixei minhas longas tranças caírem pelas minhas costas. Lavei o rosto e segui para minha célula. Muita pressa, muita pressa... Teriam notado minha ausência?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O corredor dos quartos estava tremulante com a luz das tochas e por isso não reparei que também havia luz em meu quarto. Mal entrei e alguém segurou meus cabelos enroscando minha trança em seus dedos até minha nuca com muita força. Num mesmo movimento, puxaram minha cabeça para trás e para baixo, fazendo-me cair de joelhos. Doeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Soltei um grito curto e engasgado como uma exclamação. Minha reação instintiva foi a de tentar alcançar a mão que me segurava e ergui os braços. Me deram um solavanco e gemi alto. "Fique parada", entendi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comecei a arfar. Demorou um pouco para compor o cenário à minha volta. A adrenalina gelava meu sangue.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente meu ponto de vista girou e eu estava no canto oposto do quarto.&lt;br /&gt;Gavāhī Dēnā estava prostrada na entrada do aposento sob o julgo de um homem alto e forte que inclinado atrás dela, a imobilizava pelos cabelos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque não pude avisá-la do perigo? Eu tinha visto um movimento no salão... Droga!... Concluí tardiamente que a Alya que observava e a Gavāhī que vivia a situação não compartilhavam as visões...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Haviam mais dois homens de pé no quarto. Um ao lado esquerdo e outro de frente para ela, de costas pra mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não era preciso muita imaginação para ver que aquele que segurava seus cabelos e o que estava ao lado esquerdo eram soldados/guerreiros. As mesmas calças bufantes...&lt;br /&gt;Mas o homem que estava de pé, de costas para mim, era distinto. Era alto e musculoso como um halterofilista. Eu só via suas costas largas e nuas, com uma trança comprida ao longo das vértebras. Ele encarava Gavāhī. Estava tenso. Tinha seus punhos fechados, uma postura rija e imposta, avultando-se sobre ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No lado direito do quarto, no canto mais escuro, estava Garva Mām que, ao que parecia, estava sentada à beira da cama da moça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi um momento muito confuso pra mim.&lt;br /&gt;Meu ponto de vista se alternava entre os olhos que viam a cena e os olhos que sofriam o bote.&lt;br /&gt;Olhei para a frente e vi os olhos apertados de Krūra Ādamī, sua testa franzida, seu queixo rijo. Ele era um homem másculo... quase bonito... Mas ali era o rosto de uma fera. Meu algoz...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei como pude para o lado e vi a face insultada de Garva Mām... Toda a nossa amizade perdida...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Garva... - gemi, meus olhos se enchendo d'água - Eu posso explicar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pra quê tentar fugir ou dissimular o assunto? Eu já sabia o que eles tinham visto...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Cale-se! - ela gritou comigo e seu grito repercutiu no meu peito. Solucei ao calar - Quem você pensa que é!? - ela franziu a testa e a boca como se estivesse com nojo. Virou o rosto.&lt;br /&gt;-- Garva... - tentei de novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem terminei. O tapa me calou dessa vez. Meu rosto queimou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Falsa! - gritou Krūra Ādamī, sua mão ainda pairando no ar. - Como pôde me envergonhar desse jeito!? - havia dor nos olhos dele... e raiva, muita raiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele gritou uma rajada de palavras que sob qualquer língua que fosse aquela que eu estava ouvindo eram, com certeza, insultos e palavrões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele era um homem a ser respeitado! Um guardião do templo! Um líder ! Um semideus! Como ela ousou pôr por terra a honra que ele a legara quando fez dela sua noiva? Mulher desprezível!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele continuou falando e falando... Me senti confusa... Não entendia tudo... Ele estava muito alterado. Gavāhī Dēnā ouvia a tudo entre lágrimas, fechando os olhos e mordendo os lábios. Perdida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após a explosão, Krūra silenciou, respirou fundo e se endireitou. Ele olhou para Garva Mām - talvez esperando uma outra manifestação dela. Ela estava impassível. Fria e distante. Provavelmente ruminando o fato. Havia um brilho vacilante em seus olhos. Chorava?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Krūra Ādamī não esperou mais nada. Ele franziu o cenho e seus olhos pareciam opacos. Estava pensando. Hum... Mau sinal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha cabeça doía devido a posição.&lt;br /&gt;De repente Krūra se abaixou e segurou meu maxilar com força fazendo-me olhar diretamente para seu rosto.... Eu vi a decisão em seus olhos... e era a morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Você será um exemplo para esta vila... - falou calmamente entre dentes... e lá estava minha sentença.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Garva Mām não disse nada. Fitava a moça com ar superior, querendo mostrar a ela de quem era o erro. Ela sentia-se enganada, iludida, desafiada e desonrada. Como pôde acolher uma cobra naja num templo sagrado? Ainda assim, não queria sujar suas mãos com aquela criança... O noivo que fizesse o que achasse ideal para limpar seus nomes. Ela mesma só iria ter uma conversa com Ātmaghātī Prēmī mais tarde, quando ele voltasse do campo. Certamente que ele seria repreendido. Ela deveria parecer severa. Onde já se viu? Alguém da estirpe dele portar-se como um ladrão de mulheres!?... E justo uma mandira noiva! Humpf!&lt;br /&gt;Ela teria que casá-lo logo, o mais rápido possível, para que isso não ocorresse de novo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Chega!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Me forcei a acordar.&lt;br /&gt;Não aguentaria mais daquela torrente de informações!&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Já não me bastava estar na cabeça da moça e agora estava na cabeça da mãe também!?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Eu já tinha visto o suficiente! A moça morre e pronto! Já chega!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rolei na cama e senti o travesseiro sob meu rosto... Mais um pouco...&lt;em&gt; - Anda! Acorde!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como se estivesse sendo abduzida pelo sono, meu corpo se entorpeceu novamente, sem sequer me deixar acordar de verdade. Meus olhos rolaram em suas órbitas e quando os abri eu estava num ambiente escuro.&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Onde?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei em volta e vi que estava encarcerada.&lt;br /&gt;A luz tênue que vinha da fresta da porta fechada atrás de mim e o ar frio e parado só me deixavam perceber que eu estava num espaço amplo mas sem janelas. Haviam peças metálicas no chão e juro  que na hora pensei que estivesse vendo peças de obra de arte... Que estivesse num depósito... Mas não. Era ferro retorcido... Grilhões?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltei-me para a parede mais próxima de mim e ela tinha... Espetos? Não. Garras?... Não... anzóis... É!Ganchos!... Isso! Anzóis de ferro. Toda a parede coberta de anzóis bem próximos uns dos outros... Mas pra quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apertei mais meus "olhos" e foi quando percebi os filetes escuros, como códigos de barras sinistros, marcados na parede... Acompanhando o traçado, olhei para cima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu quis gritar!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A moça, Gavāhī Dēnā, estava pendurada na parede! Como um espantalho... Um espantalho humano - os cotovelos erguidos, os braços pendendo, a cabeça inclinada...&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Meu Deus! &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Eu estava horrorizada! Ela estava içada pelos anzóis... Nas costas, nos braços... Estes estavam fincados em suas carnes como piercings do terror!&lt;br /&gt;Não dava para ver os detalhes - estava escuro - mas dava para ver as peles repuxadas. Eu não tinha dúvidas... Os filetes só podiam ser sangue... sangue seco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu Deus... Eu não tinha braços para levar as mãos aos olhos... Nem pernas para correr dali...&lt;br /&gt;Que ignorância! Que atrocidade!&lt;br /&gt;Além de horrível, a cena era triste.... Coitada! Tão jovem!&lt;br /&gt;Meus olhos baixaram sem nada ver... Eu queria chorar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando os ergui, dei-me conta de que ainda estava viva. Quanto tempo havia se passado? Um dia? Dois? Não importava... Minhas horas estavam contadas. Estava difícil respirar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É certo que um dos ganchos - intencionalmente ou não - me perfurara mais fundo... Mais fundo que a pele... Tudo bem... Já não sentia dor, o que significava que estava mesmo morrendo... Seria breve então. Não tinha medo... nem raiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sei que minha morte não limparia a honra de Krūra Ādamī. Talvez até fosse pior...&lt;br /&gt;Vacta o repreenderia pelo que ele fizera comigo. Vacta não teria deixado isso acontecer... Ele não gosta destes costumes antigos que envolvem sacrifício humano. Mas Vacta estava no campo, preparando os rapazes para a cerimonia da passagem...&lt;br /&gt;Tudo bem... Já não há nada a ser feito mesmo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na verdade, eu tenho minha parcela de culpa também... Destrocei a honra de dois grandes de minha vila, fora a vergonha que  meus pais deveriam estar sentindo... Ainda bem que não os veria mais... Seria difícil me desculpar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não sentia culpa por ter amado Prēmī. Não. Isso não. Eu teria feito de novo e de novo, e morrido quantas vezes fosse necessário para estar com ele...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha maior tristeza nisso tudo era não poder cumprir minha promessa de esperá-lo. Está difícil ficar... Se a deusa da morte permitir, ficarei o quanto possível... Pobre Prēmī... Espero que Garva Mām lhe arranje uma noiva logo... Assim ele não sofrerá por mim por muito tempo... Não quero que ele sofra... não quero.&lt;br /&gt;Esse pensamento fez meus músculos tremerem. Estaria com febre?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os pensamentos de Gavāhī Dēnā eram como um riacho sobre pedras: irregulares e sem contenção...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A luz cegou a nós duas quando vi a tocha que apareceu na entrada da cela. Um soldado a empunhava. Ele olhou friamente para a moça pendurada e virou-se de lado para dar passagem ao casal que o acompanhava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;--Gavāhī... Filha amada...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://agnostha.blogspot.com/2010/05/ryiuniyana-parte-4.html"&gt;(Continua)&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6166509029461223532-3387206373160645044?l=agnostha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://agnostha.blogspot.com/feeds/3387206373160645044/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6166509029461223532&amp;postID=3387206373160645044&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/3387206373160645044'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/3387206373160645044'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://agnostha.blogspot.com/2010/05/riyuniyana-parte-3.html' title='Riyuniyana (Parte 3)'/><author><name>Agnostha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01959666006463231736</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://2.bp.blogspot.com/_CHP_-J93J6o/S1TD3Zrm6JI/AAAAAAAAAAM/AUnSeLWxstk/S220/Ag1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6166509029461223532.post-2854600774345799988</id><published>2010-04-28T11:06:00.000-07:00</published><updated>2011-10-17T10:11:33.060-07:00</updated><title type='text'>Riyuniyana (Parte 2)</title><content type='html'>Antes que alguém me pergunte, já vou logo dizendo que não conheço nada sobre culturas orientais; ainda mais indianas, indonésias ou mesmo tailandesas. Esse sonho ocorreu nos anos 90, então não posso dizer que tinha como referência alguma &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Caminho_das_%C3%83%EF%BF%BDndias"&gt;novela&lt;/a&gt; da TV...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me lembro que fui chamada pelo nome várias vezes enquanto vivia/assistia ao sonho, mas não me lembro de nenhum deles de modo que os nomes apresentados aqui são ficcionais e derivados do hindi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, você leu certo.&lt;br /&gt;Em várias partes deste sonho era como se eu estivesse assistindo a ele. Uma espectadora. Em outras eu estava participando... isso foi meio novo pra mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse sonho foi muito estranho pois minha consciência estava totalmente passiva. Uma parte de mim sabia que sonhava, mas a Alya que estava lá apenas respondia aos estímulos como se aquela fosse minha realidade no momento. Por isso, mais importante que narrar o que aconteceu, é narrar o que vivi. Sim, porque não há outra explicação racional para esse sonho...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-----&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Garva Mām fez a dança final. Estava lindamente vestida. Sua roupa dourada brilhava à luz das tochas. Peças esvoaçantes alternadas com a calça balonê e o corpete de gola alta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela girava. Que equilíbrio! Vejam o olhar! Vejam a força, a energia, a habilidade que emana dela! Era a própria deusa a dançar!&lt;br /&gt;Minha admiração por ela só aumentava quando eu via sua força e beleza em plena ação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu via a sua apresentação de pé ao lado do tablado. Estava em posição de guardiã - mãos unidas, cabeça inclinada - deveria demonstrar reverência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A música chega ao clímax, retumbando. Ela gira sobre os calcanhares e planta seus pés fortemente no chão num ângulo agudo. Todo seu corpo acompanha o movimento. As mãos com dedos expressivos e a cabeça em ângulo oposto com os olhos firmes. A posição da arqueira. Lindo final!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela não parecia já ser uma jovem senhora... Parecia muito mais jovem.&lt;br /&gt;Seu corpo era muito longuilíneo. Quarenta anos, talvez? A mulher que víamos ali estava em plena formosura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A plateia estava em glória. A energia deles estava equilibrada e o Vacta já poderia dar a palavra final.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como mandira que eu era, meu papel era recolher todos os utensílios sagrados após a adoração. O cântico final coroou a homilia da noite e todos foram dispensados. Esperei o comando do Vacta para sair da posição de guardiã. Garva Mām passou por mim e sorriu-me antes de seguir para sua célula.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As pessoas saíam vagarosamente do templo.&lt;br /&gt;Meus pais, que estavam bem perto do altar, me olharam orgulhosamente antes de saírem. Eu aquieci seus olhares e continuei meu trabalho. Eles sempre iam ao templo para orar e me ver. Eles não tinham permissão para falar comigo enquanto eu estivesse na função de mandira. Eu teria que esperar até a arama - o descanso - para poder ter com eles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Viver no templo era uma grande honra, mas não era uma tarefa fácil. As bandejas de frutas estavam pesadas... Eu tinha que levá-las para os pés da deusa e realizava sozinha a este trabalho. Todos saíram. Só restara a mim no salão do templo e...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha perspectiva mudou e vi o rapaz atrás da coluna esgueirando-se.&lt;br /&gt;Ele olhava furtivamente para a mocinha que estava próxima ao altar recolhendo a bandeja de frutas. Essa formava uma pirâmide exótica, elaborada com frutas variadas e ornada com flores coloridas também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A moça, que aparentava uns quinze ou dezesseis anos, usava uma vestimenta em branco e vermelho de duas peças, algo similar a uma saia e uma camiseta que deixava a barriga à mostra.&lt;br /&gt;Havia um adorno na cabeça similar a &lt;a href="http://www.portaldointercambio.com.br/destinos/tailandia/travel.jpg"&gt;um chapéu pontudo&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rapaz sorriu. Havia ternura em seus olhos.&lt;br /&gt;Ele também era muito jovem. Não devia ter mais que dezessete anos. O rosto moreno e imberbe era emoldurado por cabelos muito negros e lisos que escorriam pelas laterais e recuavam presos na nuca por uma trança fina. Os olhos amendoados e grandes amenizavam a geometria perfeita das maçãs de seu rosto fino e o septo reto de seu nariz. Era magro e forte. Usava algo similar a uma camiseta com vários colares e adornos cruzados sobre o peito. A calça folgada, de pernas bufantes, era apertada na cintura por uma faixa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Gavāhī... Gavāhī Dēnā! - murmurou ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dentro do salão vazio qualquer som se propagava.&lt;br /&gt;Não precisei nem de um segundo para reconhecer a voz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Prēmī! - quase gritei e meu estômago se revirou com alegria e medo. Instintivamente olhei para os lados para ver se havia alguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos deviam estar em suas células agora, quebrando o jejum. Acho que era seguro... Mesmo que não fosse, como resistir àquele chamado?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desci do tablado e corri tão silenciosamente quanto pude em direção a ele. Meu sorriso era imenso. Três segundos e nossos corpos estavam colados num forte abraço. Ele ri abafado e me ergue girando num semicírculo. Eu rio também achando graça na brincadeira dele mas sinalizando com os olhos sobre o perigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava tão feliz por ele estar de volta, que o fato de nosso namoro ser proibido não importava naquele momento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele era o filho de Garva Mām, a primeira da casta. Eu não era nada. Só uma mandira. Não tinha o direito de sequer olhar para ele. Meus pais iam casar-me com Krūra Ādamī, o capitão da guarda do templo... uma honra para nossa família. A decisão fora das famílias... não minha. Estes eram mais que motivos para proibição de nosso namoro. Era uma declaração de suicídio social, expulsão ou mesmo a morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me sentia muito culpada por isso. Por trair a confiança de Garva Mām - a mulher que me acolhera tão bem quando cheguei ao templo. Ela mesma havia apresentado-me ao seu filho, Ātmaghātī Prēmī, o jovem aprendiz-guerreiro. Com a pequena diferença em nossas idades,- diferente de Krūra Ādamī, uns 10 anos mais velho que eu - ela pensara que seríamos como irmãos... Nos tornamos mais que isso..&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora eu estava aqui... a colocar a honra de minha família em risco.&lt;br /&gt;Estava apavorada...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o que fazer quando Prēmī demonstrou me amar tanto?&lt;br /&gt;Premi era lindo, amigo, e eu queria ficar com ele. Ele também queria ficar comigo. Posso ver isso em seus olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não. Não há culpa em mim por amá-lo. Eu sou correspondida. Um amor assim não pode ser um pecado. Não pode.... Mas temo por ele. O que farão se descobrirem?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dois jovens abraçados transpareciam o que eram: dois adolescentes com seu primeiro amor. Depois do abraço eles se olham nos olhos. Havia mesmo um brilho neles. Suas mãos estavam entrelaçadas. Encantados um com o outro.&lt;br /&gt;Eles trocaram algumas palavras. Não pude entender tudo o que diziam enquanto assistia à cena. Mas vi quando a alegria do encontro fora trocada por rostos de preocupação. Ela não queria continuar... Temia por suas vidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rosto do rapaz se contorceu em súplica.&lt;br /&gt;Ele iria dar um jeito. Iria falar com sua mãe. Iria pedir permissão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim que sua trivia (que eu entendi como sendo um período de estudo básico) estivesse terminada, e só faltava uma lua, ele seria o segundo guerreiro e teria autoridade para fazer um pedido como aquele. Impor sua vontade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela parece relutante. Olha para baixo. Sua cabeça meneando. Ele a conforta no aconchego de um abraço. Depois, segura seu rosto com ambas as mãos para que ela tornasse a olhar para cima. Ele beija sua testa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Por favor... Eu darei um jeito nisso. Uma lua. É tudo que te peço. - murmura ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela suspira, e só o fato de pensar em ficar sem ele já faz seu coração doer... Nela, e em mim.&lt;br /&gt;Ela fecha os olhos e aceita. Não importa o que aconteça; ficarão juntos.&lt;br /&gt;O beijo dos dois é lindo. Singelo e ao mesmo tempo cheio de promessas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei absorta vendo aquilo... Tanto que quase perdi a movimentação por trás do tablado. Alguém tinha visto?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi difícil me libertar de seus doces lábios. Mas era hora de ir. Iam dar falta das frutas aos pés da deusa. Me despedi dele, prometendo-o que esperaria por ele até a próxima lua. Ele viu em meu rosto que eu estava prestes a chorar com sua partida e me abraçou mais uma vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Não há motivo para chorar... Estarei sempre contigo. - murmurou ele, e pressionou seus lábios nos meus. Sorri, mas nem mesmo eu sabia porque queria chorar... Preocupação, eu acho...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele se foi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o coração palpitando estranhamente, corri para terminar meu trabalho e depois subir para minha célula.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://agnostha.blogspot.com/2010/05/riyuniyana-parte-3.html"&gt;(Continua)&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6166509029461223532-2854600774345799988?l=agnostha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://agnostha.blogspot.com/feeds/2854600774345799988/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6166509029461223532&amp;postID=2854600774345799988&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/2854600774345799988'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/2854600774345799988'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://agnostha.blogspot.com/2010/04/riyuniyana-parte-2.html' title='Riyuniyana (Parte 2)'/><author><name>Agnostha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01959666006463231736</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://2.bp.blogspot.com/_CHP_-J93J6o/S1TD3Zrm6JI/AAAAAAAAAAM/AUnSeLWxstk/S220/Ag1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6166509029461223532.post-8442837544249342632</id><published>2010-03-14T17:48:00.000-07:00</published><updated>2011-10-17T09:40:08.034-07:00</updated><title type='text'>Riyuniyana (Parte 1)</title><content type='html'>-- Er... Bom dia. - declarei com um sorriso tímido quando entrei no hall.