Ryiuniyana (Parte 5)

terça-feira, 25 de maio de 2010

Alguns dizem que a morte nada mais é do que um despertar para uma outra vida. No meu caso, eu senti literalmente isso.

Enquanto meu corpo morria no sonho, eu sentia as formas familiares da minha cama ganharem consistência sob mim.

Mas eu não queria despertar! Eu queria encontrar Prēmī e me empurrei em direção à inconsciência.

Sabia, no entanto, que era em vão. Eu já estava sentindo meu corpo deitado de decúbito dorsal, real demais. Mais um segundo e estaria totalmente desperta. Foi quando eu ouvi:

-- Gavāhī?

Meu coração disparou ao reconhecer a voz suave, e aquilo só me fez ter mais certeza de que já estava acordada. No mesmo instante, senti a mais leve pressão em meus lábios e junto com ela a sensação de uma presença curvada sobre mim.

A adrenalina se espalhou frenética em minhas veias, mas não abri meus olhos... Deixei-me beijar. Meu Deus! Isso é onírico demais... real demais... Ofeguei. As lágrimas abriram caminho entre minhas pálpebras...

... E a ilusão se dissipou. Como uma brisa...

Abri os olhos. Eu estava só.
Um gemido baixo rompeu meu peito enquanto eu me sentava no colchão abraçando meus joelhos. Não consegui segurar o choro. Era irracional, eu sei, mas não consegui. Sabia que não podia fazer barulho. Era de manhã. Minha mãe iria bater em nossa porta em alguns minutos. Minha irmã dormindo na cama ao lado.

Eu soluçava baixo com a cabeça apoiada nos joelhos. Sentia-me um tanto ridícula chorando por um sonho... só um sonho.
Respirei fundo, tentando me controlar. Passei as costas das mãos nos olhos e ergui a cabeça. Suspirei. Lembrei do beijo de novo... Tão doce... Tornei a chorar.

Mesmo agora, enquanto escrevo estas linhas, não consigo ignorar a dor em meu peito.

Eu sabia que eles haviam partido - Gavāhī e Prēmī. Em algum lugar, eles se encontraram...
Ao menos era assim que eu queria que fosse.

Eu devia esquecer o beijo. Ele era mais uma das minhas "estranhices agnósticas"...

Até hoje não sei exatamente qual fora minha conexão com Gavāhī. Uma antepassada minha? Uma encarnação minha?Hum... Possível, tendo em vista algumas coincidências que ocorreram depois. Mas não provável... De qualquer modo, naquela hora eu não queria pensar em nada. Mal e mal eu conseguia lidar com meus sentimentos confusos, quem dirá pensar em conexões espirituais...

Depois de tentar ser racional meia dúzia de vezes, consegui enfim, controlar aquela sandice.

Quando minha mãe abriu a fresta da porta eu já estava de pé procurando mecanicamente minhas roupas pra sair. Ela sorriu dando "bom dia". Notei que ela viu meus olhos. Deviam estar no mínimo inchados, mas não comentou nada. Ela desceu dizendo que ia pôr o café e que eu acordasse minha irmã.

Naquele fim de semana, por coincidência, eu tinha desmanchado meu namoro com Wendel - um simpático rapaz que conhecera numa festa de quinze anos três meses antes. Imagino que ela deve ter pensado que meus olhos vermelhos e meu ex deviam ter alguma relação...

Mal sabia ela que eu estava feliz da vida por ter desmanchado. Não feliz por ter causado dor em alguém, veja bem. Aquilo não me agradou. Mas feliz por estar livre de novo. Não havia mesmo química em nosso namoro... Nenhuma.

Ele queria uma coisa... Que eu ainda não estava preparada para dar... - se é que me entendem... - Ele estava ficando impaciente, insistente, irritante. E eu também.

Ele frequentava a casa já fazia um mês, quando resolvi acabar com tudo.
Foi chato. Ele ficava me perguntando o "porquê" e eu não tinha um "porquê" para responder pra ele. Eu não queria o que ele queria e pronto! Me constrangia falar sobre o assunto.

Quando ele, resignado, me deu um beijo de despedida e foi embora, eu senti alívio... E um pouco de tristeza também... Nunca mais procuraria
Cigana alguma. Droga!

Quando comecei a namorar com ele no fim da primavera do ano anterior, eu achei que ele poderia ser o tal cara das cartas...
Lêdo engano. Nem de longe.