&lt;br /&gt;-- Bom dia. - respondeu o estranho rapaz sentado por detrás do balcão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava atrasada, ofegava um pouco, e para piorar, suava - já que não esperara pelo elevador e havia subido os três andares até o Instituto de Física pelas escadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Você deve ser a Alya, não é? - ele sorria educado. A voz calma.&lt;br /&gt;-- Sou sim. - sorri dando a volta no balcão e colocando a mochila na gaveta do armário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Respirei fundo para recuperar o fôlego porém tentando parecer discreta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- ... E você deve ser o Lino. - expeculei. Caminhei para minha cadeira - Nini falou que havia mais um funcionário na casa... - completei, agora mais coordenada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O normal numa situação destas é apertar as mãos e dar beijinhos no rosto se você é jovem. Mas não foi o que aconteceu. Naquele pequeno corredor que era o espaço que tínhamos atrás do balcão de atendimento, eu sentei em minha cadeira fazendo o possível para não esbarrar na cadeira do rapaz. Sem sequer roçar nele. Na verdade, eu me afastei o máximo que eu pude.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- É. Eu mesmo. Eu estava de férias. - respondeu rabiscando algo no bloquinho.&lt;br /&gt;-- Ãh... Legal. - dei outro sorriso que se apagou em seguida. Ajeitei-me na cadeira. Inibida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei para a bancada procurando o que fazer. Não sabia onde pôr as mãos.&lt;br /&gt;O que eu tinha? Eu não era assim... Normalmente sou mais efusiva quando conheço gente nova.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquela sensação era sem sentido: quando entrei no salão e vi o moço sentado lá, eu tive a estranha sensação de medo. Isso mesmo. Medo do rapaz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estávamos no balcão de empréstimo que fica no hall da &lt;a href="http://omnis.if.ufrj.br/%7Ewww_if/biblioteca.php"&gt;Biblioteca Setorial do Instituto de Física da UFRJ&lt;/a&gt;. Além deste hall - que era nada mais do que uma sala estreita e comprida com um portal de folha dupla para entrada dos usuários e outro portal que dava para o acervo do instituto -, a biblioteca dispunha de uma pequena copa, duas salas menores - uma para a bibliotecária e os arquivos topográficos, e outra que funcionava como oficina de encadernação - e é claro, o salão do acervo, esse bem maior, com suas estantes sisudas dispostas em fileiras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um silêncio cortante tomou conta do lugar e, a aquela hora do almoço, a biblioteca vazia não ajudava em nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levantei e comecei a ordenar as fichas do arquivo de empréstimos, só para não ficar ali parada com um cara estranho e que parecia indiferente à minha presença.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naqueles breves minutos eu tentei inutilmente parecer natural. Mas meu medo continuava ali. A presença do moço me incomodava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perdi a contagem alfabética dos nomes... Recomecei. Naquele dia nada parecia natural... Me lembrei do sonho deprimente que tive naquela noite e da reunião chata da qual participara na faculdade mesmo eu estando de férias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Medo?&lt;/span&gt; &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Não... Não poderia ser...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Mas o que era agora? Seria cansaço? Seria aquele sentimento chato do sonho? Sentimento esse que eu ruminava ao longo do dia?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não poderia dizer... Não havia nada tátil ali para eu temer. Verdadeiramente, não havia. Quer dizer... O rapaz ao meu lado não tinha culpa de nada. Ele não me olhara de cara feia, nem me intimidara com alguma paquera inconveniente, nem dissera nada de mais... Então o que seria?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto mexia nas fichas, dei uma segunda olhada discreta para ele, vasculhando as possíveis razões para aquele sentimento:&lt;br /&gt;O rapaz era bem alto. 1,85m? Talvez 1,90. Parecia forte, mas não um atleta. Usava uma camisa de botões azul-marinho e calça jeans... Hum, normal... Jovem... Uns 22 anos? - continuei olhando - Os cabelos grossos, negros e lisos, bem curto dos lados e espetados no alto com entradas nas têmporas. O rosto ligeiramente quadrado, lábios definidos, e o queixo marcado por um furinho... - &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Hum, uh... Sexy...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui interrompida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Está frio aqui... - disse ele com a mesma voz baixa e calma quando reparou que eu sustentara meu olhar por mais tempo que a educação permitia - Esse ar-condicionado nunca está regulado... - completou com um discreto sorriso no canto da boca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Ah... Os olhos.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Aquele olhar oriental, definitivamente, me confundia. Os olhos puxados com sobrancelhas cheias e retas não me deixavam ver os limites entre a pupila, a íris e a esclera. Era tudo indefinido. Escuro. &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Hum...&lt;/span&gt; Ele devia ter alguma descendência japonesa ou chinesa... A julgar pela altura e peso, acho que era japonesa. Ele lembrava um lutador de sumô... - ri internamente - Só que bem mais magro...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todo esse pensamento levou um segundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Ah, é! Está frio mesmo... - respondi sorrindo sem graça e esfregando os braços.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O silêncio voltou. Os minutos passavam. Me incomodava.&lt;br /&gt;Voltei às fichas mas a sensação estranha no ar continuava ali. Medo...&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Medo?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sr. Manoel adentra à biblioteca dando "bons dias" a nós dois. Que alívio! Não estaria mais sozinha naquele lugar com um rapaz estranho. Estranho porque eu acabara de conhecer. Estranho porque eu achara ele estranho à primeira vista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu Manoel não ficaria conosco no balcão; ele ia para a salinha da encadernação. Ainda assim, era bom saber que havia mais alguém por ali. Ele trocou algumas palavras gentis, comentou sobre a volta do tal Lino e saiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalizei meu trabalho. Tornei a me sentar. Olhei pro lado.&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Bah! Que ridícula! &lt;/span&gt;- pensei. - &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Medo de quê? Vamos quebrar o gelo!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- E então? O que você faz, além de trabalhar aqui? - perguntei tentando ser simpática. &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Será que ele me acharia intrometida?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;-- Acabei de entrar para a faculdade. - sorriu me olhando por debaixo dos cílios - Estou no primeiro período. Minhas aulas começam em fevereiro próximo.&lt;br /&gt;--Puxa! Legal! - juntei as mãos e as repousei sobre o balcão. - Qual universidade? - &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Tô forçando muito?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;-- Unirio. - respondeu repetindo meu gesto.&lt;br /&gt;-- Ora! É a mesma que a minha! - agora me sentia mais leve - Que curso?&lt;br /&gt;-- Biblioteconomia... - sorriu quase como se pedisse desculpas - A noite...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu rosto se iluminou.&lt;br /&gt;Esse gancho foi o suficiente para que eu me soltasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como numa montanha russa, subindo devagar, comecei a falar sobre a faculdade; que tinha ingressado no meio do ano anterior e que estava indo para o segundo período no próximo semestre. Falei das amigas; que uma delas - a Lili - estagiava também na UFRJ. Falei dos professores, dos outros cursos, das matérias chatas e das boas. Depois, já descendo a ladeira - tagarelando - contei toda a história de como me tornara representante do Diretório Acadêmico - o DA - e de como minha vida havia ficado atarefada com as atividades de representação acadêmica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois é. Deixa eu contar isso.&lt;br /&gt;Logo depois que ir para a faculdade (&lt;em&gt;e diga-se de passagem, sonhar com ela&lt;/em&gt;) se tornou algo cotidiano e normal, passou pela minha sala um rapaz branquelo, um pouco acima do peso e com jeitão de alemão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele pedia ajuda para organizar um pedido de compra de novos códigos de classificação para os alunos usarem em nossa biblioteca durante o curso. Ele já tinha a petição para encaminhar à reitoria, só faltavam as assinaturas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele era da turma da noite e havia coletado as assinaturas do pessoal de lá. Faltava a galera da manhã endossar o tal pedido, mas ele trabalhava de manhã e não podia deter-se no trabalho de coletá-las.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marconi - esse era seu nome - lembrava-me um querubim. Redondos olhos azuis, cabelos encaracolados loiros, bochechas rosadas e boca pequena. Apesar dos traços, o rapaz não era tão jovem. Devia ter quase 30 anos, o que para mim, com 18, já era considerado quase um "coroa". Otimista e eloquente, ele falava sempre sorrindo. Carismático, ele explicava que se nos uníssemos, conseguiríamos chamar a atenção da decania e do reitor para nosso pedido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gostei dele de cara. Do Marconi. Gostei dele. Sem segundas intenções... Gostei de ver uma pessoa guerreira tomar a frente de sua comunidade. Em tempos em que a internet não existia, mobilizar companheiros para qualquer atividade era um grande desafio, e eu admirei sua coragem e iniciativa. Daí me apresentei e ofereci ajuda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não demorou muito e ele me convidou para participar do Diretório Acadêmico - a união dos representantes de turma. Com o tempo de sobra que tinha, acabei aceitando. Junto com outros colegas reativamos o diretório, retomamos os trabalhos de representatividade da Escola de Biblioteconomia  e o direito de participar das decisões da faculdade. Isso foi bom. Conheci muita gente, fiz amigos docentes e discentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Então você é popular... - comentou Lino quando cheguei neste ponto. Sorria com o canto da boca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu dei de ombros:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Hum... Acho que sim... Talvez. - admiti.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Continuei contando a ele que em nossa luta para fazer o curso ser representativo, conseguimos passagens de ônibus para uma pequena delegação ir a Aracaju naquele junho próximo participar do Encontro de Estudantes de Biblioteconomia e Documentação - o &lt;a href="http://www.cce.udesc.br/cab/oqueeoenebd.htm"&gt;ENEBD&lt;/a&gt;. E fora por conta disso que tivera uma reunião pela manhã - mesmo eu estando de férias - o que atrasou minha chegada no estágio naquele dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rapaz ao meu lado se mostrava receptivo - sorrindo nas partes em que eu exagerava, tecendo comentários inteligentes - então eu não parei de falar. Contei também como fui parar ali, naquele estágio, na biblioteca setorial do &lt;a href="http://www.if.ufrj.br/"&gt;IF&lt;/a&gt; :&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o mundo profissional se apresentando diante de mim e tanta coisa legal me acontecendo eu estava quase com raiva do semestre estar acabando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Férias? Puxa! Ficaria janeiro inteiro sem ver os amigos da faculdade... Sem fazer nada, logo quando estava aprendendo tanto!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Por que vocês não aproveitam para fazer estágio? A UFRJ esta recrutando... - comentou Diva naquele dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era dezembro e, na época, a cantina estava bastante vazia. Muitas turmas haviam sido liberadas com o fim daquele semestre. havia pouca gente na faculdade. Era nossa última semana. Nos lugares que sobejavam, escolhemos a mesinha próxima à árvore. Três amigas e três latinhas de guaraná.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Sério? - respondi surpresa - Mas ainda estamos no primeiro período...&lt;br /&gt;-- Isso não é problema! Eles estão precisando de gente novinha assim. É só meio expediente. - completou Diva girando o canudinho da lata com a ponta dos dedos.&lt;br /&gt;-- Vamos, Alya, vamos! A gente pode ir de manhã e voltar juntas ao meio-dia. - disse Liliane, nossa Lili. Ela sorria entusiasmada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lili era a evangélica do grupo. Sua religião &lt;span id="SPELLING_ERROR_14" class="blsp-spelling-error"&gt;transparecia&lt;/span&gt; nas suas atitudes. Uma pessoa justa, correta e amiga. Suas palavras sempre eram um conforto e incentivo. Logo na primeira semana de aula colei com ela. Além de bonita por dentro, ela também era muito bonita por fora. Como boa &lt;span id="SPELLING_ERROR_15" class="blsp-spelling-error"&gt;taurina&lt;/span&gt;, era uma moça grande, na altura e nos traços. Tinha um cabelão aloirado que ia até a cintura e adornava seu rosto ligeiramente quadrado. Olhos cor-de-mel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nós morávamos na mesma cidade, o que fortalecia nossa amizade. Assim, éramos inseparáveis - apesar de que ela não era do DA. As pessoas da faculdade comentavam que a dupla chamava a atenção por onde passava pois ambas éramos altas para a média brasileira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contabilizando, eu tinha uma espírita de um lado e uma evangélica do outro. Agradeço muito a Deus por ter um leque de amizades tão &lt;span id="SPELLING_ERROR_16" class="blsp-spelling-error"&gt;eclético&lt;/span&gt;…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Poderemos aprender novas técnicas e de quebra ganhar algum dinheiro. Que tal? - continuou ela balançando as sobrancelhas.&lt;br /&gt;-- Hum... É. - comecei a calcular o custo-benefício mentalmente - Parece bom... Tá certo. Vamos ver como é esse estágio. - me animei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de pegarmos as últimas notas (&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Ufa! Passei em tudo!&lt;/span&gt;) fomos até a Biblioteca Central da UFRJ para ver o tal estágio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O &lt;a href="http://www.sibi.ufrj.br/"&gt;Sibi&lt;/a&gt; funcionava no campus vizinho ao nosso. Caminhamos até lá.&lt;br /&gt;Era verdade. Realmente estavam recrutando. Fomos bem recebidas, mas Diva não quis se inscrever pois já tinha estágio numa empresa. Ela se foi e ficamos Lili e eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Tome. Preencha este formulário, por favor. Você vai para a biblioteca setorial do CCH na Geografia e você vai para a do CT na Química. - disse-nos a senhora que nos entregou o papel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me animei. Sair da área de Ciências Humanas e atender ao público de Química seria uma experiência nova. Gente diferente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Preenchemos tudo e entregamos. Ela nos deu uma guia para abrirmos uma conta bancária e receber a bolsa auxílio. Nos dias atuais seria algo em torno de um salário mínimo. Era pouco, mas pra quem não fazia nada, além de estudar, estava muito bom.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela acabara de nos liberar. Lili levantou-se e eu, estabanada, estava tendo dificuldade para guardar minhas canetas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Anda, Alya! - falou Lili na porta.&lt;br /&gt;-- Tô indo! - respondi finalmente fechando o zíper da mochila.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Senti um toque no braço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Espere! Cometi um erro! - era a senhora que nos atendeu. Eu olhei. - É... - continuou ela - Acho que serve você mesmo... - disse me olhando - Eu tinha prometido o próximo estagiário para o Instituto de Física e não para o Instituto de Química... - abriu a gaveta - Se importa de preencher o formulário de novo? - e me estendeu o papel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei para Lili que tinha voltado para meu lado. Ela olhou pra mim e deu de ombros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Tudo bem. - bufei, e abrindo o zíper peguei a caneta de novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na mesma semana resolvemos tudo.&lt;br /&gt;Abrimos a conta e nos apresentamos por telefone. Iríamos começar na primeira semana de janeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Pode vir pela manhã, sim. Abrimos às oito. O seu Manoel chega às sete e meia, com exceção das segundas, e eu chego às nove. Nosso outro funcionário, o Lino, está de férias. Você vai ajudar seu Manoel com o inventário, ok?"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A voz simpática da mulher ao telefone era de Nini Brantes, minha primeira chefe. Só fui conhecê-la pessoalmente na segunda semana de estágio - uma jovem senhora em torno dos 40 anos, magra, bonitona, com cabelos encaracolados, cheios e armados à altura dos ombros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Sim, obrigada. Logo após as festas estarei aí. Feliz Natal e Feliz Ano Novo! - respondi.&lt;br /&gt;"Feliz Natal e Ano Novo pra você também. Até janeiro então!" - sorria ela.&lt;br /&gt;-- Até! - e coloquei o fone no gancho do orelhão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem... E foi assim que já fazia uns 20 dias que eu estava lá no IF.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu era uma tagarela. E Lino me ouvia com muita paciência. A essa altura, eu já era eu mesma. Gesticulava, ria, e falava como se tivesse uma plateia assistindo. O medo esquecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Você pode até achar "estranho" uma pessoa que se considera "estranha" ser assim, tão expansiva. Mas eu faço isso para, justamente, esconder a minha verdadeira natureza...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já o Lino não se alterou muito. Perguntava e respondia educadamente, sorrindo e me olhando com aqueles olhos oblíquos. Sua voz calma tinha um timbre firme, aveludado... bonito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As horas, repentinamente, passaram; e entre um atendimento e outro, um comentário e outro, quando vi, já era hora de ir para casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dentro do ônibus - estava só desta vez. Lili já tinha ido para casa - acabei por concluir que o carinha estranho, o tal Lino, era simpático. Tímido, mas simpático. Acho que tive uma impressão inicial errada dele... - pensei. Olhei a paisagem. Saía da ilha. Suspirei. - Também pudera... Eu não estava bem naquele dia. Depois de acordar deprimida, eu poderia até dizer que o papo com aquele rapaz havia me ajudado a mudar de foco. Realmente funcionara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É claro que não contei a ele sobre o sonho daquela noite - ele me acharia uma doida... -, como não contara a ninguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ônibus atravessava a ponte Rio-Niterói enquanto as imagens do sonho misturavam-se na minha cabeça, impregnadas por ondas de doçura e amargor. A doçura de ter o primeiro amor. E o amargor de perder a ele... E a vida...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Permitam-me contar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://agnostha.blogspot.com/2010/04/riyuniyana-parte-2.html"&gt;(Continua)&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6166509029461223532-8442837544249342632?l=agnostha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://agnostha.blogspot.com/feeds/8442837544249342632/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6166509029461223532&amp;postID=8442837544249342632&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/8442837544249342632'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/8442837544249342632'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://agnostha.blogspot.com/2010/03/riyuniyana-parte-1.html' title='Riyuniyana (Parte 1)'/><author><name>Agnostha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01959666006463231736</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://2.bp.blogspot.com/_CHP_-J93J6o/S1TD3Zrm6JI/AAAAAAAAAAM/AUnSeLWxstk/S220/Ag1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6166509029461223532.post-5629542036311478706</id><published>2010-02-18T23:01:00.000-08:00</published><updated>2011-10-14T07:33:29.154-07:00</updated><title type='text'>Zumbis (Parte 2)</title><content type='html'>Desci correndo do carro. Voltei. Já ia esquecendo a mochila. Bati a porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;--Valeu, pai! Valeu, mãe! - disse me inclinando do lado de fora para a janela. --Bença!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;--Deus te abençoe, minha filha. - responderam os dois sorrindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aceleraram. O carro deles virou um borrão antes de chegar à esquina.&lt;br /&gt;Caminhei sem pressa pelo pátio. Era uma manhã nublada, mas clara.&lt;br /&gt;Ajeitei mais a mochila ao ombro e senti que estava me esquecendo de alguma coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;O que seria? O trabalho de História?... Não. Esse era pra sexta. O de inglês? ... Não... Que dia era hoje? - continuei andando. - Putz!... Não consigo me lembrar... algo importante. Lembre-se...Lembre-se...Lembre-se...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estaquei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Caraca! Tô sonhando!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era disso que tinha que me lembrar! Estava sonhando com a faculdade! Finalmente!&lt;br /&gt;Depois de quase duas semanas sem nada estranho me ocorrendo, já estava achando que havia dado muita importância ao sonho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todas as noites, antes de dormir, eu respirava fundo, orava e me concentrava tentando reunir minhas forças. Ia dormir me sentindo preparada para encarar qualquer coisa, fosse o que fosse. No entanto, as noites seguiam seu rumo normalmente. Sonhos normais, dias normais. Foi assim por vários dias... Até que eu relaxei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Bah! Bobagem ficar vidrada numa ideia maluca...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora estava eu ali. De novo no sonho da "Assassina-zumbi". Ai, meu Deus...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me olhei. Não precisei largar a mochila. Ela desaparecera quando fiquei consciente. Eu estava usando jeans e uma camisa branca. Descalça. Não estava bom. Mas naquela circunstância, com uma zumbi prestes a me matar em sonho, que diferença faria?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Franzi o cenho com esse pensamento. Raiva. Não iria deixar aquilo acontecer de novo.&lt;br /&gt;E assim, meio assustada, meio decidida a por fim naquilo, eu atravessei rapidamente o pátio, desci a rampa e ganhei o corredor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrei.&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Oh! - &lt;/span&gt;Por mais que o sonho, em princípio, seja meu, a mim parece que existe uma força externa agindo pois nunca as coisas são como eu espero ver. Eu sempre me surpreendo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não era mais meu conhecido subsolo. O cenário mudara.&lt;br /&gt;O breu era quanse total depois que atravessei o batente. Uma luz esverdeada fraquinha iluminava o centro do que parecia ser um salão com um amplo espaço central rodeado de várias camas hospitalares de ferro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu só via o esboço delas porque antes de chegar às paredes, já não se via nada, tal a escuridão. Uma bruma pairava sobre o chão ocultando tudo até meus joelhos. Uma umidade cavernosa completava o ambiente onírico. Onírico que parecia real demais...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dei alguns passos. Não havia mais nenhum sinal da porta no corredor atrás de mim e eu estava no centro da luz verde. &lt;em&gt;- Sinistro! Eu não poderia estar criando aquilo, poderia?...&lt;/em&gt; - Aquele ambiente aterrorizou-me e tive que juntar minhas forças para não acordar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda bem que fiz aquilo pois mal fechara os punhos e me concentrara, uma lança atravessou o ar zumbindo como um dardo e me acertou!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Merda! Que mira boa tinha a filha da p...!!!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A estaca entrou exatamente pelo meu olho direito e atravessou minha cabeça que foi para trás com o impacto. Caí!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só vi de relance. A zumbi estava de pé no canto mais distante do quarto em cima de uma das camas. Ela ria alto. Confiante. E não estava sozinha. Outras vozes riam com ela. Inumanas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquilo me surpreendeu. Eram outros zumbis. Mais quatro deles. Percebi enquanto me apoiava com um braço no chão nebuloso. Minha cabeça pesava, pendendo para trás, com a estaca atravessada nele. Eu devia estar horrível...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles riam alto. Eles estavam rindo às minhas custas... Rindo da humana viva. Da humana indefesa.&lt;br /&gt;Me senti diminuta. Humilhada...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;... Mas eles não me conheciam, ah, não!&lt;br /&gt;Não sabiam que eu não era uma humana comum. Não comum quando sonha, pelo menos... E eu não iria ser saco de pancada de sonho nenhum! Fosse sonho, fosse pesadelo, fosse visão, fosse o que fosse!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele mundo onírico &lt;span style="font-weight: bold;"&gt;eu&lt;/span&gt; era a estranha ali! &lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Eu era Agnostha!!!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com este pensamento, ergui-me devagar. Um misto de raiva e petulância crescendo em mim.&lt;br /&gt;Equilibrava a cabeça com a estaca atravessada. Não sentia nada. Só via um borrão vermelho no local onde meu olho vazado deveria estar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Respirei. Encarei meus algozes gargalhantes de pé em torno do quarto. Eram tão feios e maltrapilhos quanto ela, a que me atingiu, a que parecia ser a líder, a "Zumbi-mor".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com gestos deliberadamente lentos, coloquei ambas as mãos na estaca e a puxei.&lt;br /&gt;Foi como puxar o palito do algodão-doce. Não senti nada. Minha visão se reestabeleceu automaticamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As risadas pararam na hora. Surpresos, sem dúvida.&lt;br /&gt;Agora eu sorria ironicamente:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Você. Não. Pode. Me. Ferir! - disse eu entre dentes. E, num movimento rápido, impensado, lancei a estaca de volta pra ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa cortou o ar sibilando e fez um barulho seco quando atravessou a barriga da Zumbi saindo pelas costas!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No segundo seguinte todos os vultos estavam urrando sobre mim!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi tudo muito rápido!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na verdade eu não queria briga. Raramente brigo em sonho.&lt;br /&gt;Nunca briguei corpo-a-corpo com alguém na vida real (Tá... Já me embolei com meu irmão algumas vezes quando criança. Mas era briguinha de irmãos... Nada comparável...). Eu chegara ali pensando em ser a magnânima, a benevolente, a celestial, a caridosa. Pensava em levar um papo com a tal zumbi... Lhe mostrar a luz, coisa e tal...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas vi que eu não era tão boa assim... &lt;span style="font-style: italic;"&gt;E&lt;/span&gt;&lt;em&gt;u sei que não sou...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;A culpa era minha. Não devia ter lançado a estaca... Eu estava com raiva... Raiva de ser a mortal. Parecer fraca. Fui petulante. Minha raiva deflagrou a violência. Agora era tarde. Já não havia espaço para o diálogo. Os outros zumbis vieram pra cima de mim e eu tinha que ao menos me defender.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha reação foi instantânea.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abaixei-me girando no eixo do meu calcanhar direito, estendendo a perna esquerda e passando uma rasteira em dois zumbis que avançavam pelo meu flanco direito. Ainda girando, semierguida, estiquei os braços e plantei minhas mãos espalmadas nos peitos do outro casal que saltava pelo meu flanco esquerdo, completando o giro. Eles voaram por cima das camas, tal minha força.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem precisei me olhar para ver que estava Agnostha. A perspectiva do salão tinha mudado e sabia que estava mais alta. Bem mais alta. Além disso, minha velocidade e a força só corroboravam para minha certeza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É estranho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é como nos filmes de super-heróis onde todos eles têm uma transformação espetacular cheia de cores e brilhos, ou fazem aquelas posições heróicas como nos filmes japoneses, ou evocam palavras mágicas poderosas como em filmes de bruxos. Eu simplesmente sou eu... E um segundo depois, eu sou Agnostha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As vezes nem me dou conta disso até ver minhas próprias mãos, ou ver a perplexidade dos meus circunstantes oníricos. Não há nenhum sinal mesmo.&lt;br /&gt;Tá. Convenhamos. Há um sentimento: me sinto diferente... me sinto forte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu precisava sair do centro da luz verde. Despistá-los.&lt;br /&gt;Saltei no ar abraçando as pernas. O quarto girando uns 360 graus antes que eu caísse perfeitamente de pé sobre uma das camas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De lá pude ver melhor a situação.&lt;br /&gt;A Zumbi-mor tentava retirar a estaca da barriga, furiosa, se contorcendo sobre a outra cama. Os outros quatro que derrubara estavam se levantando da bruma do chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estaria pronta para um novo ataque? &lt;em&gt;Até quando aquilo duraria?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os maltrapilhos grunhiam com raiva, cambaleantes, em minha direção. Dali, a névoa e a escuridão pareciam mais intensos. Aquilo me incomodava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Luz.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ideia me veio clara.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Sim! Como não pensei nisso antes? Como proceder?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Levou um milésimo de segundo para saber. Direcionei minhas mãos para os zumbis e me concentrei. Surpreendentemente, minhas palmas negras ficaram prateadas como aço inox e em seguida brancas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem me deixar deslumbrar, continuei com a concentração. A alvura se espalhando como água subindo pelas mãos e braços - lembrei-me do dia em que &lt;a href="http://agnostha.blogspot.com/2009/10/mix-parte-1.html"&gt;me tornei Agnostha pela primeira vez &lt;/a&gt;- Eu fazia um esforço mental consciente. Mantive a luz ali, concentrada, quente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os zumbis não se intimidaram com a crescente claridade. Continuavam a se aproximar perigosamente. Os quatro de uma vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A luz já estava escapando pelos meus dedos que pareciam êmbolos pressionados.&lt;br /&gt;Mais dois segundos e eles me tocariam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não corri riscos: como se fosse uma represa arrebentando, eu libertei toda a luz que pude.&lt;br /&gt;Como mil flashes disparados de uma só vez, o quarto se encheu daquele branco cegante e por um segundo, mesmo eu não pude ver nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como disse... Nada é como eu espero que seja em meu próprio sonho...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi como se a luz tivesse enxaguado uma crosta suja.&lt;br /&gt;Ali, de pé sobre a cama de ferro, pude ver um novo quarto no meu entorno. Era amplo, mas dessa vez tinha limites. As paredes eram pintadas de cinza claro. O assoalho era de tábuas corridas em um tom mogno escuro e o teto em ripas de madeira pintadas de branco. As camas continuavam lá: de ferro cinza, 3 de cada lado. Estavam arrumadinhas com lençóis de linho branco. Lampeões espaçados iluminavam monotonamente. Nenhuma janela... ou porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Confusa e desconfiada, desci da cama deixando o lençol franzido para trás. Vagarosamente, como uma autômata, me dirigi para a cama do outro lado do quarto. Estava assombrada com o que via: uma moça de uns 25-27 anos, bonita, amarrada, pulsos e pés, nos ferros da cama. Seus cabelos negros e lisos escorrendo pelo travesseiro. Seu rosto pálido como vela me encarava com um olhar melancólico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquilo apagou todo o fogo em mim.... toda a luta... a raiva... Deixando-me sem ação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me aproximei taciturna e fiquei ao seu lado sentindo uma profunda pena. &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Sua dor. &lt;/span&gt;Me dei conta de que tudo era uma ilusão. Não ilusão minha... Ilusão dela, a Zumbi.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;Minha pobre Zumbi-mor... Tanto esforço para preencher sua loucura e solidão...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem dizer nada, minhas mãos - humanas - começaram a afrouxar as fivelas que a prendiam à cama. Primeiro os pulsos, depois os tornozelos... Ela não se mexia, só me acompanhava com os olhos. Quando terminei parei de novo a seu lado. Ela virou a cabeça acompanhando-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;--Você está livre. - eu disse, por fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vi a confusão e depois a compreensão banhar seu rosto. Sorriu-me.&lt;br /&gt;Ela moveu a cabeça e, olhando para o teto - provavelmente vendo o céu - desapareceu. Como neblina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um segundo depois o quarto a acompanhou e eu estava de pé no meio do corredor da faculdade, quase em frente ao elevador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acabou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentia-me cansada.&lt;br /&gt;Luta, dor, pena... Sentimentos muito ruins. Fora o tanto que eu tinha doado - e na época eu nem sabia que tinha... - Eu me sentia muito cansada. Exausta, na verdade. Ia perder a consciência com certeza... Não dava mais para aguentar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caminhei para fora com as forças que me restavam. Consegui. Estava no pátio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Não dava mais... eu tinha que...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Apaguei. Sem sonhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A última coisa de que me lembro é de ter visto um lindo felino... se lambendo... com o pelo preto fofinho... Reluzindo ao sol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://agnostha.blogspot.com/2010/03/riyuniyana-parte-1.html"&gt;(Continua)&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6166509029461223532-5629542036311478706?l=agnostha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://agnostha.blogspot.com/feeds/5629542036311478706/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6166509029461223532&amp;postID=5629542036311478706&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/5629542036311478706'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/5629542036311478706'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://agnostha.blogspot.com/2010/02/zumbis-parte-2.html' title='Zumbis (Parte 2)'/><author><name>Agnostha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01959666006463231736</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://2.bp.blogspot.com/_CHP_-J93J6o/S1TD3Zrm6JI/AAAAAAAAAAM/AUnSeLWxstk/S220/Ag1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6166509029461223532.post-3727251842837729080</id><published>2010-01-25T23:04:00.000-08:00</published><updated>2011-10-13T11:56:21.066-07:00</updated><title type='text'>Zumbis (Parte 1)</title><content type='html'>Finalmente o tempo passou e as aulas começaram.&lt;br /&gt;O primeiro mês foi &lt;span id="SPELLING_ERROR_2" class="blsp-spelling-error"&gt;foda&lt;/span&gt;. Desculpem o palavreado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E não foi &lt;span id="SPELLING_ERROR_3" class="blsp-spelling-error"&gt;foda&lt;/span&gt; por causa dos trotes. Isso foi mole.&lt;br /&gt;Pra uma faculdade pública federal até que eles pegaram leve: tive que fazer uma cena de amor com o busto do patrono que fica no pátio na frente de todo mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Corei, é claro. Mas pra quem estava tão feliz como eu por estar ali, até que não foi um esforço muito grande fazer a tal cena. Além do mais, aquelas pessoas não me conheciam. Não sabiam o quão louca eu posso ser quando quero, e eu queria fazer amizades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deu certo. A palhaçada no pátio me ajudou a me misturar. Os que estavam ali, na mesma situação embaraçosa, simpatizaram comigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span id="SPELLING_ERROR_4" class="blsp-spelling-error"&gt;Foda&lt;/span&gt; mesmo foi o ambiente....&lt;br /&gt;Não, não... Nada assustador, de verdade... Ao menos aos olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele tempo, o prédio do CCH da &lt;a href="http://www.unirio.br/"&gt;Unirio&lt;/a&gt; ficava no mesmo campus que a reitoria, junto com a Escola de Enfermagem e a de Direito. Era um campus vizinho ao campus de outra faculdade, a UFRJ na Urca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A &lt;a href="http://www.unirio.br/cch/eb/index.htm"&gt;Escola de Biblioteconomia&lt;/a&gt; ficava naquele prédio que tinha cara de anos 70. O nosso prédio era  apenas um amontoado de salas comuns (cadeiras com braço de apoio como carteira, uma lousa grande, uma parede-&lt;span id="SPELLING_ERROR_5" class="blsp-spelling-error"&gt;janelão&lt;/span&gt;), as outras dependências dos funcionários, banheiros horríveis como qualquer faculdade pública... Tudo normal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que me incomodava lá era o corredor do térreo. O pavimento térreo ficava no subsolo.&lt;br /&gt;Pois é... A gente tinha que descer uma rampa; alcançar um corredor para; ao fim dele, alcançar o elevador. As salas de aula ficavam pra cima.&lt;br /&gt;Esse subsolo foi aproveitado para colocar as salas de Educação Física, salas para guardar equipamentos e alguns vestiários. O pavimento todo era meio silencioso já que não haviam aulas diárias. O maior movimento ficava mesmo nesse tal corredor, que pra piorar, era mal iluminado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre que eu passava por ali sentia um incômodo.&lt;br /&gt;De início não consegui identificar nada, não sabia explicar o que era. Havia apenas aquela vontade de passar rápido por ali... Fugir...&lt;br /&gt;Mas ao fim da primeira semana os sonhos começaram. Pesadelos, devo dizer...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi num sábado...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes, eu comecei a ter aqueles sonhos repetitivos de que estava em sala de aula ou com os novos amigos. Isso não era nada de se estranhar. Eu estava me integrando a um ambiente novo e é normal que se sonhe com um ambiente novo. Sempre existe aquela mistura de ansiedade e excitação quando se integra um &lt;span id="SPELLING_ERROR_6" class="blsp-spelling-error"&gt;projeto&lt;/span&gt; inédito, como era o caso da faculdade, e eu não fugia à regra...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois é. Naquele sábado estava eu sonhando que me dirigia à faculdade. Andava tranquila, mochila às costas, cabeça na aula... Já tinha atravessado o pátio quando entrei naquele bendito corredor e &lt;span id="SPELLING_ERROR_7" class="blsp-spelling-error"&gt;BAM&lt;/span&gt;!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguém me acertou a cara!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um soco!? Uma paulada!?Acordei com o impacto. - &lt;em&gt;&lt;span id="SPELLING_ERROR_8" class="blsp-spelling-error"&gt;Caraca&lt;/span&gt;! Me deram um cacete!&lt;/em&gt; - estava atordoada na cama. - &lt;em&gt;Ah! Que maluquice...&lt;/em&gt; - pensei. Passei a mão no rosto, pisquei um pouco e - sem dar muita importância - voltei a dormir pois era madrugada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De domingo pra segunda torno a sonhar que estou indo à faculdade. Tudo igual: viro no corredor e... &lt;span id="SPELLING_ERROR_9" class="blsp-spelling-error"&gt;PHOU&lt;/span&gt;!!! - não deu tempo de ver nada, mas escutei alguém rindo. Voz de mulher.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordei de novo. Dessa vez mais chateada do que assustada. - &lt;em&gt;Que merda era aquela? Duas noites seguidas tomando porrada?&lt;/em&gt; - Não iria acordar da próxima vez... se lembrasse de me controlar... e se houvesse uma próxima vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não precisei esperar muito.&lt;br /&gt;Na quarta ou quinta da semana seguinte sonhei novamente com a faculdade. Ganhei lucidez quando ainda passava pelos portões do pátio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que alegria! Ganhar lucidez é uma dádiva. Você fica tão emocionado por estar consciente em um sonho que quer reparar em tudo. As cores, os &lt;span id="SPELLING_ERROR_10" class="blsp-spelling-error"&gt;objetos&lt;/span&gt;, como você está... Eu ao menos sou assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me olhei. Eu era eu mesma. Meus cabelos encaracolados castanhos desciam por meus ombros até minha cintura. Meu corpo esguio de pele clara. Não sabia como estava meu rosto, mas certamente devia ser o mesmo rosto de coelhinha-dentucinha e olhos negros e sem graça de sempre (nunca fui uma beldade, embora - sabe lá Deus como - eu conseguia namorados...). Estava usando meu &lt;span id="SPELLING_ERROR_11" class="blsp-spelling-error"&gt;jeans&lt;/span&gt; justo e surrado, &lt;span id="SPELLING_ERROR_12" class="blsp-spelling-error"&gt;tênis&lt;/span&gt; keds, e uma camisa T-shirt verde que nem tinha na vida real. Dei de ombros. - &lt;span style="font-style: italic;" id="SPELLING_ERROR_13" class="blsp-spelling-error"&gt;Dá pro gasto&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei em volta enquanto caminhava. Era uma versão meio estilizada de minha faculdade. Havia mais verde do que na realidade, mas o prédio principal estava lá tal como eu lembrava dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A memória dos outros sonhos veio clara. Avancei com cuidado. Dessa vez sabendo que havia alguma coisa querendo me bater, então olhava para trás de vez em quando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num primeiro momento, não estranhei muito o fato de não ter ninguém lá além de mim. Eu chegava muito mais cedo do que a maioria dos outros alunos pois ia de &lt;span id="SPELLING_ERROR_14" class="blsp-spelling-error"&gt;carona&lt;/span&gt; com meus pais. Eles tinham que estar às oito no trabalho e me deixavam na faculdade às sete. O problema é que ali eu sabia que estava sonhando. E o fato de não ter ninguém por perto era algo a se considerar. Isso deixava-me a sós com meu agressor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Avancei mais a passos lentos... já conseguia ver a rampa que descia até a entrada do corredor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Pensando bem... eu não precisava passar por aquilo, &lt;span id="SPELLING_ERROR_15" class="blsp-spelling-error"&gt;né&lt;/span&gt;? Eu poderia aproveitar que estava consciente e fazer algo legal no meu sonho... Sei lá... Voar. Ver um amigo. Ver o mar...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Com este pensamento eu fiz meia-volta e foi quando vi o gato aos meus pés.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adoro gatos! Eles são tão adoráveis!&lt;br /&gt;Mas aquele gato não era adorável...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era um gato preto, de cócoras, olhando pro alto. Encarando-me.&lt;br /&gt;Ele estava... morto... em &lt;span id="SPELLING_ERROR_16" class="blsp-spelling-error"&gt;decomposição&lt;/span&gt;. A ponta de sua cauda &lt;span id="SPELLING_ERROR_17" class="blsp-spelling-error"&gt;carcomida&lt;/span&gt; balançando de um lado para o outro...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pavor subiu por minha espinha.&lt;br /&gt;Estava suficientemente lúcida para reparar em suas carnes caídas pelas costas e patas enquanto os ossos das costelas se expunham do outro lado. Vermes se retorciam entrando e saindo do buraco do que fora um dos olhos que me encaravam. Até o fedor de podridão eu pude sentir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meus olhos estavam arregalados, meu estômago ameaçando revirar. Não sabia se devia acordar, ou correr, ou atacar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sinistramente, ele emitiu um miado ameaçador deixando os dentes amarelos à mostra.&lt;br /&gt;Dei um passo para trás com as mãos à frente preparando-me para defender. Para minha surpresa e confusão, ele parecia assustado e correu para longe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu alívio durou segundos. Percebi que ele correra do que estava atrás de mim.&lt;br /&gt;Virei-me, mas não deu tempo para reagir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O vulto feminino me atravessou violentamente com uma estaca fina como um cabo de vassoura.&lt;br /&gt;Pegou na barriga... na boca do estômago. Me curvei, arfando sem ar... A dor irradiando daquele ponto. Minhas pernas tremeram e, segurando o cabo, fui caindo lentamente...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Horrorizada com minha própria morte em sonho, olhei para cima. A mulher - o que restava dela - parecia ser um zumbi. Um corpo deteriorado, esverdeado. Cabelos desgrenhados. Os olhos eram hematomas escuros sorrindo de forma aterrorizante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Eu posso te ver! - disse ela com uma voz inumana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não resisti. Fui ao chão... Escuridão... e acordei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu coração disparou. Estava ofegante.&lt;br /&gt;Sentei na cama e abracei os joelhos apoiando a cabeça neles, tentando me recompor. Controlar a &lt;span id="SPELLING_ERROR_18" class="blsp-spelling-error"&gt;tremedeira&lt;/span&gt; nas mãos. Suas palavras retumbando em minha cabeça: "&lt;em&gt;Eu posso te ver&lt;/em&gt;".... &lt;em&gt;"Eu posso te ver"..."Eu posso te ver!"...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;-- &lt;/span&gt;Eu posso te ver? - fiquei confusa com aquilo - O que significava? E o gato?