Naquele dia quente de meados de janeiro, segunda de manhã, minha mãe acorda e me pega de olhos vermelhos no quarto. Ela deve ter associado meu estado a algum sentimento de arrependimento ou culpa... Até fazia sentido... De certa forma eu me sentia culpada sim.

Culpada por frustrar meus pais (de novo); culpada por não me apegar a ninguém; culpada por ser egoísta; não sentir desejo por ninguém; culpada por não saber amar.
Acho que minha noite turbulenta tinha ótimas explicações, afinal.

Saí de casa com cara de enterro (sem piada) naquele dia. Um nó fazia menção de se formar em minha garganta sempre que pensava em Gavāhī e Prēmī. Me incomodava.

Encarar uma reunião na faculdade foi realmente um porre... Só não foi pior pois tínhamos conseguido as passagens para Aracaju.

Eu falo "tínhamos" porque Marconi também estava lá. Ele fora o herói daquele dia - já que naquela mamnhã minha apatia não ia conquistar nem uma passagem de metrô para a a zona Norte, quem dirá quinze de ônibus para Aracaju. Ele fora eloquente e hábil e conseguira o acordo com o reitor. Eu o admirava.

Vi que ele estranhou um pouco minha quietude, mas não comentou nada. Era mesmo um bom amigo...

Saímos da reunião felizes com a vitória - eu não tão efusiva...-, nos despedimos com um abraço fraterno e cada um seguiu seu caminho. Ele tinha que ir para o trabalho e eu para meu novo estágio. Pela hora, eu iria ter que adentrar pela tarde para poder pagar as horas que ficara na reunião. Mas tudo bem. Isso iria ocupar minha cabeça. Era o melhor a fazer.

Enquanto me dirigia pra lá - de ônibus - eu fiquei me debatendo internamente: porquê estava tão triste e incomodada com o sonho? Afinal eu tenho sonhos doidos quase todas as noites... Por que aquele me incomodava tanto?

Só perto da UFRJ é que eu chegara a uma surpreendente conclusão: estava com inveja de Gavāhī Dēnā. Não inveja do destino dela... Não, claro que não. Inveja do que ela tinha com Prēmī.

Tá! Tudo bem. Era infantil mesmo. Essa estória de primeiro amor, amor eterno, e coisa e tal... Eu sei! Mas o que eles tinham era tão lindo e puro e correspondido... Era amor.
E isso não é banal... Não mesmo. É raro... Muito raro.

E tinha a dor. Até a dor eu invejava. Eu sei que parece presunção, mas eu não conseguia me imaginar sofrendo por alguém daquele jeito intenso que ela sofrera pelo garoto - haja vista o que eu fizera ao pobre Wendel... No pity!

Gavāhī parecia ser mais humana do que eu. Sofreu por amor como uma humana, morreu por este amor... Eu era mais uma andróide mesmo. Agnostha. Vivia para fazer meu trabalho: analisar, aprender, planejar, sintetizar, corrigir, agir, organizar...

Mesmo meu relacionamento com outras pessoas era muito superficial. Tinha sorte de conseguir manter algumas amizades antigas... Não que eu fosse uma insensível. Não, acho que não. É claro que eu já tinha me apaixonado antes, na adolescência. Mas eu, mesmo adolescente, sabia que era passageiro. Curtia o momento. Era moda.

Depois de moça eu levantara as barreiras: namoro só para ocupar o tempo! Eu tinha meus objetivos! Queria conquistar independência! Viva as barreiras! Nada seria tão forte para derrubá-las... A não ser um amor como aquele, e eu, certamente, nunca iria encontrar algo como aquilo... Nem ao menos similar... Eu sabia.

Foi com este espírito que cheguei à biblioteca naquele dia e dei de cara com aquele rapaz.

No instante em que nossos olhos se cruzaram eu senti um arrepio correr por minha espinha e a sensação de estar estranhamente desconfortável... Vulnerável...
Medo. Só podia ser medo...

Depois do estágio, lá pela tardinha, enquanto voltava pra casa, até estava rindo comigo mesma. Coitado do rapaz! Deve ter me achado uma maluca! Bipolar!

Primeiro pareço um bicho acuado, e depois, uma tagarela! - ria olhando pela janela do ônibus - Maluca mesmo...

O sol brilhava alaranjado no horizonte daquele entardecer de verão.

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Hoje, vejo como foi estranho o como - de certa forma - aquele sonho se realizou, com seus desdobramentos até bem recentes - tendo em vista a cicatriz em meu pulmão... E pensar que tudo começou naquele dia...

A propósito... "Ryiuniyana" quer dizer "Reencontro".

(Continua)

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