&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Respirei melhor. Olhei em volta e o quarto estava normal. Minha irmã ressonava em sua cama.&lt;br /&gt;E a dor? Aquilo doeu. Não havia verdadeiramente dor quando acordei. Mas no sonho, doeu. Não era a primeira vez que sentia dor em sonho, mas não contava com aquilo. - &lt;em&gt;O que fazer...?&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Já era cinco da manhã e é &lt;span id="SPELLING_ERROR_19" class="blsp-spelling-corrected"&gt;óbvio&lt;/span&gt; que não consegui dormir de novo. Meia hora depois o &lt;span id="SPELLING_ERROR_20" class="blsp-spelling-error"&gt;ritmo&lt;/span&gt; frenético de nossas manhãs teve início quando minha mãe se levantou. Logo, todos estávamos saindo de casa. Não alarmei ninguém, como de costume, com meus sonhos animados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais tarde, naquele mesmo dia, uma de minhas recentes amigas estava ao meu lado quando comentei o sonho:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Esse seu sonho é interessante... - disse Diva, enquanto guadávamos nossos cadernos - Você sabia que isso aqui já foi um necrotério, &lt;span id="SPELLING_ERROR_21" class="blsp-spelling-error"&gt;Alya&lt;/span&gt;? - explicou ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diva é uma daquelas pessoas que Deus coloca em seu caminho para cumprir uma função e depois saem de cena. Um anjo, por assim dizer. Era a aluna mais velha de nossa turma &lt;span id="SPELLING_ERROR_9" class="blsp-spelling-error"&gt;universitária&lt;/span&gt;. Ela devia ter quase cinquenta anos. A faculdade era um sonho antigo sendo realizado. Apesar de ser &lt;span id="SPELLING_ERROR_10" class="blsp-spelling-error"&gt;&lt;/span&gt; meio matrona, seu semblante &lt;span id="SPELLING_ERROR_11" class="blsp-spelling-error"&gt;transparecia&lt;/span&gt; força e energia. Suas roupas tinham um &lt;span style="font-style: italic;"&gt;quê&lt;/span&gt; de cigana provavelmente pelo visual dos colares e da faixa que usava para arrematar o cabelo puxado num coque. Ela era o tipo de pessoa que combinava alegria e maturidade com grande dose de espiritualidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;--Não brinca! Como é que é!? - perguntei. Minhas sobrancelhas deviam estar no meio da testa com o modo que arregalei meus olhos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Isso mesmo. - continuou ela - Esse campus da &lt;span id="SPELLING_ERROR_22" class="blsp-spelling-error"&gt;UFRJ&lt;/span&gt; ao nosso lado já foi um hospício. A maioria dos pacientes era esquecida pela família... Alguns ficavam aqui a vida toda. Quando morriam eram trazidos para o necrotério, que ficava aqui, - apontou para baixo - até serem resgatados pelos parentes...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Engoli em seco:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- ... E quando os parentes não resgatavam... Levando-se em conta o sistema de refrigeração daqueles tempos... Imagino que isso aqui devia ser bem apavorante... - completei eu fazendo uma imagem mental bem nítida do que queria dizer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Ah! Com certeza entravam em &lt;span id="SPELLING_ERROR_23" class="blsp-spelling-error"&gt;decomposição&lt;/span&gt; antes de serem enterrados... &lt;span id="SPELLING_ERROR_24" class="blsp-spelling-error"&gt;Irrrc&lt;/span&gt;! - repugnou ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei bolada.&lt;br /&gt;Eu juro que não tinha conhecimento daquele fato. Não fazia &lt;span id="SPELLING_ERROR_25" class="blsp-spelling-corrected"&gt;ideia&lt;/span&gt; que o &lt;a href="http://www.olharvirtual.ufrj.br/2009/index.php?id_edicao=243&amp;amp;codigo=3"&gt;&lt;span id="SPELLING_ERROR_26" class="blsp-spelling-error"&gt;campus&lt;/span&gt; &lt;span id="SPELLING_ERROR_27" class="blsp-spelling-error"&gt;Urca&lt;/span&gt; da &lt;span id="SPELLING_ERROR_28" class="blsp-spelling-error"&gt;UFRJ&lt;/span&gt; já fora um &lt;span id="SPELLING_ERROR_29" class="blsp-spelling-error"&gt;manicômio&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Imagine o abandono, a confusão, a raiva, a loucura. Tudo num só lugar... Quanta energia ruim... Imagine se alguém naquela situação pudesse ver outro alguém - sei lá, diferente... - e julgasse essa pessoa como a responsável por sua dor?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Algumas suposições começaram a borbulhar na minha cabeça.&lt;br /&gt;É claro que estava consciente que aquilo tudo poderia não passar de maluquice minha. Coincidência. Mas era muita &lt;span id="SPELLING_ERROR_30" class="blsp-spelling-error"&gt;coincidência&lt;/span&gt; junta. E eu já vivera &lt;span id="SPELLING_ERROR_31" class="blsp-spelling-error"&gt;coincidência&lt;/span&gt; demais, com e sem &lt;span id="SPELLING_ERROR_32" class="blsp-spelling-error"&gt;Agnostha&lt;/span&gt;, para acreditar inocentemente que tudo que se sonha tem explicação Freudiana ou &lt;span id="SPELLING_ERROR_33" class="blsp-spelling-error"&gt;Junguiana&lt;/span&gt;...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não. Eu não ia tomar porrada toda vez que sonhasse com a faculdade. Estava decidido.&lt;br /&gt;Eu não sabia se tinha coragem suficiente... Mas eu tinha que encarar aquela parada... E eu ia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://agnostha.blogspot.com/2010/02/zumbis-parte-2.html"&gt;(C0ntinua)&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6166509029461223532-3727251842837729080?l=agnostha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://agnostha.blogspot.com/feeds/3727251842837729080/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6166509029461223532&amp;postID=3727251842837729080&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/3727251842837729080'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/3727251842837729080'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://agnostha.blogspot.com/2010/01/zumbis-parte-1.html' title='Zumbis (Parte 1)'/><author><name>Agnostha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01959666006463231736</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://2.bp.blogspot.com/_CHP_-J93J6o/S1TD3Zrm6JI/AAAAAAAAAAM/AUnSeLWxstk/S220/Ag1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6166509029461223532.post-1883871640531072871</id><published>2009-12-14T03:50:00.000-08:00</published><updated>2011-10-03T12:51:38.301-07:00</updated><title type='text'>Cigana</title><content type='html'>Era uma galeria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sala comprida era iluminada por candelabros de cristais. As paredes em terracota eram adornadas por &lt;a href="http://ipt.olhares.com/data/big/294/2944415.jpg"&gt;colunas jônicas&lt;/a&gt; que formavam arcos espaçados. No centro de cada arco, a altura dos olhos, havia quadros emoldurados ao estilo Luís XV. Um &lt;a href="http://www.ctac.gov.br/tdb/fotos/fotos/FOTO_0085.JPG"&gt;lugar sóbrio&lt;/a&gt;, mas bonito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha consciência veio tranquila. Sonhava.&lt;br /&gt;Eu estava só, o ar úmido e parado. O silêncio era quase tátil mas não me sentia ameaçada. Percebi-me caminhando quando vim da inconsciência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem... já que estava ali poderia apreciar as obras - pensei. Sempre gostei destas coisas eruditas, apesar de não me considerar uma. Bibliotecas, museus, exposições e coisas deste tipo sempre estiveram na categoria de "diversão" pra mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas qual seria a utilidade de visitar uma galeria em sonho... - pensei eu - Sonhos sem-pé-nem-cabeça me são normais... Nem ponho estes sonhos na conta de sonho lúcido, projeção, nem nada parecido, mesmo que eu esteja semi-consciente (eu sempre sei que estou sonhando). Aquele sonho parecia não ter enredo algum, mas estava estranhamente vívido. Eu caminhava feito uma alma penada silenciosa num salão cheio de quadros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Hummm... os quadros...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Olhei o que estava mais próximo de mim. Parecia borrado... um jardim de &lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Monet"&gt;Monet&lt;/a&gt;?&lt;br /&gt;Avancei mais um pouco... o segundo... sei lá... tons de cinza e azul... uma mesa ou estrada... ou corredor em perspectiva?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava difícil.... Os quadros iam mudando de padrões no momento em que eu os encarava. Lembravam arte &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Pontilhismo"&gt;pontilhista&lt;/a&gt;... depois &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Cubismo"&gt;cubista&lt;/a&gt;... Embaçados... Embaralhados...&lt;br /&gt;Dava dor-de-cabeça tentar focá-los.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era estranho.&lt;br /&gt;Quando olhava para eles um pouco mais de longe, conseguia identificar alguma coisa: um quadro com uma dama de chapéu... Um de carruagem... E aquele outro? Que era aquilo?... Roedores num prato?... Todos seguiam o mesmo padrão indefinido... Mutante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encarava-os de cenho franzido. Droga! Me doíam os olhos... Mas por que será que estou aqui? Continuei andando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passei por uma moldura. Meu reflexo lampejou... Um vulto negro e grande...&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Ah!!! Putz! Que susto!&lt;/span&gt; - exclamei. Era um espelho. Espremi os olhos e os arregalei em seguida - &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Aaah! Agnostha!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu reflexo espelhava Agnostha. Estava Agnostha. Seu corpo cintilava à luz dos candelabros. Olhei automaticamente para minhas mãos.... &lt;span&gt;Humanas&lt;/span&gt;. - &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Ãh!?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Olhei meu corpo... humano?... vestindo um camisolão branco. Pés descalços. - &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Mas... hein!?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ergui a cabeça para olhar o espelho de novo e o reflexo respondeu... era ela... quer dizer, eu... Grande, e de um grafiti quase negro, os olhos brancos cintilando pérolas, com ar de surpresa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Ai, puxa vida... isso é tão cliché... - &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:0;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;pensei &lt;/span&gt;-&lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt; ...isso de você parecer uma coisa e seu reflexo espelhar outra.&lt;/span&gt; &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Já vi isso em vários filmes...&lt;/span&gt; - ri para mim mesma&lt;span style="font-style: italic;"&gt;. - Esse sonho tá esquisito mesmo... - &lt;/span&gt;&lt;span&gt;àquela altura Agnostha já não me era estranha. Eu estava mais que acostumada&lt;/span&gt;&lt;span&gt; com ela. - &lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Bem... Pelo menos acho que nada de mal vai me acontecer...&lt;/span&gt; - e balancei a cabeça deixando o espelho para trás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segui para o fundo da sala. Um último quadro grande estava pendurado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este não estava borrado. Ao contrário. Eram um quadro bem nítido.&lt;br /&gt;Uma cena &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Art_Nouveau"&gt;Art nouveau&lt;/a&gt;: um cavalheiro de fraque e cartola ao pé de uma escadaria floreada segurando suas luvas e bengala. Olhava para o alto da escada como se fosse subi-la ou aguardasse alguém descê-la.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era bonito... se bem que num primeiro momento achei que o carinha pintado me lembrava o &lt;a href="http://www.universohq.com/quadrinhos/2007/imagens/mandrakeMovie1.jpg"&gt;Mandrake&lt;/a&gt;... Sorri.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Continuei olhando...olhando.... E enquanto olhava fui sendo tomada por um sentimento estranho... Uma certa ansiedade começou a borbulhar em meu estômago.... Algo incomodava... Senti-me intranquila.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me aproximei. Inclinei a cabeça diante do quadro. Olhei mais... Seria um cavalheiro... não... não só um cavalheiro... Um enamorado?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao pensar naquilo meus joelhos ficaram meio... moles. Meu corpo parecia... sei lá... morno. Minha respiração ficou irregular e os batimentos descompassados.&lt;br /&gt;Me deu ânsia de correr dali como se o cara do quadro pudesse sair da pintura e me pegar... meus pés não respondiam... encarava-o. Ele era bonito. Bonito?... &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Vai sair do quadro!... Eu queria que ele me pegasse?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luz!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordei, do nada, com aquela imagem na cabeça. O cavalheiro.&lt;br /&gt;Bah!... Quanta besteira!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levantei e fui tomar meu banho. Minha irmã já tinha ido para a escola e meus pais e irmão, pro trabalho. Estava só em casa pelo menos até o almoço. Aquele dia ficaria mais interessante quando meus pais retornassem. Iríamos sair a tarde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava com 18 anos e recentemente havia feito minha matrícula para o primeiro período da faculdade. Estava vivendo dias de marasmo - aquele período em que você está desempregado, sem escola e esperando as aulas da faculdade começarem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia ansiendade pelo início das aulas.... isso poderia explicar a noite estranha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto me banhava, lembrava de como tinha crescido mental e fisicamente. Acho que tive uma adolescência bem legal. Aquela garota introvertida, que se tornou Agnostha aos 13 anos, mudara bastante. Acho que, em grande parte, devido a ela...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tornar-me heroína de meus próprios sonhos deu-me segurança na vida real também.&lt;br /&gt;Consegui um certo destaque na escola e no ginásio - chegando a ser popular entre alunos e professores (&lt;em&gt;pois é... que nem aqueles filmes americanos que tem a fulaninha popular). &lt;/em&gt;Saía mais. Ia para as festinhas americanas, para as festinhas de rua, festa junina... Fortaleci-me. E mesmo as eventuais brigas de meus pais em casa (isso demorou a passar....) já não assustavam tanto. Eles que se entendessem... eu daria meu apoio aos dois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Namorei bastante também (meu primeiro beijo foi sobre uma bicicleta!) apesar de não me achar bonita. Espere aí... Namorei?&lt;br /&gt;Hum... Acho que "ficar" é a palavra mais correta. "Fiquei" bastante... Beijei muuuuito!&lt;br /&gt;Fala sério... Detestava namorar. Quero dizer... Namorar firme.&lt;br /&gt;Namorar implicava em compromisso. E isso eu não queria. Tava fora!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhando por este lado - o lado dos namoros - eu não estava &lt;span style="font-style: italic;"&gt;bem na fita&lt;/span&gt; com meus pais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu já estava, como disse, com 18 e quase não namorava "oficialmente". E isso os decepcionava um pouco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sabe como é? Eu era a mais velha. Estudiosa, responsável, jovem... Era a moça da casa. E quando você chega nesta fase, pronto... a família começa a cobrar casamento, pretendentes, compromisso. Os pais querem que seus filhos se encaminhem na vida. Querem mostrar à sociedade que fizeram um bom trabalho na criação dos rebentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meus pais não cobravam abertamente, mas ficavam meio receosos quando me viam sair com Deguinha, minha amiga, e só e sempre com ela. Nenhum rapaz. Sendo mulher e nunca sendo vista acompanhada - eu nunca levava ninguem lá em casa... - os parentes fofoqueiros - eu sabia - começaram a falar... "Será ainda virgem?", "Não é!", "Não fica com ninguém!", "Deve ter problema!", "Será sapatão?", "Só quer estudar!", "Deve ser chata!", "Encalhada"... e por aí seguia. Eu não estava nem aí para os comentários.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me lembro bem: quando ficava com alguém e o cara falava que queria conhecer meus pais, eu puff!... Saltava fora. Isso aí. Terminava mesmo.&lt;br /&gt;As poucas vezes em que os namoros evoluíram para a fase da apresentação; os poucos que conseguiram ser apresentados aos meus pais (...e isso dá pra contar nos dedos de uma só mão antes de chegar ao 5...) foram namoros que não duraram nem 3 meses. Meus pais reclamavam de que quando &lt;span style="font-style: italic;"&gt;eles&lt;/span&gt; estavam se apegando a alguém, eu "chutava" o cara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A verdade é que &lt;span style="font-style: italic;"&gt;eu&lt;/span&gt; não me apegava a ninguém... Era tudo passatempo...&lt;br /&gt;Acho que quando ganhei confiança em mim mesma, fiquei também mais independente. De certo modo, apesar de apreciar belos rostos e corpos, achava que, no geral, os garotos eram sempre desinteressantes... Além do mais, eu não queria saber de namorado a sério. Era jovem e iria concentrar meus esforços em minha individualidade. Queria estar livre pra curtir minha fase de faculdade, me formar, e depois trabalhar e ir morar sozinha. Sair de casa era meu maior sonho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse era o plano, "Meu Glorioso Plano": ser a garota independente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos os meus sonhos giravam em torno de ser autossuficiente.&lt;br /&gt;Ter meu apartamento, minhas coisas, meu carro, meu dinheiro. Poder viajar sem ter que me explicar para ninguém ou ter a obrigação de voltar. Conhecer o mundo com minhas próprias economias...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para isso eu seguiria uma linha reta: estudar, me formar e trabalhar. Nada, nem ninguém, me moveria daquilo. Nada de se encantar com ninguém que não fosse apenas distração. Sem compromissos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acho que foi por isso - pra saber o que ia em meu coração - que minha mãe me convidou para visitar uma cigana com ela... com a desculpa de fazer previsões de Ano Novo (minha família sempre teve um pezinho lá na senzala, no terreiro... e na fogueira as bruxas. Minha bisavó era uma cigana espanhola que se casou com um português e veio para o Brasil. Meu avô materno era filho de índios com negros - mameluco. Só meus avós paternos escapam da mistura. Eram italianos. É muita cultura misturada). E eu, exotérica como sempre, concordei em ir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passei a manhã dando um jeitinho na casa (não tínhamos empregada...). Eles chegaram por volta das 14h e após me vestir saímos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meia hora depois estávamos lá. A casa era simples mas agradável aos olhos. Qualquer um que chegasse ali não concluiria que se tratava da casa de uma espírita cigana. No interior, cores claras. Sofás confortáveis ladeados por abajures em tons pastel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficamos eu e minha mãe ali na sala aguardando nossa "consulta"(meu pai aproveitou para resolver problemas bancários e saltou fora... não queria saber daquelas coisas...). A moça que nos atendeu dissera que sua mãe estava se vestindo e que já nos atenderia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu já estava arrependida. Como é que deixei minha mãe me convencer? Curiosidade é uma merda! Vai que ela fala alguma coisa que eu não gostaria de saber! Vai que ela fala que eu iria morrer? Que eu iria sofrer um acidente? Ficar aleijada?&lt;br /&gt;Fiquei batendo o pé enquanto esperava. Impaciente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalmente, uma senhora sorridente de uns 60 anos chega à sala. Estava vestida a caráter, mas sem exageros. Uma blusa de linho e lesi amarela, uma saia vermelha com fios dourados, um lenço de organza também vermelho sobre a cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após as apresentações, ela chamou minha mãe primeiro que a seguiu até a um vestíbulo cuja porta ficava no corredor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei lá na sala esperando a consulta acabar. Aposto que a mamy estava perguntando sobre seu casamento... Enquanto isso a moça me trouxe um café. Eu aceitei de bom grado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que será que eu gostaria de saber sobre minha vida? - pensava eu - Tudo estava tão parado pra mim...Todo o mundo que eu conhecia estava mais ou menos no mesmo esquema: fazendo cursinho pré-vestibular, concursando ou tentando um emprego...&lt;br /&gt;Desde que passara pra faculdade há dois meses, quase não saía... Também pudera... Fora um período muito exaustivo tendo que estudar aquilo tudo. A exaustão do vestibular foi tanta que tive até uma paralisia num braço. Fui parar no pronto-socorro. - balancei a cabeça - Não queria pensar naquilo... Naquele outro sonho maluco... O sonho em que meu braço "fantasma" não colava em meu braço "real" e nesse desespero acordei sem o tato no bendito membro. Levei uma semana para recuperar-me totalmente. No final, a conclusão era de "estafa". "Estafa"... Sei... Minhas noites é que não eram normais mesmo... - pus a mão no queixo e ri sem querer - Aliás, confesso que se não fossem minhas noites serem animadas de vez em quando, eu provavelmente, teria morrido de tédio naquele período.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse momento lembrei-me do sonho matinal... &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Bah! Sonho bobo...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava rememorando aquilo tudo quando minha mãe reapareceu. Estava sorrindo. Deve ter tido boas notícias....&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Agora é sua vez, meu bem. - disse a senhora com um sorriso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levantei insegura. Lancei um último olhar pra minha mãe que acenou com a cabeça: vai!&lt;br /&gt;Suspirei e acompanhei a senhora até o vestíbulo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na salinha, tudo muito simples também. Uma pequena mesa quadrada forrada com uma toalha branca e um caminho em cetim vermelho onde as cartas repousavam. Uma vela acesa em um dos cantos.&lt;br /&gt;A janela tinha cortinas fininhas que deixavam entrar o sol da tarde, clareando o ambiente, mas deixando aquele aspecto meio surreal em tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentei na cadeira da consulente e ela tomou sua posição. Fechou os olhos e começou a orar. Acho que era um Pai-Nosso... não... talvez o Credo... ela sussurrava. Fiquei quieta e comportada. Olhei a pilha de cartas. Eram maiores que um baralho comum. A face que via era decorada com arabescos vermelhos e brancos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As mãos da senhora avançaram sobre a mesa e ela pegou as minhas que repousavam na beira.&lt;br /&gt;Ela me olhou por um breve momento e entendi que devia me concentrar com ela. Através de minhas mãos senti que ela tremeu rapidamente e no segundo seguinte não era a senhora que estava ali comigo, mas sim o espírito da tal Cigana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Então, filha minha. - disse ela - Vamos ver o que as cartas têm a dizer-te.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei para ela e tive a impressão de que aquela senhora parecia mais jovem. Suas sobrancelhas se arqueavam parecendo muito mais negras agora. Ela começou a embaralhar agilmente as grandes cartas. Pediu que eu as cortasse em 3 montes e depois de reajuntá-las as distribuiu em algumas fileiras sobre a mesa. A medida que ela ia virando as carta eu ficava mais inquieta. Incomodada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma estranha sensação de familiaridade assomava-se sobre mim apesar de eu nunca ter visto aquele tipo de tarot antes. As imagens eram ricamente ilustradas. Art nouveau...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Meu Deus! Meus quadros!&lt;/span&gt; - um arrepio percorreu minha espinha se espalhando pela nuca e braços quando reconheci.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não sei que cara fazia enquanto a via enfileirar as imagens que consegui me lembrar de ter visto borradas em minha galeria onírica. A carruagem, a dama, os roedores, flores...&lt;br /&gt;Meu olhos arregaldos, certamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A última fileira era composta de 3 cartas que ela manteve viradas. Eu já estava assustada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com uma técnica que nunca vira antes, ela começou a ler pra mim. Ela tocava as cartas uma a uma com o dedo indicador direito, dizia seu significado e com a mesma mão recolhia a fileira na direção oposta, batendo cada montinho recolhido três vezes sobre a mesa antes de somá-los ao monte precedente. Sua voz saía como uma ladainha, baixa, usando todo o ar, chegando quase ao limite de seu fôlego. Lembrava uma oração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficava difícil acompanhar as revelações e o ritmo frenético com que ela apontava e recolhia as cartas. Suas frases eram pontuadas pelas palavras: "Filha minha".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela falou muito.&lt;br /&gt;Das coisas que me lembro, - e que pude entender - a imagem dos roedores (eram ratos) associavam-se à palavra "desgaste"... Desgaste de energia. A carruagem, na posição em que estava, significava "viagens" nacionais e internacionais. A dama na ilustração relacionava-se à "influência", as flores, à "vitória dos esforços de trabalho", e assim foi...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Achei tudo de uma banalidade total. Só me chamou a atenção ela ter visto que eu me recuperava de algum problema nas mãos (na verdade era no braço - a paralisia) e que eu tomasse cuidado com "correntes d' água". Huh... até aí nada. Acho que teria conseguido ler aquele tarot eu mesma...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi aí que ela chegou até a última fileira. Virou as últimas três cartas.&lt;br /&gt;Com desenhos floreados e cheios de detalhes, estavam lá a "Estrela", os "Enamorados"... e, ao pé da escadaria, lá estava meu "Cavalheiro"... na verdade, o "Amante". Não havia como ter dúvidas. &lt;span style="font-style: italic;"&gt;- Caraca!!! Eu devia estar preparada...! Se tudo me era familiar até ali!&lt;/span&gt; - Mas não adiantou, meus olhos estavam mais arregalados e engoli em seco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela pegou justo a carta do "Amante" nas mãos e, fugindo do padrão que seguira até então, mostrou-a pra mim:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Filha minha, conhecerá um rapaz. Seu coração espera por ele. Não demorará. Ele também espera por ti. - sua voz parecia uma profecia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentia-me confusa e surpresa. Ela continuou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Ele será importante pra você, filha minha. Fará diferença.... Mas... - mudou o tom sinistramente - Você ainda é muito jovem... E ele também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Ela tava brincando, né?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Pô... vou lá pra saber de estudo, trabalho, e profissão, e ela me vem com esse papo de namorado?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquilo me incomodou, mas, após o susto inicial me controlei e fiz cara de paisagem.&lt;br /&gt;Ela pousou a carta sobre a mesa e me encarou. Acho que ela notou alguma coisa em minha expressão:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;--Filha minha... Ninguém é uma fortaleza solitária...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela levantou-se. Segurou minhas mãos (estavam frias) e após um rápido tremor vi aquele alterego jovem dar lugar a senhora sorridente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;--E então? Gostou da consulta? - perguntou ela. Era outra pessoa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me limitei a acenar um "sim" com a cabeça. Estava meio confusa com a sequência - meus quadros eram as cartas... Cavalheiro que era amante... Fortaleza... - Saí de lá meio bamba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que meu futuro reservava pra mim?&lt;br /&gt;Não via a hora das aulas começarem...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://agnostha.blogspot.com/2010/01/zumbis-parte-1.html"&gt;(Continua)&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6166509029461223532-1883871640531072871?l=agnostha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://agnostha.blogspot.com/feeds/1883871640531072871/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6166509029461223532&amp;postID=1883871640531072871&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/1883871640531072871'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/1883871640531072871'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://agnostha.blogspot.com/2009/12/cigana.html' title='Cigana'/><author><name>Agnostha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01959666006463231736</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://2.bp.blogspot.com/_CHP_-J93J6o/S1TD3Zrm6JI/AAAAAAAAAAM/AUnSeLWxstk/S220/Ag1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6166509029461223532.post-3845147397673998214</id><published>2009-11-23T03:43:00.000-08:00</published><updated>2011-08-02T14:41:50.538-07:00</updated><title type='text'>Mix (Parte 4)</title><content type='html'>Era tudo tão insólito que eu já nem ligava.&lt;br /&gt;O que pensar? Estava flutuando através de colunas de concreto e metal, com uma estrela pairando sobre minha mão, à procura de um bebê morto para entregá-lo a uma mulher morta, para levar a ambos para o céu. Simples assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embotei um pouco o raciocínio e foquei em cumprir minha tarefa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A estrela era uma bússola eficiente. Eu desviava um pouco e seu brilho diminuía, eu virava para a &lt;span id="SPELLING_ERROR_0" class="blsp-spelling-error"&gt;direção&lt;/span&gt; certa e seu brilho &lt;span id="SPELLING_ERROR_1" class="blsp-spelling-error"&gt;intensificava&lt;/span&gt;. De repente eu lembrei de que não gostaria de ver uma criança morta como vira a mãe... Acho que choraria se o visse...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como se uma &lt;span id="SPELLING_ERROR_2" class="blsp-spelling-error"&gt;inteligência&lt;/span&gt; superior me ouvisse, o cenário mudou. Como se reconstruído, ele voltou a ser o hospital e eu vagava por um dos corredores, agora menos iluminados. Era como um filme sobreposto: o filme bonito rolando sobre o filme feio... eu sabia. Não sei como sabia, mas sabia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Notei que a surdez fora removida, no entanto, ainda não ouvia outras pessoas. Nem as via. Era como se tivessem fechado meu foco... um &lt;span id="SPELLING_ERROR_3" class="blsp-spelling-error"&gt;objetivo&lt;/span&gt;. Faça! E assim avançava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Virei num corredor e vi a sala onde estariam os &lt;span id="SPELLING_ERROR_4" class="blsp-spelling-error"&gt;bebês&lt;/span&gt;. Estava escura. Mesmo assim, quando entrei nela, vi claramente que havia somente &lt;span id="SPELLING_ERROR_5" class="blsp-spelling-error"&gt;bercinhos&lt;/span&gt; vazios. Aquilo me confundiu um pouco. &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Já haviam levado os &lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;" id="SPELLING_ERROR_6" class="blsp-spelling-error"&gt;bebês&lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim. Os &lt;span id="SPELLING_ERROR_7" class="blsp-spelling-error"&gt;bebês&lt;/span&gt; já haviam sido levados... Pelo menos todos aqueles que queriam ser encontrados pelos entes queridos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;...Todos aqueles que queriam ser encontrados pelos entes queridos...&lt;/em&gt; &lt;span id="SPELLING_ERROR_8" class="blsp-spelling-error"&gt;Hum&lt;/span&gt;... - minha alma gemeu - Elevei a mão que segurava a estrela usando-a como a um candeeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;--Vamos pequenino... Ela o quer! Apareça! - disse mentalmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente a estrela em minha mão fulgurou como um pequeno sol e a sala inteira iluminou-se como o dia. Por um segundo meus olhos foram ofuscados pela claridade e no segundo seguinte consegui ver o &lt;span id="SPELLING_ERROR_9" class="blsp-spelling-error"&gt;solzinho&lt;/span&gt; que saíra de minha mão pairar sobre um dos berços descendo suavemente. Fiquei onde estava, um pouco perplexa. Um corpinho começou a se formar em torno da estrela que agora era o coração. A luz foi diminuindo inversamente &lt;span id="SPELLING_ERROR_10" class="blsp-spelling-error"&gt;proporcional&lt;/span&gt; aos contornos que apareciam em seu lugar. Alguns momentos depois estava aquela coisinha se mexendo sobre o colchão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;--Você está aí... - disse sorrindo...e quase chorando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era o bebê. &lt;span id="SPELLING_ERROR_11" class="blsp-spelling-error"&gt;Nú&lt;/span&gt;. Um menino &lt;span id="SPELLING_ERROR_12" class="blsp-spelling-error"&gt;recém&lt;/span&gt;-nascido, bem pequeno. Tinha cabelos negros fininhos sobre a cabeça e &lt;span id="SPELLING_ERROR_13" class="blsp-spelling-error"&gt;dedinhos&lt;/span&gt; compridos com braços gordinhos. Seus olhos eram grandes e negros. Olhavam-me como se soubessem quem, ou o quê, eu era. Ficou batendo as &lt;span id="SPELLING_ERROR_14" class="blsp-spelling-error"&gt;perninhas&lt;/span&gt; e as &lt;span id="SPELLING_ERROR_15" class="blsp-spelling-error"&gt;mãozinhas&lt;/span&gt; descoordenadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me aproximei e o peguei do berço... &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Nunca tive jeito com crianças, ainda mais &lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;" id="SPELLING_ERROR_16" class="blsp-spelling-error"&gt;bebês&lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;... e lá estava eu dando uma de anjo..&lt;/span&gt;. pensei.&lt;br /&gt;Aconcheguei-o a meu peito. Ele não chorou nem por um momento... eu em lágrimas. Flutuamos dali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A volta foi rápida e nem precisei chamar. A energia dela, a mãe da criança, encontrou-me no caminho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;--¡Mi &lt;span id="SPELLING_ERROR_17" class="blsp-spelling-error"&gt;hijo&lt;/span&gt;!- exclamou em júbilo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não disse nada. Já estava muito emocionada. Passei o bebê para seus braços que carinhosamente apertaram o rosto dele conta o dela. Seus olhos fechados com lágrimas descendo sobre a face enquanto murmurava frases de &lt;span id="SPELLING_ERROR_18" class="blsp-spelling-error"&gt;afeto&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei olhando. Me segurando. Já estava chorando, sem soluçar. Nesse momento aquela estranha certeza me voltou e estendi minha mão a ela, que sorrindo a segurou. Flutuei tirando-nos dos escombros como um fantasma. O cenário feio de novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;--¡&lt;span id="SPELLING_ERROR_19" class="blsp-spelling-error"&gt;Muchas&lt;/span&gt; &lt;span id="SPELLING_ERROR_20" class="blsp-spelling-error"&gt;gracías&lt;/span&gt;! - balbuciou ela pra mim quando pousamos sobre os escombros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sorrindo, senti que não estávamos sós. Senti presenças ao meu lado. Eram adultos. Não me virei para olhar. O clima era bom, então confiei.&lt;br /&gt;Íamos subir. Soube. Sempre saberia. Agora &lt;em&gt;eu &lt;/em&gt;era &lt;span id="SPELLING_ERROR_21" class="blsp-spelling-error"&gt;Agnostha&lt;/span&gt;...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A moça estava tranquila. Seu bebê ao colo. Ela acenou com a cabeça assentindo para aqueles que eu não vira. Estava pronta agora. Senti um bolsão de energia se formar. Como num elevador, todos subimos juntos: Eu, a moça com o bebê de feição feliz, e os que estavam a meu lado. Olhei pra cima... &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Ia para o céu também?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sensação foi estranha... A medida que subia, acordava, caindo em meu corpo. Não dá para explicar isso....&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordei calmamente, com lágrimas nos olhos. Estava muito feliz. Orgulhosa de mim mesma.&lt;br /&gt;No café da manhã, cheguei a comentar com minha mãe que tivera um sonho bonito naquela noite, mas não entrei em detalhes... iria assustá-la...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mais engraçado é que só fiquei sabendo do terremoto no México dias depois... Eu quase não via TV e era época de provas de quarto bimestre, eu tinha que estudar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando soube fiquei meio confusa, mas não posso relacionar meu sonho com nada que tenha ocorrido lá realmente... Quero dizer... Não pode ser &lt;span id="SPELLING_ERROR_22" class="blsp-spelling-error"&gt;clarividência&lt;/span&gt;, nem &lt;span id="SPELLING_ERROR_23" class="blsp-spelling-error"&gt;mediunidade&lt;/span&gt;, nem nada disso... Acho que não... Acho que sou só &lt;span id="SPELLING_ERROR_24" class="blsp-spelling-error"&gt;supercriativa&lt;/span&gt;.... Eu acho...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fato é que estar &lt;span id="SPELLING_ERROR_25" class="blsp-spelling-error"&gt;Agnostha&lt;/span&gt; só diz respeito a mim. O que significou tornar-me &lt;span id="SPELLING_ERROR_26" class="blsp-spelling-error"&gt;Agnostha&lt;/span&gt;?&lt;br /&gt;Sei lá! Quando é que um adolescente toma &lt;span id="SPELLING_ERROR_27" class="blsp-spelling-corrected"&gt;consciência&lt;/span&gt; de sua posição em relação ao mundo que o cerca? Como é que ocorrem os mecanismos do amadurecimento? O cérebro cresce? Nascem &lt;span id="SPELLING_ERROR_28" class="blsp-spelling-error"&gt;neurônios&lt;/span&gt;? Eu não sou psicóloga muito menos &lt;span id="SPELLING_ERROR_29" class="blsp-spelling-corrected"&gt;neurologista&lt;/span&gt;, então vocês vão ter que pesquisar isso pela &lt;span id="SPELLING_ERROR_30" class="blsp-spelling-corrected"&gt;Internet&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De qualquer forma, acho que foi isso que ocorreu comigo naquela noite... Acho que cresci. Entendi minha posição na família, em relação ao problema de meus pais, separei nossas vidas pessoais, desvinculei minha vida da vida amorosa deles. Eu continuaria crescendo e vivendo, eles se separassem ou não. Eu seria forte. Daria todo o apoio necessário aos dois se precisassem de mim, mas teria minha própria vida pra cuidar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O interessante é que a &lt;span id="SPELLING_ERROR_31" class="blsp-spelling-error"&gt;adolescência&lt;/span&gt; passou.. a juventude chegou e...continuei &lt;span id="SPELLING_ERROR_32" class="blsp-spelling-error"&gt;Agnostha&lt;/span&gt;. A juventude passou...com seus amores e dores e ... Fato é que sou assim até hoje.&lt;br /&gt;Depois que tive aquele &lt;a href="http://agnostha.blogspot.com/2009/09/flutuando-parte1.html"&gt;desdobramento astral&lt;/a&gt;, já adulta, as coisas pioraram mais um pouco... Fiquei mais maluca?... sei lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se ainda estiver interessado... vou lhe contar como a realidade e a ficção começaram, &lt;span id="SPELLING_ERROR_33" class="blsp-spelling-error"&gt;sutilmente&lt;/span&gt;, a se misturar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6166509029461223532-3845147397673998214?l=agnostha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://agnostha.blogspot.com/feeds/3845147397673998214/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6166509029461223532&amp;postID=3845147397673998214&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/3845147397673998214'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/3845147397673998214'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://agnostha.blogspot.com/2009/11/mix-parte-4_24.html' title='Mix (Parte 4)'/><author><name>Agnostha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01959666006463231736</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://2.bp.blogspot.com/_CHP_-J93J6o/S1TD3Zrm6JI/AAAAAAAAAAM/AUnSeLWxstk/S220/Ag1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6166509029461223532.post-2535598789891888503</id><published>2009-11-05T04:57:00.000-08:00</published><updated>2011-10-03T12:32:30.416-07:00</updated><title type='text'>Mix (Parte 3)</title><content type='html'>Aquele momento foi mágico. Apesar de toda dor em volta, eu senti a magia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estávamos de pé, de frente uma para outra sobre aquele monturo de cascalho. Eu era mais baixa uns 40 centímetros que ela, com seus 2 metros de altura.&lt;br /&gt;Olhei pra cima com determinação:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Estou pronta. - respirei&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrelaçamos as mãos como duas amigas a brincar de roda.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Eu e você somos uma só. Somos a mesma.&lt;/em&gt; Entendi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela me deu um olhar carinhoso e imediatamente vi. Vi quando sua cor foi lentamente mudando de grafite para prateada. Mas ela não estava ficando prateada, era só uma impressão. Na verdade era uma luz que emanava de seu corpo, deixando tudo claro em volta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A claridade foi aumentando e não conseguia mais ver sua expressão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A luz, agora ofuscante, começou a fluir para meus braços. Como se fosse água. Como se eu tivesse posto minhas mãos num riacho de luz.&lt;br /&gt;A luz escorreu pelos meus braços, subindo pelos meus ombros e, num lampejo branco, todo o meu corpo se iluminou também. Eu era luz!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em volta, tudo estava branco também. Eu não via mais aonde estava... nem Agnostha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comecei a ouvir um acorde pulsante e por segundos vi-me de volta a meu quarto. &lt;em&gt;Cadê a luz?&lt;/em&gt; Não sentia a cama... O quarto parecia balançar (&lt;em&gt;Ou era eu tendo um espasmo?&lt;/em&gt;).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um calor agradável banhou meu corpo e me esforcei por não despertar daquilo... Era bom. Eu me sentia morna. Pareceu-me que eu estava girando sobre meu próprio eixo, solta no espaço como um astronauta vagando fora de sua nave.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sonhava de novo. Estava mesmo no espaço. Enquanto flutuava girando, raios de luz vinham do infinito e, &lt;a href="http://www.disney.com.br/DVD/encantada/"&gt;&lt;/a&gt;atingindo minha pele, metalizavam-me. Tornava a brilhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me sentia estranha. &lt;em&gt;Já não era estranho o bastante?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O som castigava meus ouvidos e eu podia sentir a luz sendo gravada sobre meu corpo. Aquilo foi aumentando... aumentando..., meu corpo todo coberto, tudo era luz... Já não conseguia pensar direito... Girando, girando, queimando, queimando, brilhando, brilhando... Até que, como se fosse uma montagem de mil pecinhas de lego, eu estava reconstruída, de pé sobre o monturo de cascalho do sonho. O mesmo sonho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dessa vez estranhei pra valer... Diferente. Respirei ofegante (&lt;em&gt;Será que meu corpo estava ofegante também em meu quarto?&lt;/em&gt;). Olhei em volta e estava só. Mas não sentia-me sozinha. A escuridão pesava e no entanto enxergava perfeitamente os contornos do que restara do prédio. Levei um segundo para perceber a diferença em mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não via mais minha personagem... Eu &lt;strong&gt;era&lt;/strong&gt; ela!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Cara!!! Que coisa incrível!!!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde quando tinha começado a sonhar com Agnostha eu passara a idolatrá-la como minha heroína... Achava que ela seria minha &lt;em&gt;personal superherói&lt;/em&gt; para sempre... Nunca tinha pensado em me tornar heroína de mim mesma... Agora estava ali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei meus braços e eles estavam espelhados e negros... Grafite-escuro. Virei as palmas para cima e para baixo tentando imaginar como metal poderia ter movimento... Olhei meu corpo e assustei-me com a altura (&lt;span style="font-style: italic;"&gt;até hoje me assusto. Não cresci muito depois daquilo, apesar de ter um 1,71m hoje...&lt;/span&gt;). Sorri... só os lábios se moveram. Me sentia incrivelmente forte e segura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Meu Deus! Meu Deus! Como!? Caraca!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Suspirei - &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Dezencana, Alya!&lt;/span&gt; - Não tinha tempo para ficar me admirando. Uma certeza aguda de que tinha trabalho a fazer tirou-me daquele momento de surpresa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tornei a minha forma humana. Como fiz isso? Apenas desejei e pronto. Sabia que a moça iria assustar-se em ver um ser tão estranho como Agnostha. Ela não estranharia uma garota.&lt;br /&gt;Como sabia? Não sei como sabia... só sei que sabia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era eu mesma de novo. Usava vestes brancas. Ainda sentia Agnostha dentro de mim - como até hoje sinto - sabia que podia invocá-la a qualquer hora. Então não me preocupei. Não tive medo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Flutuei para dentro dos escombros. Era um sentimento estranho... Podia sentir as pedras e o aço das colunas retorcidas, mas elas não resistiam a mim. Via através delas como se fossem um raio-x colorido. Simplesmente as atravessava - &lt;em&gt;posso, por assim dizer, que sei exatamente como um fantasma se sente.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caminhei(?) por dentro dos escombros e vi um corpo a uns metros de mim. Parei. A moça.&lt;br /&gt;Sabia que veria aquilo. Era um trapo roxo-escuro, esmagado, contorcido e ensanguentado por sobre os metais da cama também retorcida. Para qualquer um, ver aquilo seria motivo para acordar gritando em desespero... Respirei e chamei calmamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Senhora?&lt;br /&gt;-- ¿Quién és? - ela respondeu em espanhol. Eu ainda não falava espanhol na época, mas entendi.&lt;br /&gt;-- Vim ajudar.... Vou encontrar seu filho. - acho que fui compreendida...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Subitamente ela materializou-se diante de mim. Era a mesma moça de antes do desabamento. O corpo ficou lá.&lt;br /&gt;Sua expressão era triste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Pobre niña... ¿También estás muerta? - sua cabeça de lado ao olhar pra mim. Para todos os efeitos, eu era uma adolescente, mais jovem que ela. Ela me tomou por uma fantasma também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem... ao menos ela já tinha consciência de que estava morta... Acho que Agnostha já havia falado com ela antes de nós... Meu pensamento foi interrompido:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Yo tuve una hija como tú... tendría tu edad se no tuviera abortado.... - falou tocando meu cabelo maternalmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estremeci, mas entendi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela sabia que a hora de seu julgamento - ou o que quer que nos esperasse no "céu" - havia chegado. Ela havia negado a primeira criança abortando-a há muitos anos atrás quando a vida em sua vila estava difícil. Pedro vivia na guerrilha... Ela tinha que vender doces aos andarilhos. Eventualmente teve que se prostituir para conseguir dinheiro para comer... E agora que a vida melhorava, veio o segundo filho. Ela ia entregá-lo a uma família americana. Seria bom para o pequenino. Com o dinheiro, ela poderia se mudar de vez para o centro e trabalhar com a... &lt;em&gt;Ai! Que jorro de informações entravam na minha cabeça!!! &lt;/em&gt;Bem... agora estava arrependida. Queria a criança. Ia subir - ou descer- com ela! Nada mais interessava! Então poderia curtir sua maternidade afinal... Criar a criança no "céu"... sei lá. - levei a mão à testa - &lt;em&gt;Ai!!! Devagar!!! Eu não falo espanhol!!!&lt;/em&gt; - Balancei a cabeça tentando me livrar daquela confusão. Aquele jorro de informações. Eu já tinha entendido. Olhei nos olhos dela e tentei transmitir conforto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Você queria mesmo ter sido mãe? - falei/pensei pra ela com um toque bem doce na "voz".&lt;br /&gt;-- Sí... lo quería.... - e baixou a cabeça tristonha. Ela pensou em seu filho com amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vi claramente quando uma pequena estrela brilhou em seu peito... e flutuou para fora dela...&lt;br /&gt;Estendi a mão instintivamente e ela pairou a centímetros de mim, flutuando sobre minha palma. Soube de imediato que aquele pequeno ponto de luz seria minha bússola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Aguarda-me. - disse a ela e flutuei dali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://agnostha.blogspot.com/2009/11/mix-parte-4_24.html"&gt;(Continua)&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6166509029461223532-2535598789891888503?l=agnostha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://agnostha.blogspot.com/feeds/2535598789891888503/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6166509029461223532&amp;postID=2535598789891888503&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/2535598789891888503'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/2535598789891888503'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://agnostha.blogspot.com/2009/11/mix-parte-3.html' title='Mix (Parte 3)'/><author><name>Agnostha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01959666006463231736</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://2.bp.blogspot.com/_CHP_-J93J6o/S1TD3Zrm6JI/AAAAAAAAAAM/AUnSeLWxstk/S220/Ag1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6166509029461223532.post-137642688314187133</id><published>2009-10-28T04:56:00.000-07:00</published><updated>2011-09-14T13:32:50.650-07:00</updated><title type='text'>Mix (Parte 2)</title><content type='html'>&lt;em&gt;Meu Deus! Que inferno é este!?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já havia sonhado com lugares feios antes: lugares que pareciam favelas, manguezais, florestas escuras... mas nunca havia sonhado com destruição. Destruição total.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havíamos pousado nos restos do que teria sido uma rua. Todo o lugar, que parecia ser o centro de uma cidade, fora abalado por um terremoto. De um lado e do outro só se via escombros, pilhas de concreto, aço retorcido, cascalho, e muito pó. Pó que pairava no ar como uma neblina estática.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava escuro, mas eu podia enxergar o cenário como se uma luz amarela pousasse sobre tudo... Era como ver um filme em tons de &lt;a href="http://www.oragoo.net/o-que-e-o-efeito-sepia-na-fotografia/"&gt;sépia&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando comecei a entender o que estava ouvindo, Agnostha pousou suas mãos sobre meus ouvidos e fiquei surda. Ela não queria que eu me assustasse com os gemidos e o rugir de terra assentando-se que ainda pairavam no ar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um calafrio percorreu minha espinha só de imaginar o que eu poderia ver ali. De alguma forma eu entendi que ao me ensurdecer ela poupava-me de entrar em descontrole emocional. Ela não queria que eu me apavorasse e, consequentemente, acordasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu - apesar de saber que estava numa cena de terremoto, e na &lt;em&gt;melhor&lt;/em&gt; das hipóteses estava tendo um pesadelo - sentia-me um pouco anestesiada. Sabia o que estava acontecendo, mas concordava em segui-la. Sentia a expectativa, no entanto, estava calma. Tinha que fazer o que viéramos fazer.... E ela ia me mostrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caminhamos lado a lado em direção a uma montanha enorme de concreto. Conforme avançava para aquela pilha de cascalho o cenário ia mudando, como se reconstruído, e me vi dentro de um prédio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era um hospital. Enfermeiros e pacientes passavam normalmente para lá e para cá no corredor. Pareciam nos ignorar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O filme avançou direto para um quarto onde sobre uma das camas próximas à janela estava uma solitária moça morena. Paramos, eu e a enorme mulher metálica, junto a parede no canto do quarto, próximo ao pé da sua cama, mas ela não nos percebeu. Éramos invisíveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A moça, que tinha entre 25 e 27 anos, era de uma beleza comum. Cabelos negros e lisos amarrados num coque, olhos amendoados levemente orientais. Estava mexendo distraidamente numa bolsa sobre o criado mudo ao lado. Era uma bolsa grande decorada com bichinhos e flores... Foi então que eu percebi que deveria estar numa maternidade pois a bolsa era uma daquelas que se usam quando se vai ter um bebê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei inquisitivamente para Agostha que apenas olhava a moça. Sem resposta. Virei a cabeça olhando novamente para a mulher, procurando por algo em especial.&lt;br /&gt;Para meu espanto, o local todo tremeu e os vidros da janela trincaram!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei apavorada para Agnostha e de novo para a moça que soltara um grito! ...E  a escuridão nos cobriu!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Silêncio.&lt;br /&gt;Não sentia nada. Apenas a escuridão. Mas compreendia perfeitamente o que havia acontecido. O local desmoronara. Estava ficando nervosa e minha garganta doía com vontade de chorar. Agnostha tocou meu braço e puxou-me dos escombros. Nós passamos através deles como se fossem nuvens. Eu estava desnorteada, porém íntegra. Ela me deixou sobre o monturo e na sequência mergulhou, afundando sob seus próprios pés como um fantasma. Em busca da moça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por um minuto fiquei só e angustiada. Eu sabia que à minha volta havia o caos e que se pudesse ouvir estaria desesperada. (&lt;em&gt;Pessoas esmagadas! Argh! Senhor!&lt;/em&gt;) Inclinei sobre os destroços e chamei por Agnostha. Senti um toque em meu ombro e a iridescente estava atrás de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minhas lágrimas desciam, eu tentava me controlar. Mas percebi que Agnostha também estava triste. Agnostha consegue expressar-se através da máscara. Apesar de seu rosto ser esculpido em metal, ele é dotado de pequenos movimentos. Suas sobrancelhas inclinavam-se levemente para baixo. Olhei em seus olhos que agora não brilhavam. Neles havia apenas a esclera perolada. &lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não encontrou a moça?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Ela, a moça, não queria ir... não queria partir... não sem seu bebê. Ela não o tinha visto quando nasceu. Fora um parto difícil. Ela não o queria... mas agora, arrependida, o quer. No entanto, não havia vínculo até então... Não há como reconhecê-lo... Ela está nervosa. Não consegue pensar coerentemente. Não consegue se concentrar no bebê. Não consegue transmitir sua humanidade para que o identifiquemos. É preciso outro humano para fazê-lo... eu&lt;/span&gt;. Eu tenho que fazer isso. Entendi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As lágrimas salgavam minha boca e a angústia crescia. Aquela realidade onírica me pegara desprevenida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando sonhava com Agnostha, ela fazia tudo. Me defendia dos maus, abria meus caminhos, me tirava voando dos perigos. Ela. Agora ela estava ali me pedindo para participar de um resgate justo quando estava mais consciente. Justo quando as barreiras entre o sonho e a realidade estavam tão tênues. Desejava sair daquele pesadelo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como fazer aquilo? Procurar um bebê nos escombros? Eu!? Medrosa, fraca e inapta do jeito que era? Como? Insegura??? Sempre fui, claro!!! As coisas pareciam grandes demais pra mim...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ter medo é natural.. Eu sei... Uma hora o medo é real, é um aviso. Outras é imaginação... Mas como acreditar no meu juízo? No juízo que faço das coisas sem falhar? Saber a diferença...?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fé!? Como ter fé? - comecei a soluçar como a criança que era - Tudo ao meu redor estava uma bagunça! Ninguém me ouvia! Alguém poderia me ouvir? Só você me ouve... - lembrei-me da &lt;a href="http://agnostha.blogspot.com/2009/10/agnostha-parte1.html"&gt;situação que vivia em casa&lt;/a&gt; - Eu não conseguia entender como as coisas ficaram tão ruins... Qual era meu lugar naquele mundo?... Eu tinha um lugar? Eu tinha medo... Como superar tudo aquilo ali ou em casa...?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele momento de pranto vi com assombro que estava no ponto de mutação. Eu ainda não tinha noção exata do que acontecia, mas sabia que o sonho e minha realidade estavam misturados de alguma forma. Eu crescia no sonho, e cresceria na vida real, ou eu sucumbia e ficaria uma garotinha assustada para sempre. A decisão era minha. Seria inevitável. Um dia eu tinha que tomar as rédeas de minha vida!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agnostha de pé a minha frente olhava-me complacente. A ternura fluía de suas pérolas e as imagens continuavam a vir a mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Nós? Juntas? Como? Se creio em você?... Eu creio em você! Você é forte! Grande! Eu creio em você! &lt;/span&gt;- solucei -&lt;span style="font-style: italic;"&gt; Sei... E você crê... Em Deus.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ergui meus olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fé. Era disso que ela falava. Ter fé para enfrentar os problemas. Ter fé é acreditar que nada acontece sem que Deus saiba. Ter fé é saber que a força vem a ti quando precisar dela. A minha força estava ali. A força de Deus estava ali. Eu tinha que experimentar a Fé. Então...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;... Eu creio em Deus também!!! -&lt;/em&gt; disse a ela usando meu pensamento e minha voz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tomei fôlego. Chega de choro!&lt;br /&gt;Ela segurou minhas mãos e eu, que a esta altura estava de joelhos, ergui-me. Respirei fundo novamente e controlei a dor na garganta.&lt;br /&gt;Era hora de crescer!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://agnostha.blogspot.com/2009/11/mix-parte-3.html"&gt;(Continua)&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6166509029461223532-137642688314187133?l=agnostha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://agnostha.blogspot.com/feeds/137642688314187133/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6166509029461223532&amp;postID=137642688314187133&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/137642688314187133'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/137642688314187133'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://agnostha.blogspot.com/2009/10/mix-parte-2_28.html' title='Mix (Parte 2)'/><author><name>Agnostha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01959666006463231736</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://2.bp.blogspot.com/_CHP_-J93J6o/S1TD3Zrm6JI/AAAAAAAAAAM/AUnSeLWxstk/S220/Ag1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6166509029461223532.post-7312325900419912526</id><published>2009-10-26T04:55:00.000-07:00</published><updated>2011-09-14T13:18:38.894-07:00</updated><title type='text'>Mix (Parte 1)</title><content type='html'>Estava eu sentada junto à sarjeta da calçada conversando, como meu novo costume, com meus recentes amigos: Deguinha - a melhor amiga, Diana - a evangélica, Lucy - a tímida, Andy - a espevitada, Mary - a corpaço (segundo os meninos), Deick - o inquieto, Ricky - o de orientação sexual duvidosa, Cacá - a meiga... Éramos todos adolescentes, entre 13 e 15 anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em um ano de nova moradia naquele bairro classe média, consegui ser aceita pelos adolescentes locais e foi muito confortante descobrir que pessoas bem legais moravam por lá. Integrei-me a esse grupo eclético. E sendo tão diferentes, éramos iguais em jovialidade e avidez por troca de experiências.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nossa calçada era especial. Era um esquina em formato de "T", onde nos sentávamos no topo do T para observar as duas ruas ao mesmo tempo. Um único poste fazia a iluminação daquele trecho dando àquela esquina um aspecto de luz-no-fim-do-túnel para quem vinha das outras quadras - tão ruim era a iluminação daquele lugar. Minha casa compunha um dos ângulos da esquina e por isso ganhava um certo destaque no hall de casas simples da rua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nós, as meninas, tagarelávamos sobre o grupo &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Menudo"&gt;Menudo&lt;/a&gt; de muito sucesso naquele tempo. Os meninos que estavam conosco caçoavam... cogitavam nosso gosto e chamavam eles de "gays".&lt;br /&gt;Os meninos eram sempre assim... Sei que até pode ser verdade; que algum dos meninos do Menudo fossem gays...mas e daí? Eles morriam era de inveja daqueles fofinhos. Eu amava o &lt;a href="http://dracobrasil.com/discografia.html"&gt;Robby&lt;/a&gt;... Isso dava uma discussão superanimada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só quando vi aquele par de olhos neon brilhando suavemente no escuro, olhando-me do terraço de minha casa, é que percebi que sonhava...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Ai, meu Deus! &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agnostha estava sentada em posição indiana e encarava-me. Sendo tão negra, e não tendo luz daquele lado, não era fácil percebê-la lá em cima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei se foi o costume , ou se não estava totalmente consciente - &lt;span style="font-style: italic;"&gt;se&lt;/span&gt;&lt;em&gt; fosse na vida real eu provavelmente correria desesperada gritando&lt;/em&gt; - só sei que não me assustei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como disse, ela aparecia rotineiramente em meus sonhos depois que &lt;a href="http://agnostha.blogspot.com/2009/10/agnostha-parte1.html"&gt;abri aquela porta&lt;/a&gt; e a partir de então eu tinha duas opções: ou contava pra minha mãe que há meses andava sonhando com uma andróide alienígena cor de grafite-escuro que conversava comigo por telepatia, e ela me mandava para um psicólogo... ou um exorcista; ou me acostumava com essa intromissão e tinha sonhos mais animados.&lt;br /&gt;Fiquei com a segunda opção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Senti que ela queria falar comigo. Pedi licença, acenei para os amigos e voltei para casa sem chamar a atenção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele ano ainda não tínhamos o segundo andar, que fora construído bem depois. Nosso terraço era apenas um espaço mal-utilizado ocupado por uma pilha de tijolos, caixas, garrafas vazias e vergalhões espetados que insinuavam os locais de onde novas vigas seriam construídas. Fui para os fundos e acessei a escada que dava para lá. Andei cautelosamente em meio às penumbras até ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mal me aproximei e já sabia que alçaríamos voo. Sem palavras. As imagens apenas entravam na minha cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela ficou de pé sem um ruído. Era alta. Bem alta. Um pouco delgada até. A expressão tranquila. Seus movimentos pareciam pensados, tentando não me assustar. Seus olhos brilharam mais e me vi refletida naquele corpo espelhado dela. Ela laçou minhas costas e pernas com seus braços metálicos como se eu tivesse o peso de um lençol. Eu abracei seu pescoço. Seu toque era veludo. Não era fria. Me sentia como no colo de minha mãe.&lt;br /&gt;Subimos. O terraço encolhendo rapidamente.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Voar com Agnostha, ou sendo Agnostha, é algo muito diferente: não se sente nada. Isso mesmo. Nada. Ela parece não se mover. Não há resistência do ar ou sensação de deslocamento. Ao que parece, o cenário é que se move ao redor dela, e não o contrário...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de certa altura - uns 15 metros mais ou menos - subindo em linha reta, a paisagem girou 90 graus ao norte e aceleramos. Agora ela se inclinava numa posição horizontal. Eu confortável, sem nada sentir. Em um segundo atingimos uma velocidade inimaginável. Tudo abaixo parecia um borrão; ao alto, um manto negro com riscas de giz. Não vi muita coisa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando dei por mim, estava num lugar horrível.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Cavaleiros_do_Apocalipse"&gt;Destruição e Morte&lt;/a&gt;, dois dos cavaleiros do Apocalipse, estavam por lá...&lt;br /&gt;&lt;a href="http://agnostha.blogspot.com/2009/10/mix-parte-2_28.html"&gt;(Continua)&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6166509029461223532-7312325900419912526?l=agnostha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://agnostha.blogspot.com/feeds/7312325900419912526/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6166509029461223532&amp;postID=7312325900419912526&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/7312325900419912526'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/7312325900419912526'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://agnostha.blogspot.com/2009/10/mix-parte-1.html' title='Mix (Parte 1)'/><author><name>Agnostha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01959666006463231736</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://2.bp.blogspot.com/_CHP_-J93J6o/S1TD3Zrm6JI/AAAAAAAAAAM/AUnSeLWxstk/S220/Ag1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6166509029461223532.post-1182418784651527167</id><published>2009-10-19T04:53:00.000-07:00</published><updated>2011-09-14T12:48:19.863-07:00</updated><title type='text'>Agnostha (Parte4)</title><content type='html'>O sorriso dela atravessou meu corpo como um choque!!!&lt;br /&gt;E com este estalo fui puxada de volta com muita violência!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num segundo senti como se mil de mim mesma estivessem caindo na cama - como fazem os jogadores de poker habilidosos com um baralho de cartas - E a cada camada nova que caía, um sentido novo era acionado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi incrível!!! Durou segundos, mas foi incrível!!! Um chiado de estática castigava meus ouvidos e a sensação de espaço envolvia meu corpo enquanto várias de mim mesma sobrepunham-se em milésimos de segundo!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E finalmente, no segundo seguinte, minha consciência caiu naquele corpo! Meu próprio corpo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Senti-me arfar profundamente arqueando minha coluna no momento em que fui reanimada com o pulso atroz de uma descarga elétrica!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Milionésimos depois tudo estava terminado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ofegante e desnorteada, sentei na cama e olhei em volta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O quarto estava no mais perfeito silêncio. Minha irmãzinha dormia tranquilamente na cama ao lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquele era o momento de entrar em pânico, mas senti-me estranha na sequência... Calma.&lt;br /&gt;Meus olhos ficaram sem foco e minha respiração desacelerou rapidamente... Meu coração também. Calma.Uma estranha calma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi gradativo, mas rápido. Em três minutos me sentia muito calma. (&lt;em&gt;Hoje eu imagino que essa calma me foi dada... Como uma criança passa por um sonho daqueles e fica calma?)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;A tranquilidade se apossou de mim e cheguei a rir de mim mesma... &lt;em&gt;Que imaginação! -&lt;/em&gt; pensei. Tornei a me deitar olhando para o teto e fiquei rememorando aquilo tudo. &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Que situação, meu Deus!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Virei de lado e senti um torpor...  acho que dormi de novo... Sem sonhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela manhã fui para a escola muito feliz e tranquila e entre um intervalo e outro fiz um desenho de minha heroína. (Ah! Sim. Porque alguém tão linda só poderia ser minha própria heroína...) Exagerei um pouco nos traços, insinuei roupas como um &lt;em&gt;collant&lt;/em&gt; ou &lt;em&gt;body.&lt;/em&gt; Depois fiquei admirando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele tempo sentávamos em carteiras escolares duplas e a coleguinha do lado ficou olhando com um vinco na testa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Que é isso? - perguntou-me quando não conseguiu segurar mais a curiosidade.&lt;br /&gt;-- Sonhei com ela... Acho que é uma &lt;a href="http://pt.m.wikipedia.org/wiki/Androide"&gt;andróide&lt;/a&gt;... - gostei de usar o termo. Achei que se aplicava bem ao caso.&lt;br /&gt;-- Bacana... Você desenha bem. Eu também desenho. Quer ver? - e tirou da mochila seu caderno e me mostrou seus desenhos de bonecas vestidas ao estilo &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Barbie&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Definitivamente eu estava fora dos padrões das meninas de minha idade... As meninas desenhavam flores, bonecas, príncipes... E eu desenhava unicórnios, espaçonaves, guerreiras e andróides...&lt;br /&gt;De qualquer modo, aquele foi um bom começo; fiz uma amizade. Dina - apelido carinhoso - me apresentou as outras coleguinhas e acabei aceita pelo grupo. Grupo pequeno... longe do holofote das populares, mas legal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passei os dias super bem... me sentindo forte, como há algum tempo não me sentia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Na semana seguinte tornei a sonhar com ela... Isto é, &lt;em&gt;ela&lt;/em&gt; estava no meu sonho. Observava-me.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Não havia notado a presença dela. Sonhava que estava na escola - que, aliás, já não tinha aquele &lt;span style="font-style: italic;"&gt;cômodo-que-ninguém-ia&lt;/span&gt; - durante uma aula de matemática. Batera o sinal do recreio e nós saímos felizes como sempre. Ia comprar meu lanche quando a vi sentada elegantemente no telhado do quiosque da cantina. Me assustei um pouco mas ela só ficou lá. Olhava-me. Continuei sonhando normalmente.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Em outra ocasião sonhava que passeava com meus pais de carro. Ela estava de pé a beira da estrada, de novo apenas observando-me. O carro passou por ela... isso foi tudo.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Foi aí, que em uma outra noite sonhava que estava voltando de uma festa sozinha (Isso estava começando a ocorrer na vida real - de meus pais deixarem eu e uma nova amiga de minha rua, Deguinha, irmos sozinhas às festinhas juninas nas praças do bairro). Dois caras mal-encarados barraram meu caminho. Estava escuro, não havia ninguém por perto e eu já sabia o que era estupro. Senti pavor naquele momento. Não haveria escapatória. Meu sonho se tornaria um pesadelo horrível!&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Ela apareceu do nada! Intrometeu-se entre mim e os caras, e num gesto simples empurrou-os a metros de distância com uma força sobre-humana. Apesar de estar salva, a surpresa da cena de ação - bastante vívida para mim - me fez acordar assustada. Mas depois fiquei bem.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Eu estava descobrindo esta força. E esta força estava me acompanhando. Isso era bom.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;E assim foi indo... Depois daquela fatídica noite a personagem aparecia rotineiramente em meus sonhos. As vezes observando, as vezes participando. Foi realmente incômodo no início. Não que ela me assustasse... eu me assustava sozinha, só de ver aquilo... quer dizer, ela.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Demorou mas aos poucos sua presença foi se tornando comum e perdi o medo... Consciente ou não, ela estava por lá. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Ela simplesmente integrou-se ao meu imaginário - E até hoje, de uma forma ou de outra, ela faz parte de minha vida porque agora &lt;a href="http://agnostha.blogspot.com/2009/10/mix-part-1.html"&gt;ela e eu&lt;/a&gt; somos a mesma pessoa.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Dei um nome a ela que, originalmente, não é Agnostha. Mas esse pseudônimo é necessário pois como algumas pessoas conheciam a personagem dos tempos escolares, achei por bem chamá-la diferente aqui neste blog... (&lt;em&gt;A verdade é que me sinto meio boba por estar contando essas coisas...)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Bem... Agnostha veio depois, quando aprender línguas se tornou um hobby. "&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Agnostha&lt;/span&gt;", como já disse, significa "Desconhecida".&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Sei que você deve estar pensando que existem várias explicações psicológicas para esta estória. E provavelmente existem. E provavelmente eu as aceito: um período familiar difícil; adaptatividade; hormônios adolescentes; surto de crescimento... Sim. Eu tinha bastante motivos para ter uma noite conturbada. Mas convenhamos que algumas coisas nessa situação são um pouco &lt;em&gt;over&lt;/em&gt;... mesmo para uma adolescente. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Notem... Eu não tinha referências... Naquela época não existiam personagens cinematográficos que pudessem fazer parte do imaginário de ninguém, como os iridescentes de &lt;em&gt;&lt;a href="http://www.adorocinema.com/filmes/exterminador-do-futuro-2/"&gt;Exterminador do Futuro 2&lt;/a&gt;&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;&lt;a href="http://www.adorocinema.com/filmes/quarteto-fantastico-2/"&gt;Surfista Prateado&lt;/a&gt;&lt;/em&gt;. Eu não lia revistinhas em quadrinhos - ah, sim... li toda &lt;em&gt;&lt;a href="http://www.atica.com.br/catalogo/colecoes.aspx?i=8508044453&amp;amp;c=32"&gt;coleção Vaga-Lume&lt;/a&gt;&lt;/em&gt; da época... - locadoras eram caras; e meu primeiro videogame, de cartucho, incluía &lt;a href="http://colunistas.ig.com.br/gamegirl/files/2009/04/pac_man.jpg"&gt;&lt;em&gt;Pac-Man&lt;/em&gt;&lt;/a&gt; e &lt;em&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_pK7hCWwjPPI/SlFO-tG4phI/AAAAAAAAA5s/wM3uygfDkYo/s400/space_invaders.jpg"&gt;Space Invaders&lt;/a&gt;&lt;/em&gt;... Não eram lá um grande desafio mental... E mesmo que ainda a mídia tenha tido alguma influência; não há como negar que estive Agnostha em vários momentos importantes de minha vida...&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Foi assim quando em sonho soube que viajaria para Aracaju, para Belém e para o Ceará; estive Agnostha quando enfrentei em sonho os avisos das três vezes em que quase morri; estava Agnostha quando me foram apresentados os dois caras que realmente fizeram diferença no amor... Coisas que vivi na vida real.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Agnostha é como uma armadura em que me torno quando me preparo para a guerra... E o mais interessante: minha profissão é ligada, indissociavelmente, aos livros... Livros!!! E já tinha sido avisada que assim o seria desde quando abri aquela porta aos 11 anos de idade: seria Bibliotecária. &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Biblioteconomia!&lt;/span&gt; - a profissão mais pacata do mundo (no imaginário das pessoas!)!!!&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Agora que contei isso, me sinto mais aliviada. É bom registrar isso em algum lugar, mesmo num blog. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Ah, sim... Você pode comentar e me chamar de "louca", "maluca", "esquizofrênica" e tudo o mais... Mas eu não ligo. Não te obrigo a ler isso...&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Espero ter coragem para contar outras coisas... Gostaria de saber como eu e Agnostha nos tornamos uma só?&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;a href="http://agnostha.blogspot.com/2009/10/mix-parte-1.html"&gt;(Continua)&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6166509029461223532-1182418784651527167?l=agnostha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://agnostha.blogspot.com/feeds/1182418784651527167/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6166509029461223532&amp;postID=1182418784651527167&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/1182418784651527167'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/1182418784651527167'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://agnostha.blogspot.com/2009/10/agnostha-parte4.html' title='Agnostha (Parte4)'/><author><name>Agnostha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01959666006463231736</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://2.bp.blogspot.com/_CHP_-J93J6o/S1TD3Zrm6JI/AAAAAAAAAAM/AUnSeLWxstk/S220/Ag1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6166509029461223532.post-3795681236569389791</id><published>2009-10-14T04:51:00.000-07:00</published><updated>2011-10-03T12:40:27.537-07:00</updated><title type='text'>Agnostha (Parte3)</title><content type='html'>Foi com alívio, surpresa e admiração que entrei naquele ambiente.&lt;br /&gt;Sabe quando você fica fascinado e seu queixo cai...? Pois é. Fiquei com aquela cara de &lt;span id="SPELLING_ERROR_0" class="blsp-spelling-error"&gt;babaca&lt;/span&gt;...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma Biblioteca!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era uma sala enorme. Com o &lt;a href="http://www.google.com.br/search?sourceid=navclient&amp;amp;hl=pt-BR&amp;amp;ie=UTF-8&amp;amp;rlz=1T4GGLL_pt-BRBR333BR333&amp;amp;q=define%3a+p%c3%a9+direito"&gt;pé-direito&lt;/a&gt; de uns 3 andares. Muito Alto.&lt;br /&gt;De frente pra mim abria-se um amplo espaço numa sala que parecia ter o formato octogonal.&lt;br /&gt;Não haviam paredes visíveis. Estavam todas cobertas com prateleiras cheias de livros. Livros com &lt;span id="SPELLING_ERROR_1" class="blsp-spelling-error"&gt;lombadas&lt;/span&gt; rústicas e outras modernas, finas e grossas, de todas as cores e materiais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma suave luz entrava pelo &lt;span id="SPELLING_ERROR_2" class="blsp-spelling-error"&gt;teto&lt;/span&gt; que era ocupado por um vitral decorado com arabescos. Isso dava ao ambiente um ar angelical e agradável como numa manhã de sol.&lt;br /&gt;Tudo parecia estar em animação suspensa, como se há muito ninguém entrasse ali. Ainda assim, não registrei nenhum odor, seja papel ou mofo, tão comum em bibliotecas. O ar parecia &lt;span id="SPELLING_ERROR_3" class="blsp-spelling-error"&gt;mentolado&lt;/span&gt; e frio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei olhando para as paredes de livros... dando alguns passos enquanto admirava. Me virei e foi aí que notei o sarcófago... (&lt;em&gt;Juraria que não estava lá há um segundo atrás...&lt;/em&gt;). Estava no centro do octógono.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parecia mesmo um sarcófago egípcio deitado sobre uma mesa de mesmo contorno. As laterais eram decoradas com símbolos e imagens que só me remetem, ao que posso compreender, à cultura egípcia.&lt;br /&gt;Franzi o &lt;span id="SPELLING_ERROR_4" class="blsp-spelling-error"&gt;cenho&lt;/span&gt; estranhando aquilo. Destoava do cenário medieval em volta. Me aproximei mais e vi que não havia cobertura. Estava aberto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do ângulo e distância em que eu vinha não podia ver seu interior mas sabia que iria ter algo ali dentro. No mesmo segundo minha cabeça começou a vagar por todos os filmes de múmia que já tinha visto (ainda bem que naquela época, o filme &lt;a href="http://www.interfilmes.com/filme_13972_A.Mumia-%28The.Mummy%29.html"&gt;"A Múmia" de &lt;span id="SPELLING_ERROR_5" class="blsp-spelling-error"&gt;Stephen&lt;/span&gt; &lt;span id="SPELLING_ERROR_6" class="blsp-spelling-error"&gt;Sommers&lt;/span&gt;&lt;/a&gt; estava longe de ser lançado!).&lt;br /&gt;O medo me inundava e fiz força para não acordar... Sabia que tinha que ir até o fim; confrontar o conteúdo do sarcófago e acabar com aquele padrão onírico de "&lt;span id="SPELLING_ERROR_7" class="blsp-spelling-error"&gt;cômodos&lt;/span&gt;-que-ninguém-ia".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Avancei mais um pouco. Mas lentamente...&lt;br /&gt;Pude ver alguns contornos, que para minha surpresa, não possuíam as esperadas &lt;span id="SPELLING_ERROR_8" class="blsp-spelling-error"&gt;ataduras&lt;/span&gt; de múmia. Me aproximei mais e foi com alívio que reconheci um brilho. Espelho?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Confiante, me aproximei da lateral do sarcófago e fiquei extasiada com o que vi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não era um espelho... Era uma estátua.&lt;br /&gt;Uma escultura. Representava uma mulher alta. Acho que tinha uns 2 metros de altura.&lt;br /&gt;Jazia com as mãos e seus dedos compridos entrelaçados sobre o peito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seus traços eram finos. Me lembravam a &lt;a href="http://static.infoescola.com/wp-content/uploads/2010/03/nefertiti.jpg"&gt;rainha &lt;span id="SPELLING_ERROR_9" class="blsp-spelling-error"&gt;Nefertiti&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;: um rosto anguloso, lábios grossos e nariz bem definidos com olhos que, se estivessem abertos, pareceriam ligeiramente &lt;span id="SPELLING_ERROR_10" class="blsp-spelling-error"&gt;desproporcionais&lt;/span&gt; àquele rosto de tão grandes que eram. Sobrancelhas finas emolduravam estes grandes olhos e faziam uma leve curva nas têmporas.&lt;br /&gt;Sua cabeça parecia estar coberta por um capacete que remetia àquele adorno egípcio que pode ser visto na &lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_QngxzN6pW0U/ScV18m1-fFI/AAAAAAAAE5E/sXuESxtbz80/s400/Deusa+eg%C3%83%C2%ADpcia.JPG"&gt;deusa &lt;span id="SPELLING_ERROR_11" class="blsp-spelling-error"&gt;Bastet&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;, porém estilizado. Era curto. Não cobria o pescoço... Isso mesmo... seu rosto era uma mistura de &lt;span id="SPELLING_ERROR_12" class="blsp-spelling-error"&gt;Nefertiti&lt;/span&gt; com &lt;span id="SPELLING_ERROR_13" class="blsp-spelling-error"&gt;Bastet&lt;/span&gt;... só que com linhas mais ousadas... de uma certa forma &lt;span id="SPELLING_ERROR_14" class="blsp-spelling-error"&gt;contemporânea&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Que coisa linda!&lt;/em&gt; Um ar milenar com um toque futurista...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto a seu corpo, não haviam linhas ou outros adornos que assinalassem roupas. Ao que tudo indicava, ela estava nua. No entanto, pelo que notei, este fora esculpido para parecer vestido, como se estivesse usando uma roupa de mergulho - ou algo similar - já que os ângulos revelavam muito, mas não tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era um corpo esguio, atlético, musculoso, mas sem exageros.&lt;br /&gt;Seios &lt;span id="SPELLING_ERROR_15" class="blsp-spelling-error"&gt;proporcionais&lt;/span&gt; - nem grandes, nem pequenos; uma cintura fina seguida de &lt;span id="SPELLING_ERROR_16" class="blsp-spelling-error"&gt;quadris&lt;/span&gt; bem demarcados. Pernas fortes e compridas. Não haviam dedos nos pés. Estavam apenas insinuados, como em um sapato ou meias. Suas curvas eram muito &lt;span id="SPELLING_ERROR_17" class="blsp-spelling-error"&gt;aerodinâmicas&lt;/span&gt;. Ela era &lt;span id="SPELLING_ERROR_18" class="blsp-spelling-error"&gt;longilínea&lt;/span&gt;... Quase alienígena...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alienígena, sim porque - acho até que deveria ter falado isso primeiro - ela era toda feita de metal... Isso mesmo. Uma escultura metálica... Um metal de cor grafite-escuro. Quase negro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O metal - ou o que quer que fosse - parecia ter sido misturado a uma &lt;span id="SPELLING_ERROR_19" class="blsp-spelling-error"&gt;purpurina&lt;/span&gt; finíssima, dourada, que cintilava levemente ao longo de toda aquela obra de arte. Era como um aço polido... onde eu podia ver meu próprio reflexo distorcido sobre os ângulos de seu corpo.... (Daí a confusão com um espelho...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Era incrível!!! Era linda!!! Era assustadora!!!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu fiquei encantada com tudo... A quietude e tranquilidade do sonho... as cores... o ar... o ambiente mágico... Eu... - a Alya-criança-quase-adolescente - admirando uma obra de arte... Era como um &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/A_Midsummer_Night%27s_Dream"&gt;sonho mágico de uma noite de verão&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem notar... Sem ao menos ter consciência do ato... Minha mão direita - pequena, se comparada à dela - estava tocando os dedos sobre seu peito.&lt;br /&gt;Curiosidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mal estabeleci &lt;span id="SPELLING_ERROR_20" class="blsp-spelling-error"&gt;contato&lt;/span&gt; e sua cabeça se virou pra mim! Seus olhos se acenderam - literalmente - como se fossem feitos de mil &lt;em&gt;&lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/LED"&gt;&lt;span id="SPELLING_ERROR_21" class="blsp-spelling-error"&gt;leds&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;/em&gt; branco-azulados e sua boca, mesmo sendo esculpida sobre o metal, esboçou um sorriso!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://agnostha.blogspot.com/2009/10/agnostha-parte4.html"&gt;(Continua)&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6166509029461223532-3795681236569389791?l=agnostha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://agnostha.blogspot.com/feeds/3795681236569389791/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6166509029461223532&amp;postID=3795681236569389791&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/3795681236569389791'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/3795681236569389791'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://agnostha.blogspot.com/2009/10/agnostha-parte3.html' title='Agnostha (Parte3)'/><author><name>Agnostha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01959666006463231736</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://2.bp.blogspot.com/_CHP_-J93J6o/S1TD3Zrm6JI/AAAAAAAAAAM/AUnSeLWxstk/S220/Ag1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6166509029461223532.post-6476733795926870907</id><published>2009-10-10T04:50:00.000-07:00</published><updated>2011-10-03T12:29:58.825-07:00</updated><title type='text'>Agnostha (Parte2)</title><content type='html'>Me lembro de ter tido pesadelos quando era criança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma vez sonhei com um gorila e acordei chorando; outra, com bruxas e uma outra, com ter sido abandonada numa estação de trêm. Eu era pequena e a TV tinha sempre uma influência direta ou indireta nestes pesadelos. Além disso, eram passageiros. Você sonha uma vez e não sonha mais. São uma expressão de um momento e pronto.&lt;br /&gt;Não foi o caso do "cômodo-que-ninguém-ia".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não posso dizer também que era um pesadelo... Mas quando você sonha duas a três vezes por semana com o mesmo sonho, você começa a achar aquilo pesadelar...&lt;br /&gt;Era um padrão repetitivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Toda vez que eu sonhava que estava em casa, nela havia um cômodo que ninguém ia. Toda vez que sonhava que estava na escola, tinha uma sala em que ninguém entrava. Toda vez que sonhava com qualquer ambiente fechado... pronto! Tinha uma sala, um cômodo, que ninguém estava autorizado a entrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na maioria das vezes era só uma porta. Fechada. Coisa simples. Em outras era representada por um corredor tortuoso no qual ao fim se encontrava a tal porta trancada.&lt;br /&gt;Nesses sonhos eu passava pelo corredor e via a porta. Sabia que era proibido e só. Ignorava e continuava sonhando. Em outras vezes alguém, um circunstante de sonho qualquer, fazia um comentário: "Não entre ali. É proibido." Eu obedecia e seguia minha noite normalmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse padrão vinha se repetindo por semanas, talvez uns dois meses, até que uma noite eu estava mais consciente.... e mais curiosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me vi numa casa antiga enorme.&lt;br /&gt;Eu estava de pé no meio de uma sala - Sabia que sonhava. Até ri comigo mesma - Olhei em volta e uma decoração rústica ocupava o ambiente. Cadeiras torneadas ao redor de uma grande mesa de madeira no mesmo padrão. Estandartes nas paredes. Castiçais sobre o aparador escuro. Poderia ser um castelo. Sim, era. Um daqueles bem cliché.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em uma das paredes havia um portal que dava para um corredor. O &lt;em&gt;tal corredor&lt;/em&gt;, pensei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Avancei para ele. Pra quê ficaria parada ali? Sabia que devia seguir... E agora, que sabia que estava sonhando poderia explorar aquele ambiente diferente.&lt;br /&gt;Caminhei um pouco. As paredes de pedra eram iluminadas por tochas espaças. Eu ficava mais tensa ao andar.&lt;br /&gt;O corredor era extenso demais e fazia uma leve curva aonde parecia mais escuro. Não dava para ver seu fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora meus passos faziam barulho no piso de mármore. Só ouvia a mim mesma. O silêncio era gritante.&lt;br /&gt;Eu sabia que encontraria a porta... e sabia também que ela não estaria trancada... Fragilizada, minhas mãos se uniram sobre meu peito, e conforme eu caminhava eu ficava mais suspeita.&lt;br /&gt;Mais escuro e eu mais amedrontada.&lt;br /&gt;Um &lt;a style="font-style: italic;" href="http://www.telacritica.org/Nosferatu.htm"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;film &lt;/span&gt;noir&lt;/a&gt; começava a se formar em minha cabeça... imaginei a porta aberta... algo aterrorizante em seu interior... Talvez um vampiro, um monstro... Quem sabe um &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Assassino_em_s%C3%A9rie"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;serial killer&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;?... O quê? O que poderia ser?&lt;br /&gt;Meu coração palpitava!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LUZ!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordei assustada.&lt;br /&gt;Olhos arregalados, o coração ainda batendo forte.&lt;br /&gt;Não consegui virar a curva e chegar até o fim do corredor... era muito assustador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Acalme-se, Alya! É só um sonho. - falei pra mim mesma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ofeguei um pouco, depois deitei. Demorou algum tempo para eu voltar a dormir, e quando consegui, estava eu lá, incrivelmente, no ponto em que parei!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tornei a acordar. &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Que droga!&lt;/span&gt; Meu peito reclamava angustiado.&lt;br /&gt;Meu impulso foi correr para a cama dos meus pais e dormir por lá... mas eu já era bem grandinha para aquilo... daí me controlei. Virei de lado e vi minha irmã em seu soninho perfeito na cama vizinha. Me contentei com sua companhia e relaxei. Fiquei zanzando pelos pensamentos até que o dia clareou e levantei para ir para a escola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sabia que numa outra noite tornaria a ver a porta. Sabia que não tinha opção a não ser entrar naquele cômodo que ninguém ia. Tinha que fazê-lo. Acabar com aquele padrão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois bem, dois dias depois, naquela mesma semana, sonhei que estava em casa. Sonho banal.&lt;br /&gt;Entrei no corredor da copa e... não era mais o corredor que dava para a copa... era &lt;em&gt;aquele&lt;/em&gt; corredor. Reconheci de imediato. Estagnei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A consciência me veio clara. Sabia que sonhava.&lt;br /&gt;Olhei em volta. Nada de assustador. Só o mesmo corredor com uma flâmula iluminando alguns metros adiante de mim. Desta vez me sentia mais forte. Avancei.&lt;br /&gt;O mesmo silêncio; só o barulho de meus pés no piso frio. &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Estaria descalça? Sei lá!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Continuei andando. Controlando o pavor. Os punhos apertados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalmente venci a curva e via a porta, desta vez representada por uma pesada porta de madeira num estilo que combinava com o corredor medieval.&lt;br /&gt;Avancei timidamente e segurei a argola que fazia a vez da maçaneta. Neste momento, ouvi uma voz, doce e clara, parecendo ser feminina:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;--Tem certeza que vai entrar? Você será modificada para sempre....&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me assustou. A voz estava atrás de mim. Não me virei para ver. A voz parecia apenas querer avisar. Esclarecer. Não impor ou proibir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Eu tenho que fazer isso. - respondi taciturna, mas decidida, ainda olhando a argola que segurava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não houve resposta.&lt;br /&gt;Eu fiz uma pequena força e empurrei a madeira deixando o cenário se descortinar a minha frente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://agnostha.blogspot.com/2009/10/agnostha-parte3.html"&gt;(Continua)&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6166509029461223532-6476733795926870907?l=agnostha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://agnostha.blogspot.com/feeds/6476733795926870907/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6166509029461223532&amp;postID=6476733795926870907&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/6476733795926870907'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/6476733795926870907'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://agnostha.blogspot.com/2009/11/agnostha-parte2.html' title='Agnostha (Parte2)'/><author><name>Agnostha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01959666006463231736</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://2.bp.blogspot.com/_CHP_-J93J6o/S1TD3Zrm6JI/AAAAAAAAAAM/AUnSeLWxstk/S220/Ag1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6166509029461223532.post-7937258822244685613</id><published>2009-10-07T04:49:00.000-07:00</published><updated>2011-09-12T14:11:44.859-07:00</updated><title type='text'>Agnostha (Parte1)</title><content type='html'>Deixa eu explicar como é este negócio de "estar &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_0"&gt;Agnostha&lt;/span&gt;".&lt;br /&gt;Confesso a vocês que de tudo que me é estranho, estar &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_1"&gt;Agnostha&lt;/span&gt; é o &lt;em&gt;mais estranho&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não só pela profusão de sensações - que espero tentar fazê-los vislumbrar - mas porque tenho consciência que é algo que chega a soar meio ridículo... meio &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_2"&gt;estória&lt;/span&gt; em &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_3"&gt;quadrinhos&lt;/span&gt;, &lt;a href="http://www.universohq.com/"&gt;&lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_4"&gt;HQ&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;, sabe?&lt;br /&gt;Chego a ficar sem jeito para contar essa &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_5"&gt;estória&lt;/span&gt; mas ao mesmo tempo é algo tão inerente ao meu mundo onírico, astral, irreal - &lt;span style="font-style: italic;"&gt;seja lá que mundo que é esse o meu&lt;/span&gt; - que não dá para ignorar. Afinal, ela...quer dizer, eu...quer dizer, isso... dá nome a este blog.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem... foi tudo lá pelos anos 80. Eu era pré-adolescente (juro que vou fazer uma força danada para não revelar minha idade &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_6"&gt;atual&lt;/span&gt;).&lt;br /&gt;Havíamos nos mudado para uma nova casa própria - um feito para uma família brasileira já que todo mundo vive de &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_7"&gt;aluguel&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;Era uma casa num bairro residencial da baixada (também vou fazer uma força danada para não revelar meus endereços), térrea, &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_8"&gt;recém&lt;/span&gt;-construída, ainda inacabada, mas tinha um amplo quintal e a possibilidade de expansão dos &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_9"&gt;cômodos&lt;/span&gt; agradava meus pais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois que minha mãe começara a trabalhar, nossa vida tinha melhorado sensivelmente - economicamente falando - e aquela casa era a primeira marca de um novo tempo para nossa família.&lt;br /&gt;A ida de minha mãe para o mercado não só foi bom para nossas finanças, mas foi bom também para ela, como pessoa. Ela abriu os olhos em relação a muitas coisas.&lt;br /&gt;Pessoas, governo, vida... Várias coisas que em seu mundo rosa de dona-de-casa eram perfeitas em si mesmas começaram a adquirir novos contornos mais realistas. E uma das realidades que mais nos impactou foi sua nova visão sobre seu marido, meu pai.&lt;br /&gt;Depois de 15 anos vivendo sob sua guarda, dependendo dele para tudo, e sendo grata por isso, ela começava a perceber através de suas novas vivências como ele a controlava e o quanto era... digamos... infiel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Suas desconfianças a levavam a crer que ele - como se diz mesmo? - "pulava a cerca" de vez em quando.&lt;br /&gt;Ela nunca &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_10"&gt;flagrou&lt;/span&gt; nada, nem tampouco algum incauto lhe afirmara nada, mas depois que ela começou a entender os esquemas da vida da rua, ver algumas ausências como comprometedoras e alguns sorrisos como dúbios foi uma questão de tempo até o início das brigas por ciúmes fundados e infundados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu pai sempre foi um bom pai. Um pai que nada deixa faltar em casa, nem à mulher.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Ah, sim, sempre teve seus defeitos... Mas quem não tem?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Contudo, com o tempo as brigas foram se agravando. E, inevitavelmente, chegaram a um ponto crítico; com berros e troca de &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_11"&gt;malediscências&lt;/span&gt;, onde não víamos, na época, outra saída a não ser a separação.&lt;br /&gt;Eles faziam o possível para deixar a nós - eu, minha irmã e meu irmão - de fora das discussões. Mas havendo traição ou não, nenhum filho quer ver sua família dividida... e aquela fase gerou &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_12"&gt;reações&lt;/span&gt; diversas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Graças a Deus nenhum de nós se tornou um delinquente nem nada disso. Sabíamos que éramos amados, e esse amor nos aquecia e manteve nossa unidade básica, mas de qualquer modo éramos muito jovens, com a &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_13"&gt;personalidade&lt;/span&gt; em formação, e as marcas ficaram através dos tempos até a &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_14"&gt;atualidade&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu irmão, o filho do meio, ainda um menino na época, começou a ter notas baixas na escola e apesar de depois ter concluído o ensino médio, perdeu seu interesse pelos estudos &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_15"&gt;acadêmicos&lt;/span&gt;. Tão logo se viu fora da escola tratou de arranjar um emprego e depois fez sua própria família.&lt;br /&gt;Minha irmã, a caçula, ainda muito criança, se apegou mais aos &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_16"&gt;amiguinhos&lt;/span&gt; e sendo tão carismática, até hoje possui este traço pessoal de ser a &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_17"&gt;superpopular&lt;/span&gt; em todos os meios em que circula. E eu, a primogênita e mais &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_18"&gt;introspectiva&lt;/span&gt;, me enfiei cada vez mais nos livros e nos estudos como um oásis de paz... como faço até hoje.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, sim, a fase passou.... (&lt;em&gt;de vez em quando ainda tem um &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_19"&gt;arrancarrabo&lt;/span&gt;...)&lt;/em&gt; Os dois estão juntos até hoje. Aceitaram os erros do passado, curtem o presente, e mais apaixonados do que nunca em seus mais de 30 anos de casamento.&lt;br /&gt;Como o mundo dá voltas... Acho que ao fim todos crescemos, de certa forma...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas foi nesta época, com esse clima pesado no lar, com a casa nova, escola nova e poucos amigos, que comecei a sonhar com o "&lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_20"&gt;cômodo&lt;/span&gt;-que-ninguém-ia". Que lugar sinistro!&lt;br /&gt;&lt;a href="http://agnostha.blogspot.com/2009/11/agnostha-parte2.html"&gt;(Continua)&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6166509029461223532-7937258822244685613?l=agnostha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://agnostha.blogspot.com/feeds/7937258822244685613/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6166509029461223532&amp;postID=7937258822244685613&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/7937258822244685613'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/7937258822244685613'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://agnostha.blogspot.com/2009/10/agnostha-parte1.html' title='Agnostha (Parte1)'/><author><name>Agnostha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01959666006463231736</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://2.bp.blogspot.com/_CHP_-J93J6o/S1TD3Zrm6JI/AAAAAAAAAAM/AUnSeLWxstk/S220/Ag1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6166509029461223532.post-7314835784664605675</id><published>2009-09-20T04:34:00.000-07:00</published><updated>2011-10-03T12:25:45.134-07:00</updated><title type='text'>Ladrão</title><content type='html'>Então estava eu lá. Caminhando pela rua. Acho que indo pro trabalho.... Estava no centro do Rio. Passei em frente a Caixa &lt;span id="SPELLING_ERROR_0" class="blsp-spelling-error"&gt;Econônica&lt;/span&gt; e o rapaz correu.&lt;br /&gt;Foi nessa hora que lembrei que estava sonhando.&lt;br /&gt;E agora, Alya? Mais um sonho lúcido. O que devia fazer agora?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rapaz, um &lt;span id="SPELLING_ERROR_1" class="blsp-spelling-error"&gt;lourinho&lt;/span&gt;, sem camisa, de calça &lt;span id="SPELLING_ERROR_2" class="blsp-spelling-error"&gt;jeans&lt;/span&gt; e chinelos levou o dinheiro da senhora que estava em frente à porta do banco. &lt;span id="SPELLING_ERROR_3" class="blsp-spelling-error"&gt;Sacanagem&lt;/span&gt;! - pensei.&lt;br /&gt;Era todo o dinheiro que ela tinha pra pagar o &lt;span id="SPELLING_ERROR_4" class="blsp-spelling-error"&gt;aluguel&lt;/span&gt; e a mensalidade da filha... Droga! Detesto quando estas informações entram em minha cabeça!&lt;br /&gt;Ser &lt;span id="SPELLING_ERROR_5" class="blsp-spelling-error"&gt;superconsciente&lt;/span&gt; as vezes é doloroso!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em um segundo via o rapaz correndo e no outro já sabia que a senhora era viúva, do &lt;span id="SPELLING_ERROR_6" class="blsp-spelling-error"&gt;aluguel&lt;/span&gt;, da mensalidade e que o rapaz tinha um padrasto que batia na mãe dele...! Droga! Ele ia usar o dinheiro pra dar um "&lt;span id="SPELLING_ERROR_7" class="blsp-spelling-error"&gt;tapinha&lt;/span&gt;", comprar um &lt;span id="SPELLING_ERROR_8" class="blsp-spelling-error"&gt;tênis&lt;/span&gt; e ir pra balada... quem sabe deixava algum com a mãe...&lt;br /&gt;Saco!!! Que faço!? Bem... o sonho é meu, não é? Não vou deixar que filho da p... nenhum roube e se dê bem num sonho meu... mesmo que tenha suas &lt;span id="SPELLING_ERROR_9" class="blsp-spelling-error"&gt;justificativas&lt;/span&gt;...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem se passaram dois segundos e eu já estava no ar.&lt;br /&gt;Sempre foi muito fácil pra eu voar em meus sonhos... quer dizer... desde que soube que podia fazê-lo, lá pelos 8 anos mais ou menos... De início era &lt;span id="SPELLING_ERROR_10" class="blsp-spelling-error"&gt;exporádico&lt;/span&gt;. Diversão de pequena frequência. Depois que me apaixonei a primeira vez e perdi... e com a perda desejei estar perto dele em sonho, essa capacidade foi ficando mais intensa. Até que tudo aconteceu e tive que fazer um curso de &lt;a href="http://www.iipc.org/"&gt;&lt;span id="SPELLING_ERROR_11" class="blsp-spelling-error"&gt;Projeciologia&lt;/span&gt;&lt;/a&gt; pra me controlar... Bem isso é &lt;a href="http://agnostha.blogspot.com/2009/10/agnostha-parte1.html"&gt;outra &lt;span id="SPELLING_ERROR_12" class="blsp-spelling-error"&gt;estória&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num segundo o rapaz estava correndo e no segundo seguinte eu estava no ar. É fácil. É só fazer com que seus &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Chacra"&gt;&lt;span id="SPELLING_ERROR_13" class="blsp-spelling-error"&gt;chacras&lt;/span&gt;&lt;/a&gt; te sustentem. Os &lt;span id="SPELLING_ERROR_14" class="blsp-spelling-error"&gt;chacras&lt;/span&gt; plantares dão impulso, o cardíaco, junto com os palmares, estabilizam o voo, os pulmonares impulsionam pra frente... Nada de mais... O mais difícil é controlar a velocidade. Dependendo da vontade você se lança com uma força tal que perde a noção de espaço. É difícil controlar seu pensamento para avançar um metro de cada vez quando você tem a velocidade do pensamento para estar onde quiser. Mais com o tempo eu aprendi a controlar isso, porque quando voo na velocidade do pensamento geralmente perco o alvo... Vou parar muito distante de onde estava e se não reconheço aonde estou, tendo a perder a consciência, talvez pelo esforço, talvez por ser fraca, e volto a sonhar normalmente... inconsciente. Assim, voando rapidamente mas consciente dos metros que estou avançando, não me perco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ergui-me uns 5 metros do chão e avancei na &lt;span id="SPELLING_ERROR_15" class="blsp-spelling-error"&gt;direção&lt;/span&gt; do rapaz que agora corria a minha frente. As pessoas olhavam, umas perplexas, espantadas, outras mais preocupadas com sair da frente. Não me preocupei se elas estariam espantadas com minha capacidade ou com a situação: um ladrão correndo, uma perseguição. Não sabia em que universo estava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As vezes - muito raramente - sei em que universo estou. Umas vezes sinto que estou no universo paralelo; aquele em que todo mundo é onírico e tem capacidades iguais as minhas; noutras, no mundo dos mortos - você pode chamar do que quiser: &lt;span id="SPELLING_ERROR_16" class="blsp-spelling-error"&gt;umbral&lt;/span&gt;, purgatório, céu, &lt;span id="SPELLING_ERROR_17" class="blsp-spelling-error"&gt;colônia&lt;/span&gt;... não me importo, não sou religiosa. E outras, no mundo dos vivos, ou algo próximo, onde as pessoas têm as &lt;span id="SPELLING_ERROR_18" class="blsp-spelling-error"&gt;reações&lt;/span&gt; esperadas de quando estamos acordados, isto é, se surpreendem, fogem, gritam, enfim... Como você reagiria vendo uma mulher de salto, bolsa e trajes executivos voando, sem nenhum aparato, à 5 metros de altura?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alcancei o rapaz em poucos segundos... caí, literalmente, em suas costas, travando-o com meu peso e pernas no chão. Não doeu... ao menos não pra mim. Ele bateu com as mãos tentando amortecer a queda. Seu rosto quicou no asfalto, machucou mas não sangrou. Um "ai" meio estrangulado e abafado foi o que ouvi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Que coisa feia, rapaz? - disse meio sarcástica - Aonde pensa que vai? - completei me lembrando de uma fala de filme.&lt;br /&gt;-- Merda! Que isso? &lt;span id="SPELLING_ERROR_19" class="blsp-spelling-corrected"&gt;Sai&lt;/span&gt; de cima de mim! - xingou ele com raiva. Começou a se debater e virou-se por debaixo de minhas pernas. Seu rosto assustado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sabe que ele era até bonitinho? Estava meio &lt;span id="SPELLING_ERROR_20" class="blsp-spelling-error"&gt;sujinho&lt;/span&gt;, mas me lembrava o &lt;em&gt;&lt;a href="http://t2.gstatic.com/images?q=tbn:ne0eg1SU0FoGoM:http://api.ning.com/files/YOk*7av6c9H7xvCiS8QV*DDVf5Moae5fhBeaALrDRxi2zqAOuCXYCzARXEOOqMklJ3VZztF8M4oi5whlOFWapj0g2CyFZ5XM/James001.jpg"&gt;James&lt;/a&gt;&lt;/em&gt; de &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Twilight_%28s%C3%A9rie%29"&gt;Crepúsculo&lt;/a&gt;... &lt;span id="SPELLING_ERROR_21" class="blsp-spelling-error"&gt;(Caraca&lt;/span&gt;, tenho que parar de ler esta série... Já está entrando nos meus sonhos lúcidos!...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Devolve! Seu filho da mãe! - gesticulei com as mãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele ficou tão assustado quando me viu que &lt;span id="SPELLING_ERROR_22" class="blsp-spelling-corrected"&gt;paralisou&lt;/span&gt;...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Será que eu &lt;a href="http://agnostha.blogspot.com/2009/10/estar-agnostha-parte-1.html"&gt;estava &lt;span id="SPELLING_ERROR_23" class="blsp-spelling-error"&gt;Agnostha&lt;/span&gt; &lt;/a&gt;de novo? Minha pele &lt;span id="SPELLING_ERROR_24" class="blsp-spelling-error"&gt;grafitti&lt;/span&gt; brilhante, feita de metal reluzente, meus olhos brilhando sem íris e sem pupila, como uma pérola? Acho que sim... meu peso o mantinha no chão como preso a uma rocha... eu nem o sentia se debater...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ai... não queria pensar em minha aparência...&lt;span id="SPELLING_ERROR_25" class="blsp-spelling-error"&gt; Agnostha&lt;/span&gt; ou não, meti minha mão na calça dele - ele tinha tirado o dinheiro da bolsa, enfiado na &lt;span id="SPELLING_ERROR_26" class="blsp-spelling-error"&gt;cueca&lt;/span&gt; e jogado a bolsa fora na corrida - senti aquela área &lt;span id="SPELLING_ERROR_27" class="blsp-spelling-error"&gt;quentinha&lt;/span&gt; e volumosa... arfei - &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Ai meu Deus! Um descuido e fico inconsciente! Volúpia é um saco!!! Transforma qualquer sonho em &lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;" id="SPELLING_ERROR_28" class="blsp-spelling-error"&gt;sacanagem&lt;/span&gt;! - e puxei o dinheiro.&lt;br /&gt;Olhei pra ele com cara &lt;span id="SPELLING_ERROR_29" class="blsp-spelling-error"&gt;acusativa&lt;/span&gt;. Ele ainda assustado. Levantei sem dificuldade, libertando-o.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- &lt;span id="SPELLING_ERROR_30" class="blsp-spelling-corrected"&gt;Sai&lt;/span&gt; daqui! - disse apontando o caminho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele não falou nada, os olhos cravados nos meus, branco feito vela... Ergueu-se como se estivesse tentando encontrar o próprio corpo, meio devagar e depois, catando cavaca, correu como quem corre do tal (aquele que nunca menciono...).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei olhando-o sumir em meio ao povo que se juntava. Olhei o dinheiro em minha mão. Olhei em volta e vi a senhora encostada junto a uma arara de uma loja. A mão na boca, olhos &lt;span id="SPELLING_ERROR_31" class="blsp-spelling-error"&gt;atônitos&lt;/span&gt;, vincados no &lt;span id="SPELLING_ERROR_32" class="blsp-spelling-error"&gt;cenho&lt;/span&gt;. Será que ela correria de mim se eu me aproximasse? Mesmo com o dinheiro dela em minhas mãos, numa oferta clara de devolução?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dei um passo. Melhor, não. Olhei pra ela, fiz sinal que o dinheiro estava ali. Abaixei-me e pus o dinheiro no chão. Olhei em volta com uma cara de repreensão. Ninguém chegaria perto daquele dinheiro, sem dúvida, a não ser a tal senhora. As pessoas congeladas onde estavam.&lt;br /&gt;Era melhor sair... Voar dali... Estava ficando inconsciente porque entristecia... Ia acabar tendo um sonho ruim na sequência e não queria aquilo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Voe, Alya!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alcei voo &lt;span id="SPELLING_ERROR_33" class="blsp-spelling-error"&gt;reto&lt;/span&gt; para o céu. Deixei a velocidade do pensamento me dominar.&lt;br /&gt;Céu azul... Céu Negro... Estrelas... Limbo... Consciência. Ressonei. E em um segundo estava em minha cama. Eram 06:42 da manhã de hoje (veja a data do &lt;span style="font-style: italic;" id="SPELLING_ERROR_34" class="blsp-spelling-error"&gt;post&lt;/span&gt;).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei pro lado quebrando a &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Catalepsia_projetiva"&gt;&lt;span id="SPELLING_ERROR_35" class="blsp-spelling-error"&gt;catalepsia&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;Minha família - meu marido, minha filha entre nós (ela pulou pra nossa cama de novo!?) - ainda dormia. Olhei pro &lt;span id="SPELLING_ERROR_36" class="blsp-spelling-error"&gt;teto&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span id="SPELLING_ERROR_37" class="blsp-spelling-error"&gt;Caraca&lt;/span&gt;! Um psicólogo me internaria se eu contasse essa maluquice de hoje pra ele...&lt;br /&gt;Mas isso acontece todas as noites. Toda noite estou num filme diferente. Nem sempre me lembro... Nem sempre tenho tempo para me lembrar... Mas hoje, lembrei. Precisei registrar. Se não registrar isso em algum lugar vai parecer que nunca aconteceu - na minha cabeça, quero dizer...&lt;br /&gt;É por isso que decidi escrever este blog. Pra registrar isso. Isso e tudo o mais que me parecer desconhecido.... como eu mesma... uma desconhecida de mim mesma... &lt;span id="SPELLING_ERROR_38" class="blsp-spelling-error"&gt;Agnostha&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(&lt;a href="http://agnostha.blogspot.com/2009/10/agnostha-parte1.html"&gt;Continua&lt;/a&gt;...)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6166509029461223532-7314835784664605675?l=agnostha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://agnostha.blogspot.com/feeds/7314835784664605675/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6166509029461223532&amp;postID=7314835784664605675&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/7314835784664605675'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/7314835784664605675'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://agnostha.blogspot.com/2009/09/ladrao.html' title='Ladrão'/><author><name>Agnostha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01959666006463231736</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://2.bp.blogspot.com/_CHP_-J93J6o/S1TD3Zrm6JI/AAAAAAAAAAM/AUnSeLWxstk/S220/Ag1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6166509029461223532.post-1353578256731705125</id><published>2009-09-19T04:32:00.000-07:00</published><updated>2010-07-14T19:32:46.264-07:00</updated><title type='text'>Agnostha</title><content type='html'>Tudo que é desconhecido é &lt;span id="SPELLING_ERROR_0" class="blsp-spelling-error"&gt;agnosto&lt;/span&gt;, agnóstico.&lt;br /&gt;"&lt;span id="SPELLING_ERROR_1" class="blsp-spelling-error"&gt;Agnosta&lt;/span&gt;", ΑΓΝΩΣΤΑ do grego, "desconhecido".&lt;br /&gt;Como desconhecida pouco, é bobagem... esse blog ficou &lt;span id="SPELLING_ERROR_2" class="blsp-spelling-error"&gt;Agnostha&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;Com H, pra ter mais charme... se tornar um nome.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui você vai encontrar os fatos(?) mais estranhos que já aconteceram comigo.&lt;br /&gt;Não pretendo seguir nenhuma cronologia.... é melhor assim... escrever o que der vontade de revelar...&lt;br /&gt;Além do mais, isso é um blog, não um livro, embora tenha pensado em escrever um livro com os textos que estão aqui... &lt;em&gt;será que alguém se interessaria em comprar minhas insólitas histórias?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem... se tiver paciência e mente aberta, poderá ler algumas coisas interessantes... encare como uma &lt;span id="SPELLING_ERROR_3" class="blsp-spelling-error"&gt;distração&lt;/span&gt;. Se bem que pra mim, é tudo &lt;span id="SPELLING_ERROR_4" class="blsp-spelling-corrected"&gt;verdade&lt;/span&gt;... como em um exercício de &lt;span id="SPELLING_ERROR_5" class="blsp-spelling-error"&gt;autoconhecimento&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span id="SPELLING_ERROR_6" class="blsp-spelling-error"&gt;Autoconhecimento&lt;/span&gt; de uma estranha... desconhecida... &lt;span id="SPELLING_ERROR_7" class="blsp-spelling-error"&gt;agnosta&lt;/span&gt;... &lt;span id="SPELLING_ERROR_8" class="blsp-spelling-error"&gt;Agnostha&lt;/span&gt;.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6166509029461223532-1353578256731705125?l=agnostha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://agnostha.blogspot.com/feeds/1353578256731705125/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6166509029461223532&amp;postID=1353578256731705125&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/1353578256731705125'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6166509029461223532/posts/default/1353578256731705125'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://agnostha.blogspot.com/2009/09/agnostha_19.html' title='Agnostha'/><author><name>Agnostha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01959666006463231736</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://2.bp.blogspot.com/_CHP_-J93J6o/S1TD3Zrm6JI/AAAAAAAAAAM/AUnSeLWxstk/S220/Ag1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
